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Crítica

Cena atravessada por contrastes poderosos

15.3.2015  |  por Daniel Schenker

Foto de capa: Natalia Cheban

Atores jogam tinta preta sobre paredes brancas e transformam os borrões em desenhos que sugerem com precisão judeus ortodoxos. Em torno de óculos, pintam crianças de mãos dadas. Opus nº 7 lembra que o teatro pode ser feito com pouco, que a limitação é a grandeza dessa arte. O encenador Dmitry Krymov se vale de sua experiência nos terrenos da cenografia e da pintura, mas não de modo exibicionista.

Nas imagens desenhadas não há rostos. É natural. Krymov fala sobre pessoas perseguidas – na primeira parte, intitulada Genealogia, os judeus; na segunda, denominada Shostakovich, o compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) –, manipuladas como fantoches, anuladas ou exterminadas pelo regime em vigor.

Krymov oculta os rostos, mas não o restante do corpo. Mãos brotam em fraques pendurados, fragmentos de corpos surgem de dentro da parede. Há algo de sinistro nas imagens apresentadas pelo diretor no primeiro ato: as paredes são constantemente furadas, rasgadas, quebradas. Objetos que remetem ao Holocausto, como sapatos de crianças e óculos, são lançados. Mas, para além das associações objetivas, fica a impressão de que o interno subitamente irrompe como uma força que não pode mais ser contida. O sinistro também vem à tona em imagens poderosas, como a dos pianos enferrujados e meio arrebentados que se chocam de modo agressivo no segundo ato.

Ainda que não apareçam nos desenhos, muitos rostos atravessam a encenação de Opus nº 7, tanto nas projeções de retratos quanto na relação de fotografias em papel. Em dado momento, as fotos são identificadas, e breves histórias sobre aqueles indivíduos, rapidamente contadas. Krymov parece chamar atenção para uma noção de patrimônio, para a importância de uma visão de mundo que engloba o passado – e a memória enquanto apropriação personalizada dos fatos –, e não uma limitada percepção do presente como instância recortada no tempo. Em determinados instantes, o que está congelado nas fotos – nesse sentido, atado ao passado – ganha vida – ou atualidade –, a exemplo das passagens em que elementos de fotos projetadas (uma bola, um carrinho de bebê) “pulam” para dentro da cena. A perspectiva histórica é realçada pela trilha sonora, marcada por sonoridade que se aproxima do sagrado, do ancestral.

No primeiro ato, o público, disposto de frente para o palco, depara-se mais com um grupo do que propriamente com indivíduos; no segundo, quando retorna à sala e se acomoda ao redor da cena, o espectador constata a fragilidade do indivíduo, oprimido por impositivas regras oficiais, diante do autoritarismo do sistema. Se em Genealogia Krymov aborda admiravelmente o teatro como síntese, em Shostakovich, preenche o espaço com elementos em escala gigantesca, dando vazão a certos contrastes – entre a dimensão inumana e o indivíduo impotente, entre a trilha algo grandiloquente e os momentos de silêncio potencializados por atores em registro mais contido, austero, hierático. Em Opus nº 7, a plateia é confrontada com sons de um mundo aterrorizante, tanto no que se refere aos tiros, às bombas e às sirenes quanto aos passos de uma figura ameaçadora, mais do que suficientes para colocar os personagens em estado de suspensão.

.:. Publicado no âmbito da Prática da Crítica, uma das atividades da ação Olhares Críticos na 2ª MITsp, aqui.

Daniel Schenker

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