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Crítica

Sucessão de acúmulos

16.3.2015  |  por Daniel Schenker

Foto de capa: Paulo Camacho

No início de E se elas fossem para Moscou?, Isabel Teixeira diz que os espectadores talvez não estejam diante de uma encenação e nem de um filme, mas de ambos. “É nesse espaço entre que a gente vai se reinventar”, diz. No entanto, esse “entre” não desponta como indefinição – no sentido de um híbrido que não se afirma nem como teatro, nem como cinema –, e sim como acúmulo. Realizado pela diretora Christiane Jatahy como um díptico – diferentes plateias assistem à montagem e ao filme resultante do registro de cada apresentação –, E se elas fossem para Moscou? acumula teatro e cinema, passado e presente, atuação diante do público e da câmera, espaço da cena e da plateia. Cabe investigar cada um desses acúmulos.

O projeto – que resulta da apropriação da peça As três irmãs, de Anton Tchekhov – está fincado na interface entre teatro e cinema, evidenciado na presença de câmeras ao longo da encenação, na cenografia e nos trabalhos das atrizes. O cenário (de Jatahy e Marcelo Lipiani), em boa parte centrado na reconstituição da sala da casa das irmãs, traz à tona certa atmosfera de época que remete à reprodução fidedigna de uma fatia de realidade, plataforma do realismo/naturalismo de Constantin Stanislavski.

Mas a diretora caminha na contramão da relação ilusionista entre público e cena, própria da cena realista/naturalista, ao quebrar a quarta parede e convidar o espectador a interagir com o elenco. Promove uma fusão – até certo ponto – entre o espaço da plateia e o da cena. De qualquer modo, há uma suspensão, a partir de dado momento, de um certo padrão de cenografia realista. Quando a ação é transferida para os quartos da casa, os ambientes passam a ser mais sugeridos do que minuciosamente concebidos ou delimitados através de paredes. Antes, porém, dessa transição, a cenografia remete a um set de filmagem devido à inserção de câmeras e às paredes móveis, constantemente manipuladas durante a sessão.

As atrizes interpretam visando tanto ao espectador quanto à câmera. As plateias da encenação e do filme têm diferentes acessos às atuações. Eventuais sussurros transmitem organicidade ao público da montagem ao revelarem que as personagens permanecem pulsantes quando não estão no foco, ao mesmo tempo em que se destinam à dimensão intimista da câmera. O registro de atuação parece servir aos dois “veículos”: uma naturalidade refinada, que resulta da ocultação do processo de construção. No início e no final, as atrizes parecem falar em primeira pessoa, o que minimiza, em parte, o peso da mensagem frisada (“Como a gente faz para mudar de verdade?”) na dramaturgia e dota o resultado de sinceridade febril. Julia Bernat aproveita a passionalidade da juventude; Stella Rabello impõe autoridade a uma personagem controladora; e Isabel Teixeira, diferentemente das colegas de cena, não conta com o recurso da contundência e se destaca pela sutileza com que projeta, por meio do olhar, as frustrações de Olga.

E se elas fossem para Moscou? acumula tempos. Sua origem reside no passado. Conforme já dito, o ponto de partida foi a peça de Tchekhov, escrita em 1900 e o cenário conserva um perfume de antigamente. Mas Jatahy realizou uma apropriação repleta de evidências de contemporaneidade, a julgar pelo linguajar coloquial e pelas referências aos dias de hoje (celular, Youtube). Eventuais brincadeiras realçam o estranhamento decorrente de sinais do passado no presente (a reação diante do nome do pretendente de Irina, Solioni, personagem de As três irmãs).
A questão temporal também se encontra na base da conexão entre teatro e cinema, na medida em que a primeira manifestação está fincada no aqui/agora da apresentação e a segunda, no passado, no sentido da exibição de imagens previamente gravadas. Contudo, Jatahy mostra, em E se elas fossem para Moscou?, um cinema do quase presente porque o espectador do filme assiste às cenas editadas pela diretora no instante da apresentação. No espetáculo, o público se depara com ações concomitantes, enquanto que no filme o olhar da plateia é conduzido pela montagem, que elege planos em detrimento de outros. Mas a imaginação do espectador do filme não é reprimida. O som se constitui como estímulo sugerindo um mundo para além das imagens captadas.

.:. Publicado no âmbito da Prática da Crítica, uma das atividades da ação Olhares Críticos na 2ª MITsp, aqui.

Daniel Schenker

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