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Crítica

Teatralidade e jogo no universo mamulengueiro

28.3.2015  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Hércules Castro & Lu Oliveira

O VII Festac – Festival Nacional de Teatro do Acre apresentou em uma mesma sequência dois espetáculos de mamulengo que além de deliciosas horas de gargalhadas renderam exemplos de como a cena popular pode ser/é exemplar quando se pensa em formas para a teatralidade viva (o que supõe que haja um teatro morto, e há mesmo). Enraizado no mundo ordinário para saltar para além dele, o mamulengo não tem – e não quer ter – outra saída senão essa mesma, a de explorar por meio da animação de bonecos o acidente e o burlesco da vida através de uma filosofia chã, absolutamente material, em que os objetos postos à reflexão são reconhecidos imediatamente porque inspirados nos tipos humanos e nas formas da sociabilidade que conhecemos bem. Como dizia Hermilo Borba Filho no seu fundamental Fisionomia e espírito do mamulengo, “é a nossa exclusiva forma de espetáculo total, onde o boneco é o personagem integral e o público um elemento atuante”.

Isso bastaria para dar conta de uma percepção inicial que tem resposta generosa nestes dois trabalhos apresentados no Fetac. Tanto o Núcleo do Olho (AC), com Vade retro – A história do homem que vendeu a alma ao diabo e quase perdeu seu amor quanto o Mamulengo da Folia (PE), com A folia no terreiro de seu Mané Pacaru dialogam fundamente – ainda que não da mesma forma, com os mesmos efeitos e com as mesmas estratégias dramatúrgicas – com estes princípios fundamentais que movem o que parece ser a essência do mamulengo.

Nas duas montagens sobressai nos tipos populares a caracterização tradicional do gênero, demarcada nos traços rápidos e fundamentais talhados em cada boneco. Estes por sua vez representam posições de classe social, religiosa (o negro pobre, o coronel poderoso, o padre, o demônio), alegorizam disposições afetivas (o enamorado, a enamorada) ou forças da natureza (a cobra grande). Os entrechos, também antirrealistas por excelência, dialogam com o repertório da cultura popular: quiproquós, lutas e jornadas heroicas que começam nas situações ordinárias do mundo terreno e avançam no campo do sobrenatural, onde uma parte da história é desenrolada. Nos dois espetáculos é o amor (e o sexo) impedido pelas diferenças de raça e posição social o que movimenta as personagens, narradas através de quadros mais autônomos no trabalho de Danilo Cavalcante (A folia no terreiro…) e mais contínuo no espetáculo do grupo acreano.

Em A folia no terreiro de seu Mané Pacaru Danilo Cavalcante, um mestre nessa arte, é capaz de experimentar, a partir desta cena popular, tudo aquilo que no teatro de sala os artistas perseguem como quem corre na busca do ouro, do mais precioso do ofício: o domínio dos meios – qual seja, das técnicas; e, mais que isso, o seu uso pleno, sem sobras, a favor da teatralidade. Seu trabalho alcança aquele ponto de sofisticação artística em que o virtuose já não precisa exibir seus valores porque o poder de comunicação que o espetáculo alcança parece ser fruto justo desta consciência primeira, dominada em ato, de que os meios não são os fins. De que a sedução da plateia (o seu inegociável lugar de chegada) decorre da propriedade que o mamulengueiro tem não só dos seus materiais como também, rigorosamente, das várias fontes narrativas do espetáculo – as que já estão no plano inicial e as que vão sendo agregadas no decorrer da representação, desde as técnicas de animação e manipulação em si como também a escuta atentíssima do entorno, que alimenta as incontáveis variações improvisadas. Delas se faz a liga entre o roteiro básico com que os bonecos sobem à empanada e o mundo de possibilidades que vai ganhando espaço na cena aberta com a plateia. Um engenho rústico como a fala simples e direta em que se inspira, um teatro de enorme poder sobre quem assiste.

'Mané Pacaru' com o Mamulengo da Folia (PE)Hércules Castro & Lu Oliveira

‘Mané Pacaru’ com o Mamulengo da Folia (PE)

O trabalho do grupo acreano não teve a mesma sorte do primeiro na apresentação que foi transferida da rua para dentro do Mercado velho por causa da chuva. Além de acontecer em um espaço ruim de acústica, com muita reverberação, ainda foi levado no gogó, sem microfones. Para uma narração toda feita por detrás da empanada, como é comum nesse caso, perdeu-se um pouco do narrado.

Mesmo assim manteve-se de pé a igual tarefa do anterior, que o grupo se pôs com a valentia pedida pelas circunstâncias: chegar ao público sem mais delongas. Diferente do Mané Pacaru, que se faz na base de fragmentos razoavelmente livres, o espetáculo tem uma narrativa contínua e redonda, o que não impossibilita a autonomia do grupo para os improvisos, mas lhe dá um eixo mais exigente se o ponto de vista for o da manutenção da sequência que está sendo contada. Usando também as técnicas de manipulação através de luva e vara, o espetáculo se articula na mesma linguagem desobediente, cheia de conotações sexuais e nas críticas de comportamento em que as formas de relacionamento vão sendo desnudadas ao mesmo tempo em que deixam revelar o modo como um poder exterior as organiza e disciplina. O barato está – sempre – na percepção de que ao enquadramento dos poderosos há uma inteligência urgente, atenta, que sobrevive porque busca encontrar, na galhofa e por vezes no nonsense, as saídas para aquilo que na vida parece sem saída. Nem que para isso seja necessário lançar mão de artifícios extraordinários.

Nos dois espetáculos a narrativa não se dá sem o acompanhamento musical, que não só faz as vezes da sonoplastia como também a de uma das fontes dramatúrgicas mais importantes da encenação. Em ambas a sanfona, o bumbo e o triângulo – e os músicos que as animam – são verdadeiros antagonistas, junto com o público. São chamados a dialogar com os acontecimentos, respondem aos improvisos e ajudam a demarcar o andamento das cenas.

O sentido político destes dois espetáculos enraizados nas razões da arte popular tradicional não está necessariamente (ou não só) nas referências e nas informações que aqui e ali aparecem no meio da narrativa sobre os lances atuais da vida brasileira. Antes mesmo disso está no fato de reconhecerem a nós como sujeitos, coisa sem a qual esta cena não sobrevive, não tem razão de ser. A política se articula então através desse repertório de soluções estéticas que começa na feitura do boneco e no desenvolvimento das técnicas de manipulação, mas que tem como ponto de chegada e motivação essencial esse encontro com o outro, esse ‘comum’ do qual o artista se distancia por um momento não para ganhar um lugar mais alto na hierarquia social, mas justo para demonstrar, através do espírito cômico, as condições e circunstâncias que nos separam para apontar subliminarmente adiante o que, quem sabe, pode nos igualar.

São trabalhos que pedem assento em um mundo no qual muitos de nós corremos com justa sede de pertencimento ao ‘contemporâneo’, em direção ao pós-dramático ou às suas variações quando há muito o que ver ainda de um Brasil que existe e celebra os princípios de uma cena pré-dramática. Que não é menos legítima, é parte do mesmo fraturado contemporâneo à brasileira. São ‘acontecimentos’em que os artistas conseguem aquele tipo de comunhão notável e difícil entre personagens, histórias contadas, meios de contação e audiência, em um mesmo lance potente que dura enquanto dura o espetáculo e deixa em nós, sujeitos de um mundo em pedaços (e quando não o fomos?), a sensível ilusão de que pertencemos ou podemos pertencer àquela imaginada ‘comun-idade’ a que se referia o mestre Hermilo.

O diabo dá uns toques no espetáculo pernambucanoHércules Castro & Lu Oliveira

O diabo dá o ar da graça no espetáculo pernambucano

.:. O VII Festac – Festival Nacional de Teatro do Acre acontece de 21 a 28/3. O evento é organizado pela Fetac – Federação de Teatro do Acre. Mais informações no blog da entidade, aqui.

.:. O crítico, curador e jornalista Kil Abreu viajou a convite da organização.

Kil Abreu

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