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Reportagem

Eros antepõe-se ao ódio no ‘Banquete’ do Oficina

24.4.2015  |  por Beth Néspoli

Foto de capa: Marilia Halla

Uma dança da chuva ao som de uma canção ritual croata abre no sábado, 25/4, no Teatro Oficina, a temporada de O banquete com dramaturgia e direção de José Celso Martinez Corrêa. A retomada da obra de Platão, já encenada pelo grupo Uzyna Uzona em 2009, se dá como contraponto ao atual momento político brasileiro de conservadorismo estridente. Contra o ódio desagregador, o Oficina propõe Eros como afeto político apostando nos vínculos amorosos como propiciadores de uma sociabilidade atravessada por mais ética e sabedoria, pensamento socrático que está no cerne de O banquete.

Alguns procedimentos são similares aos da transposição cênica realizada por Zé Celso do ensaio de Euclides da Cunha, Os sertões, no ciclo de cinco peças apresentadas entre 2002 e 2007. Se a saga dos sertanejos fundadores de Canudos e cercados pelo exército servia para iluminar a luta do Oficina contra a especulação imobiliária – que é também de muitos outros teatros paulistanos –, tal atualização não fazia do texto um mero pretexto. Do mesmo modo, deuses e mortais citados nos discursos dos convivas do banquete grego ganham a pista do teatro, mas as relações com os temas em debate, ou “des-bate”, como prefere Zé Celso em sua interferência crítico-poética sobre a língua, são evidenciadas muito mais pela ação cênica do que intervenções dramatúrgicas.

A narrativa original tem início quando o grego Apolodoro encontra na estrada um companheiro curioso e lhe conta sobre o que teria ocorrido num jantar na casa do poeta Agatão, no dia subsequente ao que ele vencera com sua primeira tragédia o concurso de dramaturgia. Sócrates não deixou obra escrita e suas ideias foram registradas por seus discípulos, entre eles Platão, como o faz nesse que é um dos chamados diálogos socráticos.

De acordo com Apolodoro, estavam reunidos, entre outros, o comediógrafo Aristófanes (autor de Lisístrata e As nuvens), o médico Erixímaco e os oradores Pausânias e Fedro quando este propõe que cada um dos presentes faça um discurso em tributo ao deus Eros. Sócrates é o último a falar em O banquete (ou O simpósio em outras traduções), considerado por alguns analistas um dos textos-chave para a compreensão de suas ideias. Em sua ode a Eros defende um homem livre de convicções, sempre em busca da verdade que, na sua acepção, não existe em estado absoluto, sendo temporária e relacional. Caminhar entre, e não acima, seria o melhor traçado para quem busca a filosofia, a criação artística e a sabedoria.

Pensamento que claramente guia o diretor em sua concepção cênica. São 19h da semana anterior à estreia. O teatro está às escuras, há luz apenas sobre uma pequena área da pista próxima ao grande janelão de vidro situado numa das laterais do edifício e através do qual é possível ver a cidade que se agita. Em círculo, os atores ensaiam diante dos músicos da banda. Com texto em mãos, o ator Roderick Himeros está falando o trecho em que Fedro propõe o tributo a Eros: “Pra que hinos, cantos, falas… /a tantos deuses malas?!/Dollars, Euros, ONUs, ONGs, Dohas, Prados/e a Eros, Nadas?”.

O texto de Zé Celso é todo em versos, que são ora falados, ora cantados, sempre com acompanhamento musical executado ao vivo. Fedro, no original, é aquele que fala sobre o pudor que sentem os amorosos diante da possibilidade de serem flagrados em ato vil. Diz Fedro/Himeros: “Ações mesquinhas: do amor estão desligadas. Sem o amor, Estado, Cidadão, Corporação, Associação, impossibilitados estão, de ser, sendo, ser-estando no gozozo estar, além do bem e do mal”. Vale a reprodução de mais um trecho: “Quem deseja viver vida de artista, não está em busca de uma vida capitalista, nem linhagem, muito menos celebridade, honrarias, riqueza, dignidade.”

O ensaio do espetáculo está no início e Zé Celso ainda não chegou. Merece registro o grau de autonomia e concentração que se observa na equipe que integra o grupo Uzyna Uzona. Trabalhando em estreito diálogo, músicos e atores repetem textos que soaram equivocados, discutem sonoridades, ritmos, experimentam arranjos, modulações de voz. Chama atenção ainda o modo como levantam o rosto e dirigem gestos à arquibancada vazia, projetam a voz no espaço. Para os atores forjados no Oficina, parece que o público sempre está, mesmo não estando.

Cerca de uma hora depois chega Zé Celso e já se põe a trabalhar. Daí em diante o que desperta atenção é o rigor formal cobrado pelo diretor, cuja faceta apolínea não raro passa despercebida, ofuscada pela vitalidade dionisíaca de sua linguagem cênica. Mas a observação do ensaio deixa clara a quantidade de transpiração que cada momento de inspiração requer. Uma única cena, na qual um guerreiro é flechado e cai sobre outro, é repetida dezenas de vezes para ajustar a reação do coro que vai acolhê-los após a morte. “O corpo que assistiu à morte não é o mesmo que vai receber o morto”, argumenta o diretor. No processo de criação de uma cena de “cura gay”, inexistente na primeira montagem, a exigência é mais aguda: “No momento da concepção de uma cena o gesto tem de ser sempre geométrico, simples, limpo, visível, claro. Depois vai elaborando”, pede. Precisão é exigência constante. “Inferno e Paraíso são palavras diferentes”, diz em outro momento. “Não é para falar em contraponto com a música, mas com a música, na música”, orienta.

Cena de ensaio da obra que se contrapõe ao conservadorismoBeto Meetig

Ensaio da obra que confronta voga conservadora

Por outro lado, se entre os gregos antigos as mulheres eram cidadãs de segunda categoria, no Oficina elas têm poder e claramente conquistaram o respeito do diretor. Letícia Coura toca cavaquinho e violão, canta lindamente e é responsável pela preparação vocal dos atores; com voz e presença potentes, Céllia Nascimento tem figura que remete às cantoras gospel norte-americanas – ambas contribuem de modo fundamental para a elaborada sonoridade do espetáculo.

Sylvia Prado e Camila Mota são intérpretes experientes, que se apropriam dos textos com humor inteligente e domínio da expressão corporal. Não por acaso Camila interpreta Diotima, a sacerdotisa que dialoga com Sócrates, a responsável por ensinar-lhe sobre o amor.  “Diotima se impôs na montagem”, diz Marcelo Drummond que, no papel da Agatão, faz a sua ode em ritmo de bossa nova, em voz baixa, valorizando nuances. Não foi possível ver o ensaio na íntegra, mas nos fragmentos acompanhados vale destacar a leveza na atuação de Acauã Sol como Pausânias.

Como na montagem anterior convivas e público se acomodam em torno de uma grande mesa. Acomodados num palco/cama deuses do Olimpo observam a celebração, nem sempre à distância, entre eles, Zeus (Ariel Rocha) e Hera (Joana Medeiros). Tomando de empréstimo palavras do ator Matteo Bonfito, é possível dizer que mais do que “intenções” Zé Celso valoriza “in-tensões” em seu trabalho dramatúrgico, sempre buscando provocar no espectador o pensamento sobre diferentes possibilidades de ser estar no mundo.

Camila Mota na peça de Artaud que reestreiaFernando Lima

Camila Mota na peça de Artaud que reestreia

Após a estreia de O banquete, volta ao cartaz no Oficina, Pra dar um fim do juízo de deus, peça radiofônica de Artaud que, nas palavras de Zé Celso, coloca em questão os juízos automatizados que impedem uma vida plena. Cada uma ao seu modo, as criações defendem uma relação convivial entre homens e mulheres mais livres e amorosos.

Serviço:
O banquete
Onde: Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520, Bixiga, tel. 11 3106-2818)
Quando: De 25/4 a 31/5; sábados e domingos, às 18h.
Quanto: R$ 50, R$ 25 (meia) e R$ 5 (moradores do bairro)
Transmissão ao vivo pelo site do Oficina, aqui.

Ficha técnica:
Dramaturgia: Sócrates, Platão e José Celso Martinez Corrêa
Direção: José Celso Martinez Corrêa
Conselheira poeta: Catherine Hirsch
Com: Marcelo Drummond (Agatão), Céllia Nascimento (Rhéia, Aristogíton, Heráclito Cantora Africana, Andrógino Feminino), Zé Celso-(Sócrates), Acauã Sol (Pausânias, Patroclo, Andrógino Masculino), Sylvia Prado (Aristófanes, Afro-Dita Iemanjá, Carmem Pandemia), Rodrigo Anderolli (Erixímaco, Aquiles, Asclépio, Andrógino Masculino), Roderick Himeros (Fedro, Andrógino Bi), Lucas Andrade (Éros, Afro-Dita Iemanjá), Danielle Rosa (Deusa Embriagues, Andrógino Bi), Giuliano Ferrari (Hesíodo, Homero), Camila Mota (Parmênades, Harmódio, Andrógino Feminino, Diotima), Tony Reis (Apolo), Letícia Coura (Alceste, Heráclito Cantora Mestiça), Fred Steffen (Orfeu, Alcebíades), Dudu Pelizzari (Pentheu, Hefaisto), Ariel Roche (Zeus, Jesus), Joana Medeiros (Hera, Pênia Madalena), Carolina Henriques (Bacante, Atriz forjada na Bigorna) e Nash Laila (Bacante)
Banda Teatro Oficina: André Santana (percussão), Carina Iglecias (percussão), Felipe Massumi (cello), Giuliano Ferrari (piano), Ito Alves (percussão), Juliana Perdigão (clarinete e flauta), Letícia Coura (cavaquinho e violão), Marcos Leite Till (baixo), Nana Carneiro da Cunha (cello), Sebastián Díaz Canto (baixo)
Stage manager: Otto Barros
Direção das artes: Carila Matzembacher e Marília Galmeister
Arquitetura cênica: Carila Matzembacher, Marília Galmeister e Pedro Felizes
Cabeças: Ricardo Costa
Figurinos: Gabriela Campos
Maquiagem: Patrícia Boníssima
Luz: Renato Banti, Pedro Felizes, Greta Lis e Victor Fonseca
Preparação vocal: Letícia Coura e Carol Henriques
Vídeo: Igor Marotti
Edição ao vivo e vídeoprojeções: Pedro Salim
Câmeras: Igor Marotti, Alex Demian e Ayume Oliveira
Técnicos de som / Sonoplastia: João Pequi e Anders Rinaldi
Web e assessoria de comunicação: Beto Mettig
Arte gráfica: Igor Marotti e Pedro Felizes
Fotos de divulgação: Marilia Halla, Renato Mangolin e Arthur Max
Tradutora: Ana Hartmann
Operação de legendas: Inaiê Goulart
Produção executiva: Anderson Pucheti
Assistente de produção: Tadeu Amaral

Serviço:
Pra dar um fim no juízo de deus
Onde: Teatro Oficina
Quando: De 30/4 a 28/5. Quinta, às 21h.
Quanto: R$ 40, R$ 20 (meia) e R$ 5 (moradores do bairro)
Transmissão ao vivo pelo site do Oficina, aqui.

Beth Néspoli

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