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Crítica

Parceria Acre-Bolívia torna Frida superficial

6.4.2015  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Hércules Castro & Lu Oliveira

Boa expectativa em torno deste trabalho capitaneado pela atriz Clarisse Baptista em parceria com o boliviano Teatro de los Andes, no contexto do VII Festival Nacional de Teatro do Acre (Festac). De Clarisse lembramos a passagem pelo Festival de Curitiba há já uns bons anos. Sua memorável atuação em Stela do Patrocínio, uma personagem tão lírica quanto visceral, deixou boquiabertos jornalistas, críticos e o publicão que a descobriu em cena no meio da turba babilônica que ainda hoje é a cara do festival.

O boliviano Teatro de los Andes é um dos coletivos fundamentais à cena latina desde o início dos anos 90. Daquele momento, ainda sob a liderança artística de Cesar Brie, até a composição atual, é agrupamento em que se pode ver desenhado, em espetáculos como En un sol amarillo (2004), Otra vez Marcelo (2005) e Hamlet de los Andes (2012) um trabalho teatral que cruza relações fundas entre arte e cultura, invenção estética e interesse antropológico, forma artística e meio social.

Por esta pré-história não seria outra senão a melhor expectativa a que cerca o encontro artístico atual. E ainda mais quando o ponto de convergência é Frida Kahlo, a controversa artista mexicana que, sendo comunista e tendo enorme interesse pelas raízes culturais de seu país, viveu sitiada por lances dramáticos – dos acidentes e mutilações físicas às dobras quase sempre conturbadas do relacionamento com Diego Rivera. Uma arte, pois, que assimilou por um lado o repertório destes lances íntimos e, por outro, o rico painel imagético inspirado na cultura popular mexicana.

Ao eleger Frida como material de trabalho os vizinhos acre-bolivianos tinham, entre outros, todos os sugestivos campos abertos à exploração – os da vida e obra da biografada e os da circunstância que reuniu artistas latinos em um mesmo projeto.

A narrativa em primeira pessoa faz diálogo, no plano da cena, não só com as fontes de pesquisa que resultaram no espetáculo (os diários autobiográficos) como também com uma das formas essenciais – senão a mais essencial – no trabalho da pintora: o autorretrato. Com uma ou outra passagem exterior ao recurso do monólogo, o fundamental está nesta autoexpressão encarnada, tendo como moldura o oratório cenográfico pensado pelo encenador Gonzalo Callejas.

Este altar em homenagem aos mortos, inspirado em tradição mexicana, é amplamente valorizado pela iluminação minuciosa e compõe um quadro plástico de beleza rara, como um suporte do qual emergem e no qual atravessam vez ou outra umas tantas e sugestivas imagens. É o sumo mais aproximado do diálogo entre tema e forma que o espetáculo intenciona fazer.

Clarisse Baptista é coautora e codireetoraHércules Castro & Lu Oliveira

Clarisse Baptista é também coautora e codiretora

O arrojo visual do cenário, entretanto, nem sempre encontra correspondência no andamento do espetáculo. O texto, uma coleção de recortes, ajuda a forjar uma dramaturgia livre e contorna o risco das biografias laudatórias e caretas. De fato, nada seria mais estranho diante de uma Frida libertária. Contudo, o mosaico pede invenção para as passagens entre um e outro fragmento, a que a encenação em geral não responde bem. Os quadros respondem melhor quando vistos em si mesmos, mas o trânsito entre eles, ao invés de ritual – como parece ser a proposta – resulta em momentos esquemáticos. E trazem como prejuízo a afirmação de um ritmo que em nada favorece a teatralidade.

Da mesma maneira o trabalho dos dois intérpretes acaba sendo arrastado para essa dinâmica um tanto quanto protocolar. Nonato Tavares tem prejuízo menor porque sua(s) personagem/personagens emblemáticas ganham de todo modo a ossatura e o contorno de uma forte presença cênica (ele substitui Antonio Santoro). Já Clarisse Baptista, ocupada com umas tantas trocas de figurino e as marcas em meio à cenografia, não alcança a dimensão mítica projetada para a sua Frida. Seja porque há tarefas demais para executar em cena ou fora dela, seja porque eventualmente perdemos sua fala (talvez por conta da acústica ruim do Teatrão), é uma composição que nos surge entre o superficial e o vaidoso. A superfície é rica em materiais e artifícios, mas a substância de pensamento e o efeito propriamente teatral acabam afogados no próprio espelho.

Solamente Frida nos aparece, assim, como um poema para os olhos. Em que, no entanto, não se alimenta os outros sentidos com o mesmo vigor observado nestes lugares da plasticidade visual. Em se tratando de Frida Kahlo não deixa de soar como uma contradição flagrante no centro da qual se cria, portanto, um retrato parcial da grande artista.

.:. O crítico, curador e jornalista Kil Abreu viajou a convite da organização do Festac.

Ficha técnica:
Com: Clarisse Baptista e Nonato Tavares
Criação, encenação e dramaturgia: Teatro de Los Andes e Clarisse Baptista
Direção: Gonzalo Callejas e Alice Guimarães
Texto: Clarisse Baptista e Alice Guimarães (sobre textos de Frida Kahlo e outros)
Colaboração: Juarez Guimarães Dias
Figurino: Rodrigo Cohen
Cenografia: Gonzalo Callejas, Selene Fortini e Ed Andrade
Cenotécnica e objetos de cena: Gonzallo Callejas
Colaboração: Selene Fortini e Wennedy Filgueira
Direção musical: Lucas Achirico Composições – Lucas Achirico, Kronos Quartet, Kroke, Luis Aguilar e populares
Iluminação: Teatro de Los Andes
Operação de luz e som: Francisco Miana/Edevaldo da Silva Santos
Produção executiva: Marineide Maia e Clarisse Baptista
Assistência de produção: Nena Mubárac, Juciany Santos e Heber Colman
Fotografia: Talita Oliveira
Divulgação e assessoria de imprensa: Nena Mubárac
Costureira: Maria de Lourdes
Realização: Garotas Marotas Produções Artísticas e Grupo Teatro de Los Andes
Técnicos de montagem de luz e cenografia: Edevaldo Santos

Kil Abreu

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