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Crítica

Questão de Crítica inova na cultura da premiação

8.4.2015  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Raphael Cassou

Há sete anos ampliando as percepções da prática e do pensamento críticos por uma mediação vertical e nem por isso menos horizontal com artistas, público e pesquisadores, a Questão de Crítica vem gerando alteridades também na cultura de prêmios. A revista eletrônica de críticas e estudos teatrais consegue subverter as convenções da distinção em arte e cutucar a sociedade atual que insiste em mitificar a competitividade e torná-la glamorosa.

A noite de entrega dos prêmios Questão de Crítica (4ª edição) e Yan Michalski (2ª) expôs algumas das mudanças de paradigma em curso. Era de congraçamento a atmosfera de terça-feira (7) na arena e na plateia lotada do Espaço Sesc, em Copacabana, sem crispação no olhar dos indicados.

De largada, a conjunção de criadores profissionais acolhidos no Prêmio Questão de Crítica com aqueles em formação no Prêmio Yan Michalski gera a força imanente da iniciativa.

Foram contemplados mestres do ofício nas artes cênicas, como o cenógrafo Fernando Mello da Costa, o iluminador Beto Bruel, o ator Cândido Damm e a tradutora Carolina Virgüez, para citar a geração que escolheu o seu caminho há décadas

Assim como aprendizes desbravadores de suas primeiras poéticas e rigores, simbolizados no abraço fraterno e coral dos integrantes da peça Panidrom, contemplada na categoria espetáculo, que percorre espaços públicos para problematizar noções de pertencimento e territorialidade (sua gênese está na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ).

No texto do programa da premiação, a equipe da QdC anota que em ambas as vertentes não se trata de escolher “o melhor” do ano, mas de traçar um recorte possível por meio do olhar das comissões julgadoras atentas às criações “que se debruçam sobre uma pesquisa de linguagem, que optam pelo risco e pela coerência interna”.

“Ou seja: procuramos ver os espetáculos como obras, como pesquisa e realização artística, não como produtos culturais. Procuramos ver, nas peças, o pensamento que orienta a criação, não estamos interessados no que geralmente se entende por ‘qualidade’.”

Pressupostos que convidam à autorreflexão a comunidade teatral carioca e brasileira que aporta nas temporadas da cidade. Inclusive com a presença de profissionais da televisão pactuados com o teatro e os descondicionamentos que a arte e a cultura contemporâneas colocam no horizonte imediato. Interlocutores como Marieta Severo (assistindo ao lado de Aderbal Freire-Filho) e Camila Pitanga (contemplada com o elenco de O duelo) dão ganas de outras realidades possíveis.

E para completar, o “troféu” convertido a garrafa de cachaça, com o devido arremate estético, e a presença dos músicos e do elenco da banda-espetáculo Contra o vento, antecipando a trilha tropicalista da montagem que estreará na próxima semana, reforçaram que ao pensamento crítico também cabe desfranzir a testa e ser um diletante bem humorado.

Os "troféus" entregues na noite dos dois prêmiosDenize Barros

Os “troféus” entregues na noite dos dois prêmios

Livro

Ainda no âmbito da programação, a cocuradora do Encontro Questão de Crítica, Daniele Avila Small, lançou na noite da entrega dos prêmios o livro O crítico ignorante: uma negociação teórica meio complicada (editora 7Letras), resultado de sua monografia de graduação em teoria do teatro no curso de artes cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

A pesquisa pondera funções da crítica, o pensamento sobre arte que a norteia e a possibilidade de uma escrita criativa. Daniela Avila Small pensa o conceito e a prática da crítica a partir de uma aproximação com uma perspectiva incomum em pedagogia, as ideias de um educador do século XIX, o professor Joseph Jacotot, cujo método de ensino é exposto no livro O mestre ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual (1987), de Jacques Rancière. Daí vem o título O crítico ignorante: um diálogo aberto e direto com Rancière – e com Jacotot. O prefácio é assinado pela professora e pesquisadora Ana Maria Bulhões-Carvalho (UNIRIO) e a orelha, pela jornalista e crítica Luciana Eastwood Romagnolli (blog Horizonte da Cena).

Daniele autografa para Marieta e Freire-FilhoLaura Limp

Daniele autografa para Marieta e Freire-Filho

3º Encontro Questão de Crítica

Ouvir os artistas, convidá-los a fazer um exercício crítico sobre o seu próprio trabalho, trocar experiências na veia. É a tônica do 3º Encontro Questão de Crítica, que acontece quarta e quinta (8 e 9) no mesmo Espaço Sesc.

A intenção dos organizadores é transcender as especificidades dessa prática, abordadas nas edições de 2011 e 2013, e trazer à luz uma série de atividades reflexivas e formativas gratuitas que digam respeito, sobretudo, ao campo da criação: afinal, destino e desdobramento da mirada crítica.

A artista e pesquisadora Eleonora Fabião faz a palestra de abertura na quarta (8), às 15h, intitulada Uma performance chamada Linha: encontros com o encontro. Na ocasião, apresenta a performance Linha (2010) e reverbera em sua fala temas como amizade política, anticrime, corpo performativo, estética da precariedade, poéticas e políticas do encontro. Na sequência, às 18h, acontece a mesa-redonda “Formação de artistas de teatro”, com os artistas e pedagogos Celina Sodré (Instituto do Ator, CAL, UFRJ), Gabriela Lirio (UFRJ) e Ruy Cortez (Cia. da Memória e Centro Internacional de Teatro Ecum, SP).

Na quinta-feira (9/4), às 10h, a mesa “Questões de encenação” reúne os criadores e pesquisadores André Carreira (UDESC), Maria Thais (Cia. Balagan de Teatro e USP) e Marcio Abreu (companhia brasileira de teatro). Às 14h, é a vez da mesa “Questões de dramaturgia”, com os autores Alexandre Dal Farra (SP), Grace Passô (MG) e Pedro Kosovski (RJ).

Mostra de Teatro Filmado

Esta edição do Encontro QdC incorpora a Mostra de Teatro Brasileiro Filmado, com exibição de registros em vídeo de seis peças que têm um lugar especial na história do teatro brasileiro. É um pequeno recorte, com foco em peças do Rio de Janeiro e de São Paulo, montadas entre 1970 e 2000.

De 14/4 a 9/5, sempre às terças-feiras, às 18h, serão exibidos O balcão (1969), texto de Jean Genet e direção de Victor Garcia; Artaud! (1986), monólogo com Rubens Corrêa e direção de Ivan Albuquerque; Macunaíma (1978), adaptação de Antunes Filho para a rapsódia de Mário de Andrade, com o Grupo Macunaíma; A mulher carioca aos 22 anos (1990), direção de Aderbal Freire-Filho, com o Centro de Construção e Demolição do Espetáculo; A bao a qu – Um lance de dados (1990), texto e encenação de Enrique Diaz, com Cia. dos Atores; e Apocalipse 1,11 (2000), dramaturgia de Fernando Bonassi e direção de Antônio Araújo, com o grupo Teatro da Vertigem.

Cada um desses registros históricos serão acompanhados de palestras com os pesquisadores convidados Edelcio Mostaço, Leonardo Munk, Daniel Schenker, Angela Leite Lopes, Fabio Cordeiro e José Da Costa. E no dia 28/4, às 15h, o crítico e pesquisador Luiz Fernando Ramos faz palestra referente à importância do panorama da mostra de vídeos: “A filmagem de espetáculos: entre missão histórica e morte anunciada”

E, por fim, ocorrerá o minicurso “A arte da crítica”, ministrado por Patrick Pessoa, um dos integrantes da QdC, doutor em Filosofia pela UFRJ e professor do Departamento de Filosofia da UFF. A atividade acontecerá de 22/4 a 20/5, sempre às quartas-feiras, das 14h às 17h, última etapa da robusta programação do 3º Encontro da QdC.

.:. A relação completa de vencedores e indicados ao 4º Prêmio Questão de Crítica e 2º Prêmio Yan Michalski, aqui.

.:. A programação completa do 3º Encontro Questão de Crítica, aqui.

.:. O jornalista e crítico Valmir Santos viajou a convite da organização do 3º Encontro Questão de Crítica

Valmir Santos

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