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Reportagem

A arte como gesto político no Espanca!

20.5.2015  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Gabriel Andrés Caram

Quando o grupo mineiro Espanca! desembarcou em Porto Alegre em 2008, como parte do Porto Alegre em Cena, arrancou aplausos calorosos da plateia e conseguiu o título de um dos grandes destaques do festival. Ele se apresentou com dois trabalhos no Teatro de Câmara: Amores surdos, de Grace Passô com direção de Rita Clemente; e Por Elise, texto da mesma Grace – que também assina a direção. Na época, o grupo tinha em seu repertório somente esses dois trabalhos.

De volta a Porto Alegre, o Espanca! comemora 10 anos com a apresentação de outras duas peças: Dente de leão e Congresso internacional do medo, a partir de amanhã (quinta-feira, 20/5), agora dentro da programação do Palco Giratório. Em 2014, o grupo esteve em Porto Alegre, mas apresentando uma parceria com o grupo XIX – a montagem Marcha para Zenturo. Dessa vez, as duas peças fazem parte do repertório da companhia (composto por cinco peças).

Da formação inicial sobraram Gustavo Bones e Marcelo Castro que, de ator, passou também a diretor. “Foi tranquila essa transição. Sempre tive um olhar voltado para o todo e sempre fomos um grupo cercado por uma rede ampla de colaboradores”, destaca Castro. Grace Passô, dramaturga, atriz, diretora e um dos grandes pilares do grupo, deixou em 2013 a companhia, apesar de seguir apresentando montagens como Congresso internacional do medo, na qual assina a direção.

A ideia do espetáculo surgiu a partir da leitura do poema de mesmo nome, de Carlos Drummond de Andrade. Na peça, pessoas de países imaginários são convidadas a participar de um evento que trata do medo, sem saber por que estão ali. Mas a guinada mais política do grupo ocorreu a partir da criação da cena curta Onde está o Amarildo?, em 2013, e agora, em Dente de leão, primeiro trabalho sem Grace Passô e que marca a estreia, na direção, de Castro. O texto é de Assis Benevenuto (ator da nova formação da peça Amores surdos).

trabalhamos nessa perceptiva de arte como um gesto político independe da estratégia que usamos no espetáculo

Dente de leão trata, de maneira geral, sobre a questão da representação dos papéis sociais, mostrando a visão dos alunos, dos professores e das famílias dentro do universo escolar. Castro acredita que, após essa montagem, o Espanca! entra em um momento mais engajado politicamente. Tanto que, a próxima peça, Real, uma revista política, radicaliza essa proposta. Para o ator e diretor, o fato de o grupo ter uma sede desde 2010 também influenciou nesta postura. “Identifico claramente essa mudança após a aquisição da sede: passamos a conviver com a rua, um choque de realidade para o grupo, o que nos contaminou diretamente”, comenta Castro.

No entanto, Grace pondera que sempre houve uma preocupação por parte do Espanca! em realizar uma arte mais política. “Desde a forma de criação do grupo até o interesse por abordar a realidade social e urbana de Belo Horizonte, trabalhamos nessa perceptiva de arte como um gesto político independe da estratégia que usamos no espetáculo”, conta ela, atualmente envolvida com outros projetos como a peça Krum, da Companhia Brasileira de Teatro, com texto do israelense Hanoch Levin.

Cena da obra inspirada em poema de DrummondGuto Muniz

Cena da obra inspirada em Drummond

E depois de 10 anos, qual caminho o Espanca! irá trilhar? Castro lembra que a companhia está em constante transformação, mas mantém as características pelas quais ficou conhecida, como produzir dramaturgias próprias instigando questões que vão ao encontro da realidade do seu tempo, além de problematizar a própria situação teatral. Ou seja, investigou sempre duas frentes: conteúdo e linguagem. “O grupo sempre quis levar em consideração uma tradição do teatro mas, ao mesmo tempo, questionar o que está engessado dentro dessa tradição e propor uma renovação desses códigos teatrais”, completa Grace.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 19/5/2015.

.:. Site do Grupo Espanca!, aqui.

Serviço:
Dente de leão
Onde: Teatro Renascença (Avenida Erico Verissimo, 307, Porto Alegre).
Quando: quarta e quinta-feira, às 21h.
Quanto: R$ 7 a R$ 20

Congresso internacional do medo
Onde: Teatro Sesc Centro (Avenida Alberto Bins, 665, Porto Alegre)
Quando: 23 e 24/5, às 19h
Quanto: R$ 7 a R$ 20

Michele Rolim

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