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Crítica

Entre o jogo e a espetacularização da cena

20.5.2015  |  por Julia Guimarães

Foto de capa: Els De Nil

Em Bruxelas, com Verônica Veloso*

A despeito do pequeno território que possui, quando comparada a alguns de seus países vizinhos, a Bélgica é conhecida por abrigar atualmente um dos panoramas mais inventivos do teatro e da dança. O gosto pela renovação reverbera também em seu mais importante festival cênico, o Kunstenfestivaldesarts (KFDA), que chega neste mês à 20ª edição (8 a 30 de maio), com aposta em trabalhos ao mesmo tempo políticos e esteticamente radicais.

Famoso por (co)produzir a maior parte das obras presentes na programação, o KFDA não deixa também de fazer apostas voltadas ao seu próprio país, ao valorizar a chamada ‘cena flamenga’. Nesta edição, além de criações inéditas da bailarina e coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, da Cia. Rosas, a curadoria do belga Christophe Slagmuylder incorporou a estreia de The blind poet, novo espetáculo do encenador Jan Lauwers, cujo reconhecido trabalho com a Needcompany já atravessa quase três décadas.

O título faz referência ao árabe Abul ‘Ala al-Ma’arri, poeta cego que viveu nos séculos X e XI, cuja obra dialoga com o espetáculo. Outra inspiração foram os versos de Wallada bint al-Mustakfi, poetisa andaluza da mesma época que, embora atualmente, seja quase desconhecida – ela fez história ao subverter a hierarquia masculina vigente e ocupar espaço de destaque na arte e na esfera política.

Através dessas figuras, o novo trabalho da Needcompany aborda um tema caro à Europa contemporânea: a identidade multicultural do continente e o modo como seus territórios foram historicamente influenciados por tradições externas. No entanto, o eixo forte da dramaturgia de Jan Lauwers está centrado não exatamente na obra dos poetas, mas numa pesquisa sobre as árvores genealógicas dos próprios integrantes do grupo.

Em cena, os sete performers apresentam suas autobiografias em “portraits” que estruturam a encenação entre a fragmentação e a profusão de imagens e sonoridades. Os retratos têm um traço documental, na medida em que se baseiam nas histórias familiares dos próprios atores, reveladas por dados concretos de origem e nascimento e pela exibição de fotografias de parentes.

Aos poucos, essas biografias vão sendo distorcidas, criando um estranhamento que tende ao ficcional. Com grande liberdade poética, a dimensão do documento é substituída pela entrada em cena de recursos impensáveis, como um asno cenográfico em tamanho real e uma enorme estrutura inflável preta – talvez um planeta de onde crescem estacas, algo entre o fálico e o bélico.

Performer da Needcompany durante ensaioMaarten Vanden Abeele

Performer da Needcompany no ensaio de ‘The blind poet’

Entre o espaço da cena e o público há uma fatia destinada ao fazer. Os atores permanecem no fosso aberto da orquestra, focados na composição que se descortina para os espectadores. Nessa fatia eles trocam de roupa, musicam a cena, operam os efeitos de som e são orquestrados por Jan Lauwers, uma presença recorrente em trabalhos do grupo, maestro discreto e atento, e também um performer entre outros.

Coxia, fosso, técnica: esse espaço multifuncional é colocado entre a cena e o olhar do público, filtrando a percepção dos fatos. A ênfase nessa clivagem ressalta a importância que se dá à composição da linguagem, de cada camada de significação articulada em cena, mesmo que nem sempre a junção desses elementos resulte em leituras muitos aprofundadas. Há uma promessa de grande obra que não se desenvolve; há uma riqueza de elementos que muitas vezes resulta em excesso.

As cenas mais impactantes revelam dispositivos muito simples. O jogo da performer Grace Ellen Barkey, lançando mão da expressividade de seu corpo e de sua voz, conta a história de seu encontro com o marido Jan Lauwers e, consequentemente, do surgimento da própria Needcompany. Com a ajuda dos demais atores, que a questionam e completam sua historia, Grace Ellen apela para a memória dos espectadores ao lembrar-se da atriz que protagonizava O quarto de Isabella, emblemático espetáculo da companhia, apresentado em São Paulo em 2006. Outro exemplo de dispositivo simples é o tubo de fumaça introduzido na roupa do performer viking Hans Petter Melo Dahl, que consegue criar a atmosfera fria de seu país em torno do próprio corpo, enquanto simplesmente conta sobre suas origens.

No mesmo viés dos dispositivos simples e já bastante difundidos no campo teatral, o jogo da Needcompany com a música e a composição de toda a sonoridade do espetáculo merece destaque. Do fosso da orquestra, os atores não se ausentam da cena. Eles a observam atentamente e, principalmente, colocam-se no papel de ouvintes.

Todo o respeito que demonstram ao atravessar a fronteira entre palco e fosso, revelado pela desaceleração de seus movimentos, é também notado quando dois atores realizam uma batalha em cena, como se fossem maestros disputando o domínio do som. Bateria, baixo, guitarra, piano e violino compõem a formação da banda operada pelos integrantes do grupo. A música também convive com ruídos que, propositais ou não, geram uma turbulência que também acrescenta camadas de significação ao discurso.

Pena é notar que, sobretudo no segundo ato, as soluções simples a partir de dispositivos conhecidos abrem espaço para o excesso de referenciais, dispondo em cena objetos de uma proporção pós-humana: espécies de soldados-robôs com espadas gigantes que se chocam, uma grua capaz de levantar os 163 kg do asno, além da enorme forma plástica negra que suscita um mundo doente, talvez o câncer da humanidade.

o potencial político de evidenciar tais influências a partir do núcleo íntimo e familiar dos atores (…) fica em segundo plano diante de tantas apostas díspares no campo da linguagem

Tais objetos poderiam ter seu lugar em cenas específicas, como acontece quando o encenador explora separadamente essas alegorias. Por exemplo, quando um ator caminha embaixo da grua que porta o asno, num jogo arriscado que tira o fôlego do espectador. Nesse caso, a cena é ocupada apenas pelo jogo dos atores com o objeto, reforçada por uma sonoridade produzida artificialmente, e não por todas as alegorias juntas.

De modo semelhante, a complexa problemática que o espetáculo se propõe a abordar – que tem como pano de fundo o atual fechamento de portas para a imigração na Europa, em contraste com a forte influência histórica das culturas que o circundam – surge ofuscada pela encenação superlativa e a virtuose por vezes excessiva dos atores. Assim, o potencial político de evidenciar tais influências a partir do núcleo íntimo e familiar dos atores, através de suas árvores genealógicas, fica em segundo plano diante de tantas apostas díspares no campo da linguagem.

Ao pretender articular todos esses elementos em cena, juntos, o espetáculo acaba por esbarrar em si mesmo depois de ter nos dado tantas provas de que a riqueza do jogo teatral está em revelar os dispositivos e não na criação de mais espetacularidade.

* Verônica Veloso é doutoranda na ECA/USP e, atualmente, realiza estágio na Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3. Integra o Coletivo Teatro Dodecafônico (SP), no qual desenvolve trabalhos artísticos como encenadora e performer.

.:. Acompanhe o site do festival KFDA, aqui.

.:. O site da Needcompany, aqui.

Ficha técnica:
Texto, encenação e cenografia: Jan Lauwers
Música: Maarten Seghers
Com: Grace Ellen Barkey, Jules Beckman, Anna Sophie Bonnema, Hans Petter Melø Dahl, Benoît Gob, Mohamed Toukabri e Maarten Seghers
Figurinos: Lot Lemm
Assistente de encenação e dramaturgia: Elke Janssens
Desenho de luz: Marjolein Demey e Jan Lauwers
Desenho de som: Ditten Lerooij
Estágio de assistência em encenação: Lisaboa Houbrechts
Produção e técnica: Marjolein Demey e Chris Vanneste
Apresentação: Kunstenfestivaldesarts e Kaaitheater
Produção: Needcompany (Bruxelas)
Coprodução: Kunstenfestivaldesarts em colaboração com Kaaitheater, KunstFestSpiele Herrenhausen (Hannover), FIBA Festival Internacional de Buenos Aires e Künstlerhaus Mousonturm (Frankfurt)
Com o apoio de: Vlaamse Overheid e SABAM for Culture

Julia Guimarães

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