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Crítica

A contradança pulsa o pensamento

17.6.2015  |  por Mateus Araújo

Foto de capa: Renata Pires

Beiramos o caos das angústias. Pressionados pelas dúvidas, alvoroçados pelo tempo e a falta dele, desacreditados pela desigualdade e pelas desconformidades. O ceticismo está em voga. O passado – ou memória – está sendo destruído pela modernidade falida. “Como é o nome disso?”, questionam os atores já no final da peça O ano em que sonhamos perigosamente, que o Grupo Magiluth estreou na última quinta-feira, no Teatro Apolo. O nome disso, dessas dúvidas e dessas angústias aglutinadas em um palco, o nome disso é guerra.

O jogo que o Magiluth estabelece ao longo desses 11 anos explora nunces do real e do criado. Os caminhos fogem da interpretação e se fixam na presença do ator em cena. É o ator quem diz, não o personagem quem vive – ainda que entre ambos (o ator e o personagem) exista a sarcástica e dialética relação amor e ódio, afirmação e negação.

As obras dos filósofos Slavoj Zizek e Gilles Deleuze e o cinema de Yorgos Lanthimos são os estímulos de uma dramaturgia conflituosa. A história cria uma linearidade em alternância de densidade. De início, parece não decolar, em seguida assume um prumo, mas se perde no desfecho.

A primeira parte do espetáculo se dedica unicamente ao próprio teatro – traz o corpo como centro. Em um jogo ardiloso de movimentos e repetições de palavras, os artistas ensaiam um espetáculo – como quem se prepara para um conflito. O sarcasmo com que tratam a interpretação suscita dúvidas da arte para como ela mesma: cabe interpretar? A poesia ainda existe em tempos de conflitos?

Do ensaio, eles partem para o espetáculo, e recorrem ao clássico Tchekhov. Ao pinçar trechos de A gaivota, a peça ratifica os questionamentos sobre o teatro e seus papeis na sociedade atual, para depois questionar a própria sociedade atual sobre a maneira com a qual se erguem o presente e o futuro. No Jardim das cerejeiras, o texto encontra referências para as demolições que levam consigo parte da história de gerações: no cerejal que vai ao chão para uma moderna construção, apagando memórias e afetividades, assim como o Recife que desaba a favor da especulação imobiliária. Aqui, vale ressaltar a interpretação de Erivaldo Oliveira, cuja graça envereda pela acidez de maneira concreta e convincente.

O corpo posto a tensões e pancadas grita pela dor física e psicológica a que a sociedade tem sido posta

O terceiro momento do enredo é o caos das angústias. A insatisfação existe, mas a resolução ainda não. E por isso o elenco dança e se questiona para onde vamos e o que estamos fazendo. Quando já não há mais o que fazer, eis que as palavras de Tchekhov ressoam na caixa de som, sozinhas. É o momento de respirar após tanta guerra. O fim é incrédulo, assim como o próprio sentimento que instiga o ponto de partida de tudo.

Em O ano em que sonhamos perigosamente, a encenação é angustiante. O corpo posto a tensões e pancadas grita pela dor física e psicológica a que a sociedade tem sido posta. Embora tão pautado pelo filosófico, o espetáculo é mais expressão do que palavra. A cena é corporal, explora movimentos violentos, bruscos e repetitivos; com marcações pulsantes e dançantes – os atores recorrem várias vezes às coreografias. E nem precisam sair da caixa cênica (o palco tradicional) para atingir quem está na plateia, uma vez que o sentimento entre os dois espaços é um só: o caos.

Direção de Pedro Wagner reelabora o caos em nova peça do MagiluthRenata Pires

Direção de Pedro Wagner reelabora o caos em nova peça do Magiluth

O Magiluth repete o que já foi feito em outros momentos. As marcações iniciais, do ensaio para a guerra, e as tantas que voltam a permear a peça durante quase uma hora, acionam referências à cena de abertura de Viúva, porém honesta (2012), quando o grupo ensaiava para viver a farsa rodriguiana.

Pedro Wagner recorre inúmeras vezes a referências de estéticas e pensamentos. Além da acidez e o sarcasmo do cinema de Yorgos, o espetáculo traz a ideia de rizoma, proposta por Deleuze, por exemplo, refletida numa encenação que é modelo de resistência, sem formas. Os atores surgem, somem, confundem e se sabotam, no chamado jogo cênico. A essa reflexão também se soma o olhar do filósofo para com Édipo, mostrando que quando o desejo de alguém põe em risco as estruturas da sociedade, o capitalismo se apropria do desejo e camufla uma ideia de livres – nesse sentido a “tinta vermelha”, usada por Zizek como metáfora da contradição dessa aparente liberdade, é vomitada por um dos atores.

O cenário se aproxima do caos dos pensamentos que explodem na dramaturgia. O palco nu, com as estruturas da caixa cênica expostas desmascaram a ideia encenação. A eficiente direção de arte, criada por Flávia Pinheiro, junto com a luz desenhada por Pedro Vilela, extraem a poesia dessas angústias e desconformidades sociais, criando uma textura empoeirada e esfumaçada. Enquanto a música de Leandro Oliván explora os ruídos e experimentações eletrônicas, trilha de um espírito da desordem.

.:. Publicado originalmente no blog Terceiro Ato, do Jornal do Commercio.

Serviço:
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife, tel. 81 3355-3320)
Quando: Quinta e sexta-feira, às 20h. Até 26/6.
Quanto: R$ 20

Ficha técnica:
Direção: Pedro Wagner
Dramaturgia: Giordano Castro e Pedro Wagner
Com: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Pedro Wagner e Thiago Liberdade
Preparação corporal: Flávia Pinheiro
Desenho de som: Leandro Oliván
Desenho de luz: Pedro Vilela
Direção de arte: Flávia Pinheiro
Fotografia: Renata Pires
Design gráfico: Thiago Liberdade
Caixas de som: Emanuel Rangel, Jeffeson Mandu e Leandro Oliván
Técnico: Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

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