Na região do cerrado é comum a alternância entre os períodos da seca e das chuvas, em que o verde parece devolver vida à paisagem insólita. Em Brasília, já é parte do cotidiano da cidade a proliferação de cigarras após as primeiras chuvas, nos espaços arborizados. Entre um bloco e outro das quadras residenciais elas fazem soar sua orquestra única e às vezes incessante. Para uns, conexão com a natureza; para outros, barulho incômodo.

O espetáculo Quando o coração transborda, da atriz Maíra Oliveira, em codireção com o veterano João Antônio de Lima Esteves, não fala de cigarras. Mas a atuação dela talvez nos revele como tal inseto está determinado a inscrever seu canto na paisagem do Distrito Federal. Aqui, cometo minha primeira contradição: segundo os biólogos, quem canta é o macho e não a fêmea; porém, não pude abrir mão dessa metáfora. Se esses insetos passam entre dois e sete anos silenciosos embaixo da terra, fase em que são chamados de ninfas, será justamente na fase adulta que cantarão por quase dois meses para atrair as fêmeas, se reproduzirem e morrerem.

Maíra parece ter guardado por longo tempo, no seu terreno interior, as marcas e memórias de sua relação com o pai, o ator, palhaço, diretor e ambientalista Ary Pára-Raios (1939-2003), com quem aprendeu as artes do teatro desde criança. Ary foi responsável por criar no final da década de 1970 o Esquadrão da Vida, trupe com estética vinculada aos elementos da cultura popular e do circo e que se tornaria ícone na capital, especialmente do teatro de rua. Desse modo, aqui reside uma primeira potência do espetáculo – ativador de memórias e as emoções a elas associadas de todos aqueles que, de algum modo, puderam ver o Esquadrão colorir ao longo de mais de 30 anos as ruas e espaços, apostando na proximidade relacional numa cidade de escala e distâncias monumentais.

Espetáculo ganha contornos políticos relevantes ao contrapor a escolha pelo caminho instável e precário do teatro à cultura da estabilidade gerada pelo concurso público, que parece dominar Brasília

Para além desse aspecto que se aproxima de uma memória coletiva ou social associada ao Esquadrão, outra potência de Quando o coração transborda reside na sua possibilidade de tecer ou explorar ao menos três fios narrativos: a relação da filha com o pai; com a arte do teatro e o grupo; e a sua própria trajetória de amadurecimento de menina a mulher. Se há nesta tríade um vetor dramatúrgico altamente diverso, complexo e rico, parece se configurar também como a principal fragilidade do espetáculo: a dramaturgia. Uma hipótese para isso, talvez, seria justamente por se tratar de uma criação que vai fundo na biografia da atriz e é a mesma quem responde por seu roteiro e direção geral. Parece se conformar numa atmosfera bastante autocentrada que, se atritada a partir de um olhar mais distanciado, poderia apontar outras possibilidades de composição e exploração dessas potências. Por outro lado, a iniciativa da atriz em flertar com a noção de teatro documental ao explorar objetos e cartas pessoais, imantadas das reminiscências de experiências que permanecem vivas, oferece à cidade a possibilidade de contato com uma linguagem e procedimentos nada recorrentes na cena local.

Além dessa perspectiva, o texto se compõe a partir de trechos de escritos de Clarice Lispector, Cora Coralina, Elisa Lucinda e do próprio Ary, entre outros, para dar palavra aos sentimentos que atravessam a menina, mulher, atriz e filha Maíra Oliveira. Se por um lado é interessante o exercício da atriz ao buscar em outros autores a fala que melhor expressa seus sentimentos – o que ajuda a criar uma zona interessante que confunde realidade e ficção (o que ouvimos parece ser num primeiro momento a vivência da atriz ali narrada, porém, na maioria das vezes é um fragmento de outro autor, por exemplo, um trecho do livro do Eclesiastes, da Bíblia) –, por outro lado, os momentos de relato ou depoimento pessoal em que a intérprete tem a chance de ampliar o lugar de risco e performatividade do trabalho parecem não ganhar nuances mais radicais, o que deixa a textura ou modulação de boa parte do que é dito em cena numa mesma voltagem ou qualidade.  Essa paisagem é alterada por bons momentos em que ironiza ou extraí humor de situações dramáticas como a entrevista dada no enterro do pai e também quando pega sua viola e se faz cigarra a cantar.

Se a relação com o texto e a própria dramaturgia do espetáculo se mostram como um terreno que ainda pode ser revisitado no trabalho, os momentos musicais em que Maíra solta a voz – e irrompe na paisagem – permeando a sua trajetória memorialista de canções que vão de Raul Seixas às cantigas de roda – se configuram como o ponto alto da montagem e revelam uma face pouca explorada, nessa configuração, na carreira da atriz. A direção musical de Roberto Corrêa faz do conhecido formato cadeira e viola uma espécie de rasgo que permite ao coração da atriz e também o do público transbordar de emoção. Como esquecer o seu rosto imponente entoando Porta estandarte, a célebre canção de Geraldo Vandré?

Maíra Oliveira insere elementos documentaisIco Oliveira

Maíra Oliveira insere elementos documentais

Não bastasse esses tópicos, Quando o coração transborda ganha contornos políticos relevantes ao contrapor a escolha pelo caminho instável e precário do teatro à cultura da estabilidade gerada pelo concurso público, que às vezes parece dominar Brasília como um imperativo e única via possível. Maíra reafirma sua escolha e se mostra estar disposta a seguir pagando o preço da geladeira vazia para poder ser uma “sonsa essencial”. Talvez, para alguns, momentos de visão quase romântica da vida de artista. Para outros, a possibilidade de mirar um lampejo preservado da chama viva de uma vocação – em que aquele modo de pensar o teatro, de estar em cena, de escolher os temas e da paixão ali declarada pelo ofício – exponha quase como um legado na contramão do nosso contexto atual do consumismo, do culto à celebridade, do projeto pelo projeto e da condição do edital ou do patrocínio como sine qua non para se fazer arte. Embora necessária como política pública para a cultura, não pode operar como um dispositivo controlador ou motivador único de um canto. Artista de uma espécie que corre o risco de estar entre as últimas cigarras.

Voltando às cigarras, quando alcançam a maturidade, sobem às árvores e deixam pelo caminho as “enxúvias”, aquelas casquinhas que serviram de proteção para as ninfas. Quando o coração transborda talvez seja uma obra de transição, parece demarcar uma nova fase para a atriz, em que mais que lidar com a expectativa, regada por tanta gente, de que deveria dar continuidade ao projeto criado pelo pai, celebra e agradece essa herança, mas, na mesma medida a redimensiona e, ao ritualizar e reafirmar suas próprias escolhas, parece simbolizar a marca de uma maturidade e apontar em direção a um projeto cada vez mais autoral.

.:. As referências à vida das cigarras foram encontras no seguinte endereço, aqui.

.:. Quando o coração transborda integrará a 16ª edição do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que acontece entre 18 e 30/8/2015.

Ficha técnica:
Direção: Maíra Oliveira e João Antonio de Lima Esteves
Atuação: Maíra Oliveira
Direção musical: Roberto Corrêa
Roteiro: Maíra Oliveira
Preparação corporal: Daniel Lacourt
Produção: Carvalhedo Produções
Direção de produção: Tatiana Carvalhedo
Assistentes de produção: Marcelo Nenevê, Jef Alves e Pedro Sousa
Assessoria de imprensa: Objeto Sim
Figurino: Maria Carmen
Iluminação: Marcelo Augusto
Operação de luz: Zizi Antunes
Programação visual: Ico Oliveira
Contrarregra: Marcelo Nenevê