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Crítica

Arte, vida e a ‘forma-ensaio’

3.6.2015  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Mattias Edwall

Ao assistir Extreme symbiosis as pessoas de teatro certamente vão lembrar que já há um tempo razoável desde que os estudiosos delimitaram um campo teórico para catalogar e explorar as aproximações mais radicais entre arte e vida em termos contemporâneos (pois que, a rigor, essa relação esteve sendo experimentada o tempo todo desde sempre). Das teorias da performance, strictu sensu, às do teatro performativo ou pós-dramático, não faltam versões que tentam iluminar a espetacularidade pelo seu avesso, ali onde ela encontra o ordinário do mundo e nele articula a re-formalização da arte desde algumas das suas bases. No campo das artes cênicas estas práticas sobre as quais falam os teóricos resultaram, entre outras coisas, no enxugamento do caráter ficcional das narrativas (ou a sua momentânea suspensão), com a emergência recorrente do documental e, no limite, da própria substituição da narrativa tradicional por jogos de linguagem em que os materiais valem por si, não querem ‘representar’ nada fora deles.

Salvo engano o trabalho dos suecos apresentado no Circos – Festival Internacional Sesc de Circo é tributário, senão da teoria, ao menos desta intuição recorrente nos artistas atuais em torno de uma cena já não ficcional. Aqui ela é apresentada em chave reflexiva. Em linhas gerais, Henrik e Louise, circenses suecos que trabalham juntos há quase quinze anos, tinham como tarefa a preparação de um ‘número’ de portagem – técnica em que duas ou mais pessoas sustentam fisicamente outras e que exige força e equilíbrio. O número, com duração de curtos cinco minutos, fez parte da prova de pós-graduação da dupla e inclui ainda passagens de dança (balé). Henrik (o portô, que fica na base) e Louise (volante, que é erguida e fica em equilíbrio) documentaram o processo de criação da cena gravando depoimentos sonoros e imagens dos treinamentos.

O espetáculo, entretanto, não se reduz à apresentação do número finalizado. Isto é o acidental. O essencial é a exibição, em documento, do processo de treinamento, com seus fracassos recorrentes e suas pequenas conquistas diárias. Há duas narrativas que seguem paralelas: as falas e imagens em um telão ao fundo e as ações presentes da dupla, no primeiro plano da cena, onde uma parte do processo é atualizada no ‘aqui agora’ do encontro com a plateia.

a simbiose radical é fruto poético de enfrentamentos que envolvem estas e aquelas disposições emocionais e um tratado de convivência mediado pelo imprevisto, pelo risco

Em um ponto de vista sui gêneris para o circo, mesmo o contemporâneo, o interesse teatral se potencializa então não pela via de uma empatia com o espetacular, mas pelo seu avesso: na dramaticidade passageira e nas pequenas alegrias dos acontecimentos comezinhos que vão pontuando a convivência criativa. De maneira que o número de cinco minutos resulte em um espetáculo (ou em certa medida em um anti espetáculo) de uma hora no qual tomamos contato com mais que os ‘bastidores’ de um treinamento. O que se mostra em boa medida são os lances íntimos e comportamentais que raramente presenciamos, senão em forma ficcional, desta ‘cozinha’ do gênero. É quando descobrimos que a simbiose radical é fruto poético de enfrentamentos que envolvem estas e aquelas disposições emocionais e um tratado de convivência mediado pelo imprevisto, pelo risco e pela possibilidade permanente do malogro que, sendo de um será necessariamente de outro.

No espetáculo o enxugamento até quase o osso das camadas que na cena tradicional fazem a mediação entre nós, audiência, e o evento artístico, traz entre outras uma consequência curiosa: o reconhecimento imediato da diferença cultural. Não em termos estritamente artísticos, pois as técnicas de trabalho físico levadas à cena pelos suecos são reconhecíveis. Podemos dizer, a essa altura, que são técnicas “universais”. A diferença (em relação a nós, plateia brasileira) se dá pelas bordas, na área do comportamento mesmo, que se pode ler na teia de ações e reações que aquele bastidor desenha. É notável a regência apolínea, contida, medida, das ações e reações de um performer em relação ao outro, mesmo nos momentos mais tensos do trabalho. A concentração e preservação radical do objetivo comum o resguarda, pode-se dizer, de uma maneira exemplar. Mas, para nós, quase inexplicável. A continência das reações só ganha espaço maior nos relatos gravados em áudio, confissões íntimas que dimensionam as ações em lugar mais franco. São os momentos em que a vida, sem a vigilância do compromisso de desempenho, pula a cerca e se revela, quem sabe, em suas formas mais interessantes justamente porque livres, não disciplinadas.

Estes modos próprios da socialização poderiam ser apenas um lance acidental. Mas acabam por servir como o contorno que faz reconhecer maneiras peculiares e, poderíamos certamente dizer, “locais”, de enxergar a própria subjetividade e a relação com o outro. Modos não tão próximos dos nossos e que por isso mesmo nos chegam como coisa reveladora. Iluminam em parte não apenas o que somos como também o que não somos ou, além do bem e do mal, não aprendemos a ser. A plateia é levada, pois, neste contraste entre comportamentos distintos, a confrontar as palavras e as coisas. De um lado a lembrança em abstrato a expressões como cooperação, colaboração, interdependência, solidariedade mútua; ou autonomia, liberdade, criação, individualidade. E de outro as próprias ações através das quais isso ganha o mundo, mas em uma tradução particular da sociabilidade, nem sempre alinhada a nossa. No mundo da mercadoria, em que quase tudo se apresenta a nós como produto finalizado e pronto para consumo, esta forma-ensaio, capaz de gerar todas estas questões, dá o que pensar. E, acidentalmente que seja, é um algo potente que o espetáculo nos deixa.

.:. Publicado originalmente no site do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo, aqui. A instituição contratou um grupo de profissionais para uma ação da prática da crítica durante o evento, de 28/5 a 7/6/2015.

Kil Abreu

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