Menu

Assine nossa newsletter

Reportagem

Magiluth transborda realidade conflituosa

10.6.2015  |  por Mateus Araújo

Foto de capa: Renata Pires

O Magiluth está em crise existencial. Individualmente, a crise dos 30 anos remexe com a cabeça do elenco; e, coletivamente, a crise dos dez anos, remexe com as ideias do grupo. “Vivemos questionamentos de buscas e permanências”, conta o ator Giordano Castro. E se os conflitos abalam o grupo, explodiram também em cena, com nova peça, que estreia na próxima quinta, 11/6, no Recife. O ano em que sonhamos perigosamente, “a mais profunda”, como diz Giordano, de uma trajetória iniciada em 2004 e hoje uma das mais importantes da cena teatral pernambucana.

Há três anos o grupo não criava uma nova montagem. A última foi Luiz Lua Gonzaga, que estreou em dezembro de 2012, sobre o universo poético das composições do Rei do Baião. Meses antes, os atores encenaram uma versão premiada de Viúva, porém honesta, de Nelson Rodrigues.

Agora, a imersão é bem mais profunda. “Criamos um público cativado pelos estilos das peças anteriores. Com Aquilo que meu olhar guardou pra você (2012), falamos das delicadezas; em Viúva, usamos a brincadeira de cena; e em Luiz, a afetividade. Desta vez, vamos ser duros e bem difíceis”, afirma Giordano.

O novo espetáculo “magiluthiano” é uma ideia que surgiu em 2013, e foi maturada aos poucos, entre as tantas viagens que o grupo fez, nos últimos anos, encenando seu repertório de peças pelo Brasil. Metafórica, a montagem lança olhar sobre a realidade conflituosa do mundo, das crises econômicas às desconformidades, para refletir sobre o teatro e a coletividade. “Cinco homens treinam. Buscam novas formas e composições de/para construir algo belo, algo que ainda não se sabe o nome. A ação, por si mesma e em si mesma, não muda. As pessoas, sim. As pessoas dançam”, está escrito no texto de apresentação.

É uma peça ‘dedo na ferida’. Vamos propor sensações para pensar sobre o caos – e nem a gente tem essas respostas

Tomando como bases o cinema do ácido diretor grego Yorgos Lanthimos (vencedor do Prêmio do Júri, em Cannes, no mês passado, com o filme A lagosta) e o livro O ano em que sonhamos perigosamente, do filósofo esloveno Slavoj Žižek, o texto discute as dicotomias e a angústia que pairam a sociedade atual.

“Yorgos usa a família, o poder e paternidade para falar da crise grega e dos movimentos de emancipação. Já Žižek pensa sobre a crise do capitalismo, as falências dos moldes capitalistas”, diz Giordano. “Na peça, queremos falar das ocupações, da arbitrariedade, de um déspota morto. Enquanto o país se mata por dinheiro, a gente se mata para fazer teatro”, brinca Giordano Castro, que assina a dramaturgia com Pedro Wagner.

Engajado nos movimentos questionadores que surgem em Pernambuco, o elenco do Magiluth tomou como inspiração, entre outras situações, o Ocupe Estelita. “É inegável o quanto ele é fundamental para nós. A cidade, nos último dois anos, reviu sua maneira de questionar os governos e os poderes.”

“É uma peça ‘dedo na ferida’”, resume Giordano. “Vamos propor sensações para pensar sobre o caos – e nem a gente tem essas respostas”, conta o ator. Para o Magiluth, O ano em que sonhamos perigosamente é uma obra aberta a múltiplas interpretações, um ensaio de resistência ético-estético-político.

Além de Giordano, a peça tem no elenco Erivaldo Oliveira, Mário Sergio Cabral, Pedro Wagner e Thiago Liberdade – que volta oficialmente ao elenco da companhia (ele foi um dos fundadores do Magiluth). A direção é de Pedro Wagner. Lucas Torres assina a produção e Pedro Vilela, o desenho de luz.

Criada com patrocínio do Prêmio Myriam Muniz, a peça é a primeira de duas que o grupo vai estrear em 2015. Em outubro, os atores lançam Sobre a felicidade (nome provisório), em parceria com o a companhia portuguesa Mala Voadora.

Nova peça do grupo de Recife toca feridas de si do mundoRrenata Pires

Nova peça do grupo de Recife toca feridas em si do mundo

“Menos afetuosa e mais violenta.” É assim que o diretor Pedro Wagner define O ano em que sonhamos perigosamente. Um dos mais expressivos atores do Magiluth, o rapaz volta a assumir a direção de uma montagem do grupo, cinco anos depois.

Em 2010, Pedro dirigiu O torto, marco na trajetória de pesquisa do grupo, símbolo da “quebra” de uma estética que vinha sendo criada pelos jovens atores, e novo norte para o que eles chamam de “jogo teatral”.

Agora, no novo espetáculo, a promessa é de uma nova quebra. “Deixamos de lado o estilo aristotélico (representativo, com uma trama de início, meio e fim) para assumir o pensamento de (Gilles) Deleuze (filósofo francês, com pensamento mais político), para quem ‘a arte está em todas as coisas naturais’”, explica o diretor.

Pedro Wagner diz que sua direção é erguida por um processo provocativo. “Não me interessa a racionalidade. No Magiluth, não interessa a interpretação, mas a presentificação do ator. Não estamos ali interpretando uma sentimento. Estamos ali.”

A acidez do novo espetáculo, conta Pedro, deve causar estranhamento ao público mais acostumado com a “delicadeza” das outras peças do Magiluth. Na última quinta-feira, o grupo fez um ensaio aberto e, afirma, o diretor, deixou muita gente tonta. “É uma peça desagradável”, provoca.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Commerecio, Caderno C, p. 1, em 8/6/2015.

Serviço:
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife, tel. 81 3355-3320)
Quando: Quinta a sexta-feirra, às 20h. Estreia dia 11/6. Até 26/6.
Quanto: R$ 20

Ficha técnica:
Direção: Pedro Wagner
Dramaturgia: Giordano Castro e Pedro Wagner
Com: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Pedro Wagner e Thiago Liberdade
Preparação corporal: Flávia Pinheiro
Desenho de som: Leandro Oliván
Desenho de luz: Pedro Vilela
Direção de arte: Flávia Pinheiro
Fotografia: Renata Pires
Design gráfico: Thiago Liberdade
Caixas de som: Emanuel Rangel, Jeffeson Mandu e Leandro Oliván
Técnico: Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados