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Crítica

Tragédias esquecidas

21.7.2015  |  por Daniel Schenker

Foto de capa: João Julio Mello

Os espaços são definidos com precisão e, ao mesmo tempo, escapam a delimitações em Caranguejo overdrive e Laio & Crísipo, novas montagens d’Aquela Cia. de Teatro, que comemora dez anos de atividade, apresentadas recentemente no Espaço Sesc, no Rio de Janeiro, com direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski. Na primeira, a “ação” se passa no Rio de Janeiro, após a Guerra do Paraguai; na segunda, os personagens se encontram à beira de uma estrada, em lugar remoto.

Entretanto, Caranguejo overdrive (que voltará à programação no dia 7 de agosto) mostra uma cidade em transformação que, porém, não altera realmente. Ao retornar da guerra, o soldado interpretado por Matheus Macena é informado de que o tempo trouxe mudanças. Mas, apesar de percebê-las numa esfera mais evidente, ele constata a continuidade de perversas estruturas de relação. Numa cena, a atriz Carolina Virgüez dá vazão a um jorro de palavras que dimensiona a perpetuação (folclórica) da corrupção na política nacional. Os acontecimentos não são os mesmos; a lógica de funcionamento, em todo caso, segue idêntica.

Em Laio & Crísipo, as vitrines de striptease localizadas numa estrada perdida podem remeter ao famoso bairro da Luz Vermelha, em Amsterdã. Há, na montagem, uma utilização consciente de clichês, a julgar pela cenografia (de Aurora dos Campos) e pelos figurinos (de Marcelo Marques), compostos por calças jeans justas e vestido vermelho com fenda. O elo com a contemporaneidade é realçado pelo tom coloquial, quase banal, do texto.

Contudo, as obras não se encerram em contextos determinados. Colocam o público diante de um concentrado de tempos. Em Caranguejo overdrive, Marco André Nunes e Pedro Kosovski traçam instigante conexão entre o Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e o Manguebeat. Já Laio e Crísipo contemplam, de fora, suas próprias jornadas, abarcando também o futuro ao anteciparem o que está por vir – a tragédia de Édipo, a partir do momento em que este, sem saber, matar seu pai, Laio.

ao priorizar Laio e Crísipo, Pedro Kosovski sinaliza o desejo de falar sobre a tragédia dos esquecidos, dos relegados a um destaque bem modesto

Laio, Crísipo e Jocasta são abordados sem qualquer reverência. Se no passado longínquo permanecem como figuras emblemáticas, no presente surgem mergulhados no anonimato, destituídos de grandiosidade. Não há muita singularidade no triângulo amoroso que formam e o afastamento de um plano especial parece – pelo menos, em certa medida – intencional. Se existe algum problema nessa operação dramatúrgica, reside no fato de a tragédia soar aleatória, ao invés de vinculada à pesquisa do grupo, que montou anteriormente Edypop. Seja como for, ao priorizar Laio e Crísipo, Pedro Kosovski sinaliza o desejo de falar sobre a tragédia dos esquecidos, dos relegados a um destaque bem modesto. Em Caranguejo overdrive, o protagonista, traumatizado pela guerra (um entre tantos outros), acaba engolido pelo sistema implacável. Os demais personagens despontam por meio de pinceladas, com contornos menos nítidos.

As construções dos dois espetáculos revelam percursos distintos. Em Caranguejo overdrive, Marco André Nunes extrai de uma espacialidade básica imagens poderosas (como a do homem coberto de lama, imóvel) em cena potencializada por iluminação (de Renato Machado) algo opressiva. Em Laio & Crísipo, investe em partitura musical (direção musical de Felipe Storino, nos dois trabalhos) que contrasta com o arrebatamento, com o tom constantemente exacerbado, da montagem, que busca sintonia com o destemor da juventude, e iluminação (mais uma vez, Renato Machado) frenética, marcada por cores intensas.

Cena de 'Caranguejo overdrive', com Aquela Companhia (RJ)João Julio Mello

Cena de ‘Caranguejo overdrive’, com Aquela Cia. de Teatro (RJ)

Ainda que não seja um espetáculo que valorize particularmente as atuações, Caranguejo overdrive surpreende com o naturalismo desconcertante de Carolina Virgüez (na passagem em que realiza uma explanação diante da plateia). Fica a impressão de que o sentido de improvisação faz parte da estruturação da interpretação. A construção, ocultada, não aparece para o espectador. Vale mencionar o domínio de Matheus Macena em relação à instabilidade do personagem assombrado pela guerra. Em Laio & Crísipo, Erom Cordeiro, Ravel Andrade e Carolina Ferman estabelecem provocante e catártico jogo de sedução, firmando, principalmente no que se refere ao primeiro ator, presença cuja expressividade transcende a contundência das palavras.

.:. Publicado originalmente no blog danielschenker.wordpress.com

Ficha técnica: Ocupação Aquela Cia. de Teatro no Espaço Sesc (25/6 a 19/7)
Laio & Crísipo
Direção: Marcos André Nunes
Texto: Pedro Kosovski
Com: Carolina Ferman, Erom Cordeiro e Ravel Andrade
Músicos em cena: João Paulo e Felipe Storino
Direção musical: Felipe Storino
Direção de movimento: Marcia Rubin
Figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Renato Machado
Cenário: Aurora dos Campos
Produção: Quintal Produções

O crustáceo faz ponte com o movimento ManguebeatJoão Julio Mello

O crustáceo faz ponte com o movimento Manguebeat

Caranguejo overdrive
Texto: Pedro Kosovski
Direção: Marco André Nunes
Com: Carolina Virgüez, Alex Nader, Eduardo Speroni, Fellipe Marques e Matheus Macena
Músicos: Felipe Storino, Maurício Chiari e Pedro Kosovski
Direção musical: Felipe Storino
Instalação cênica: Marco André Nunes
Iluminação: Renato Machado
Design gráfico: Karin Palhano
Assessoria de imprensa: Luciana Medeiros e Leila Leal
Direção geral de produção: Verônica Prates
Fotos: Elisa Mendes
Ideia original: Maurício Chiari
Canção Como caranguejo: Maurício Chiari

Daniel Schenker

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