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Crítica

Os ‘Meninos da guerra’ por eles mesmos

17.8.2015  |  por Fernando Marques

Foto de capa: Ricardo Padue

Gostaria de caminhar um pouco à volta do teatro político no país, antes de chegar ao comentário do comovente espetáculo Meninos da guerra, feito a partir de depoimentos de garotos e garotas em situação de rua ou residentes em abrigos no Distrito Federal.

A montagem foi mostrada em Ceilândia, em julho, e em Brasília, nos dias 4 a 6 de agosto. Pode ser?

A tradição de engajamento ou simplesmente de preocupação social, no teatro brasileiro, remonta aos anos 1960, tendo tido episódios importantes já na década de 1950, a exemplo de Eles não usam black-tie, de Guarnieri. As peças acidamente políticas de Oswald de Andrade, escritas nos anos 1930, não foram encenadas em seu tempo.

Na comédia A mais-valia vai acabar, seu Edgar, Oduvaldo Vianna Filho pretendeu explicar a trabalhadores, em 1960, o modo como o capitalismo os explora. Não chegou a alcançar o público operário que almejava ou, quando o conseguiu, não se fez entender por ele. Mas conquistou largas plateias universitárias. A diversidade de códigos foi sempre um problema a resolver para que a aliança política entre remediados e pobres, bacharéis e proletários, se consumasse no teatro.

Para os artistas, tratou-se e se trata ainda de aprendizado. Esse aprendizado passou pela experiência do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, que durou de 1961 a 1964, quando a UNE, e com ela o CPC, foi atropelada pelo golpe militar já na madrugada brutal do 1º de abril. As práticas do CPC, arrogantes e ingênuas ao presumir poder ensinar o povo a pensar (em vez de entendê-lo como professor na arte maior de sobreviver), vinham sendo revistas pela própria entidade quando golpistas incendiaram o prédio da UNE.

Eis que o teatro participante reaparece em dezembro de 1964 com o Show Opinião, no qual as classes trabalhadoras, encarnadas em Zé Keti e João do Vale, e a classe média, representada por Nara Leão, ensaiam uma simbólica aliança contra os ricos e seus gerentes (a luta de classes, ontem como hoje, não comporta excessiva sutileza: como disse Olavo Setúbal, “banco não é namorado”). O espetáculo abriria a série de montagens, frequentemente musicais, com que o teatro respondeu à ditadura, daquele ano até as vésperas das Diretas Já, em 1984. Nesse caminho, pode-se assinalar, como belo exemplo, O último carro, de João das Neves, encenado pelo Grupo Opinião no Rio de Janeiro, em 1976.

continuamos próximos de ‘O último carro’ (ou seja, a peça de João das Neves permanece atual), mas felizmente ultrapassamos o dirigismo do CPC. Creio tratar-se agora de solidariedade e de interesse genuíno, a envolver parceiros que se equivalem

O título alude a um vagão de trem. Os personagens de repente percebem que o veículo roda sem maquinista e sem governo, metáfora de um Brasil que, àquela altura, não sabia para onde andava – como hoje, de novo, também não sabe. Diga-se que a democracia demoradamente construída não mais parece vulnerável às aventuras autoritárias. Certo?

No eloquente Último carro, personagens modestos ou despossuídos, usuários do trem que liga a zona norte ao centro do Rio, exibem-se em cenas isoladas, ligadas umas às outras apenas por ocorrerem naqueles vagões. O autor as relaciona dramaticamente, no entanto, quando a circunstância do trem à solta reúne os passageiros. Autor e atores pertenciam aos setores remediados, mas se esboçou ali uma aproximação menos abstrata. O que se deu, entre outros aspectos, no filme que integrava o espetáculo e exibia cenários reais.

Em meados dos anos 1980, o grupo teatral Nós do Morro, da favela do Vidigal, no Rio, tomou a si a tarefa de falar dos próprios problemas. É a comunidade quem responde por dramaturgia, cena e público. As alianças, de todo modo, continuam a ser possíveis – e agora ainda mais, por temos um país menos imaturo que o das décadas de 1960 e 70. Sinal dessa esperança é o fato de a experiência do Nós do Morro e de outros grupos haver despertado o interesse da universidade, na forma da tese e do livro.

Não que a universidade valide essa experiência, legítima com ou sem livros e teses. Tento dizer é que existem hoje condições de diálogo entre as classes, possivelmente mais que no passado. O livro citado chama-se A favela como palco e personagem e é de Marina Henriques Coutinho, professora da UniRio. Enfim, continuamos próximos de O último carro (ou seja, a peça de João das Neves permanece atual), mas felizmente ultrapassamos o dirigismo do CPC (embora o paternalismo sobreviva nas ações salvacionistas da Rede Globo…). Creio tratar-se agora de solidariedade e de interesse genuíno, a envolver parceiros que se equivalem.

Sim, Meninos da guerra. Talvez eu tenha feito a volta acima, posando de crítico objetivo, por não ser fácil enfrentar os sentimentos que a peça desperta em nós, do público. Mas vamos lá. Vale notar de saída que o pequeno Teatro Garagem, no extremo sul da cidade, com seus cerca de 200 lugares, achava-se lotado na quinta-feira, dia 6/8. Produtores, à entrada, reagiam aliviados à notícia de que “o secretário já chegou”. Referiam-se a Guilherme Reis, secretário de Cultura do DF.

Cena do relato do estupro de adolescenteRicardo Padue

Cena do relato do estupro de adolescente

O palco encontra-se praticamente nu. Uma tela ao fundo, ora translúcida (quando atores surgem atrás dessa tela) ora suporte para imagens projetadas, e o palco enxuto compõem o cenário básico para as várias histórias. Esses episódios provêm do repertório vital dos 14 adolescentes que integram o elenco, ao lado de Clarice Cardell, Herculano Almeida, Jeferson Alves e Lívia Fernandez, bons atores com domínio cênico. A peça foi escrita por Carlos Laredo, que a dirigiu em parceria com Zé Regino.

O problema dos códigos artísticos, diversos conforme a classe que os produz, não se coloca desta vez, porque o caminho aqui é em certa medida o inverso que o de espetáculos que falam dos pobres, mas não são feitos por eles. O fato de as situações partirem de depoimentos dos meninos empresta veracidade a elas. Podemos lembrar Décio de Almeida Prado, que ao escrever sobre A morte do caixeiro viajante afirmou que o sofrimento é a mais universal das linguagens.

É principalmente de sofrimento que se fala em cena. O processo dramático foi o da superposição, pelo qual as cenas se acumulam, mantendo-se relativamente isoladas, ligadas apenas (o que não é pouco) mediante a radicalidade das vivências, verdadeiramente infernais. Estupros, roubos, assassinatos (um deles praticado por um dos jovens personagens) se enfileiram à nossa frente, sem se banalizarem. A atenção ao fato humano é talvez o maior mérito de Meninos da guerra. Não é um espetáculo feito para os patrocinadores.

Não ocorreu no espetáculo brasiliense, como ocorreu em O último carro (que uso como referência pelas similaridades de tema e estrutura), o recurso a um evento patético exterior e, ao mesmo tempo, capaz de atingir a todos (na peça do Opinião, o trem desgovernado). Mas há certo sentido de crescendo, de clímax, dado ao final quando um garoto, preso numa delegacia, é confrontado pela policial de plantão. A moça o conhece desde a infância; conheceu sua mãe, testemunhou a história miserável de sua família. Aqui, temos o Estado representado na agente, ríspida mas com olhos humanos, enquanto a população juvenil, largada à própria sorte e a um passo do crime, aparece na figura do garoto.

As cenas e relatos comovem. Um dos meninos conta que o pai lhe batia com um pedaço de pau – ornado com pregos na ponta. Acrescente-se a isso que o menino tinha seis anos de idade quando as surras aconteceram. Garotas obrigadas a dormir na rua borram de fezes o próprio sexo para não ser estupradas. Alguns adolescentes só dormem de dia, esparramados nas calçadas. Indolência? Não: poderão ser assaltados se dormirem à noite.

Encerro lembrando um aspecto que me intrigou. O espetáculo, a certa altura, mostra de maneira obscura uma cena em que meninos de mãos atadas são forçados a se atirar, de um ponto elevado, nas águas a sua frente. Não está claro se suas mãos estão amarradas ou algemadas; nem que águas serão aquelas: talvez as do lago Paranoá? Por fim, quem os atira, quem os obriga a saltar? E de onde?

A presença na plateia do secretário Guilherme pareceu mesmo salutar e necessária. Teria sido bom que também o secretário de Segurança e o governador tivessem assistido à montagem. Meninos da guerra, mais que evento teatral, é um depoimento emocionado, um apelo por direitos elementares: vida, moradia, escola, refeições limpas. E não produz – agora falo por mim – apenas comoção, mas também indignação, raiva.

Até quando?

Passagem da mãe alcoólatra no espetáculo brasilienseRicardo Padue

Passagem da mãe alcoólatra e sua filha no espetáculo brasiliense

Ficha técnica:
Dramaturgia, encenação e codireção: Carlos Laredo, com base em textos de Lívia Fernandez e relatos dos jovens participantes
Codireção e preparação de elenco: José Regino
Com: Clarice Cardell, Herculano Almeida, Jeferson Alves e Lívia Fernandez. E os jovens Cristiane Ferreira da Silva, Emerson Nunes da Silva, Herbert Lins dos Santos, Israel Soares, Jadhy Marques, Jefferson Junior, Joaquim Souza, João Vitor, Lucimara Ferreira Silva, Mayara Cabral dos Santos, Patrício Alves da Cruz, Rayane Cabral dos Santos, Thalia Raquel Rodrigues de Souza e Vanessa Santos
Figurino e cenário: José Regino, Carlos Laredo, Clarice Cardell e Lívia Fernandez
Assistência de direção e preparação de elenco: Lívia Fernandez
Coordenação de produção: Clarice Cardell
Direção de produção: Claudia Leal
Trilha sonora: Gog e Higo Melo
Vídeos: Carlos Laredo com a colaboração de Tarso Olivier Heckler e Lívia Fernandez
Iluminação: Carlos Laredo
Assessoria de imprensa: Angélica Torres
Transmissão do espetáculo online: Comova
Fotografias: Ricardo Padue, Tarso Olivier Heckler e Carlos Laredo
Coprodução: Casa Incierta, Celeiro das Antas e Intermedia Caliandra

Fernando Marques

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