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Reportagem

Atos de Mauro Soares e Adriane Mottola

22.9.2015  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Alessandra Rosa

Figuras emblemáticas das artes cênicas da capital gaúcha, a atriz e diretora Adriane Mottola, da Cia. Teatro di Stravaganza, é a madrinha do Porto Alegre em Cena, enquanto o ator Mauro Soares tem sua carreira registrada no livro A luz do protagonista.

Mulher de palco

Com mais de 30 anos de carreira, a atriz e diretora Adriane Mottola é a madrinha do 22º Porto Alegre em Cena, título dado a personalidades que contribuem com as artes cênicas na cidade. Sua trajetória está intimamente ligada com à da Cia. Teatro di Stravaganza.

Em 1988, ao lado de Luiz Henrique Palese e Cacá Corrêa (ambos falecidos), criou a Cia. Teatro di Stravaganza, que tem como característica o jogo dos atores e a visualidade da cena. No início, o trabalho do grupo caracterizou-se pela criação da própria dramaturgia e por uma dedicação especial ao teatro infantil. Desse período, Adriane destaca a peça Por um punhado de jujubas (1990).

Um marco na trajetória da companhia foi também a estreia de Decameron (1993). Com a ousada direção de Palese, o espetáculo projetou o grupo nas cenas nacional e internacional tendo uma boa crítica de Barbara Heliodora. “Víamos que éramos maiores do que pensávamos”, relembra.

Sou conhecido por atuar como coadjuvante. Isso não me incomoda, nunca aspirei a ser um protagonista, mesmo que tu não tenhas nenhuma fala, tens que estar inteiro em cena

Adriane também morou na Europa, pesquisando a commedia dell’arte e, com a Cia. Teatro di Stravaganza, viabilizou a vinda de Philippe Gaulier ao Brasil para ministrar cursos de clown e bufão. Após a perda de Palese, em 2003, os trabalhos foram retomados e houve uma aposta em textos pós-dramáticos, com o grupo inaugurando também sua sede própria.

A diretora se orgulha e lamenta de ser de um dos poucos grupos gaúchos a ter seu espaço – que, atualmente, por uma questão relacionada à elaboração do PPCI do edifício – serve apenas para ensaios e depósito. “Como madrinha, desejo que todos os grupos possam ter suas sedes. Isso é fundamental para o trabalho”, diz.

Os espetáculos recentes da companhia são bastante elogiados, como Estremeço (2012) e Pequenas violências silenciosas e cotidianas (2013). “Adoro ser madrinha, briguei muito por um festival internacional de artes cênicas quando era presidente do Sated, apresentei Decameron na primeira edição, fui produtora de palco e até diretora artística do festival.”

Homem de teatro

Mauro Soares estreou no teatro em 1966, na peça Os deuses riem, com direção de José Luiz Algayer Mendonça. No próximo ano, ele completa 50 anos de carreira, mas a idade ele não revela – os amigos brincam que é o quarto segredo de Fátima. Bem-humorado, Soares, que sempre fez papéis coadjuvantes nos palcos, agora é o ator principal do livro A luz do protagonista, redigido pelo jornalista Roger Lerina – sexto volume da coleção Gaúchos em Cena. O lançamento ocorreu no último dia 17, no Centro Municipal de Cultura.

Mauro Soares conviveu com Living TheatrePorto Alegre em Cena/Divulgação

Mauro Soares conviveu com Living Theatre

Testemunha de fatos importantes do teatro, Soares confessa que esse livro fez ele abrir “gavetas” que estavam guardadas há muito tempo. “Levei um susto. Quando o Luciano (Alabarse) me ligou, eu disse: o que tenho para contar?”, questiona.

Mas Mauro Soares tem, e muito. Ele recorda quando trabalhou no emblemático Teatro de Arena de Porto Alegre (Tapa). “Época em que a repressão estava muito forte, trabalhávamos sob pressão, tivemos textos proibidos”, recorda.

Também lembra a importância da participação em festivais estudantis promovidos por Paschoal Carlos Magno, em 1968, na capital carioca, em 1971 e 1975, na Aldeia de Arcozelo, no estado do Rio de Janeiro. “Neste festival, conheci diversos tipos de propostas artísticas”, conta.

Uma das lembranças mais marcantes é de assistir ao ensaio da peça As bacantes, do Living Theatre, e, posteriormente, conversar com os integrantes do grupo, Judith Malina e Julian Beck, na rodoviária de Porto Alegre em 1971 – eles estavam indo para Montevidéu. Dos papéis que fez no teatro, Mauro Soares destaca os que trabalhou com Luciano Alabarse.

Nos últimos dez anos, ele atua com periodicidade nos espetáculos do diretor. “Sou conhecido por atuar como coadjuvante. Isso não me incomoda, nunca aspirei a ser um protagonista, mesmo que tu não tenhas nenhuma fala, tens que estar inteiro em cena”, diz ele, que completa: “Ainda tenho desejo de fazer um solo, A última gravação de Krapp, do Beckett”. Há 25 anos, o ator é funcionário público e trabalha no Instituto Estadual de Artes Cênicas (Ieacen), coordena e divulga festivais amadores no interior e, todos os anos, estreia uma peça. “Eu me considero uma pessoa de teatro, até trabalhei com televisão e cinema, mas gosto do palco”, comenta.

No último dia 15/9, outro ator foi homenageado: João Carlos Castanha, que apresentou o espetáculo Até o fim no Teatro Bruno Kiefer da CCMQ.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 15/9/2015.

Michele Rolim

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