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Crítica

Misantropia ciberpoética

12.9.2015  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Humberto Araujo

Num ser tão no futuro que
Seu enigma estará
Inscrito
Num anel de prata.
Por uma feiticeira, a data.

(Cassiano Ricardo, Sortilégio, em Os sobreviventes)

Em São José dos Campos

O espetáculo de Rodrigo Fischer é um desconcerto. Independente dos seus efeitos e do que mobilizam, e ainda que o próprio Fischer venha da criação “em grupo”, trata-se de uma tradução muito próxima daquilo que Cassiano Sydow Qulici, pesquisador do teatro, chamou de “solidão colaborativa”, cotejando algumas experiências do teatro contemporâneo com o boom dos chamados processos colaborativos, em que a construção da cena se dá na dinâmica do trabalho coletivizado.

Em Misanthrofreak, talvez pela própria natureza do tema – o isolamento/descolamento voluntário do sujeito em relação a certos modos de convívio no mundo – esse estar sozinho se radicaliza enquanto processo de criação (segundo relato do ator) e segue testando possibilidades, em arquitetura e sentido, no encontro com o público, o que gera o paradoxo mais curioso e provavelmente mais produtivo da montagem.

Cena da apresentação no Festivale, em São José dos CamposFCCR/Divulgação

Cena da apresentação no Festivale, em São José dos Campos

Um segundo eixo, que faz par com aquele, é o que dá conta do fracasso como assunto, explorado aqui de maneira autônoma ainda que sem dúvida informado subliminarmente pela orientação de uma estética aproximadamente beckettiana, sobretudo na assimilação do tema não como um discurso exterior aos meios de expressão mas, ao contrário, como forma articulada em atos entranhados na própria linguagem. Não é, pois, sobre a representação do malogro de uma persona de ficção. É o erro enquanto performação presente, deliberada, já não a partir exclusivamente da figura de ficção como também do ator ele mesmo, que não só se faz matéria como também inventa a dinâmica do espetáculo operando toda a sua mecânica: luz, som, vídeo.

do narcisismo radical à percepção da necessidade de olhar contextos; do fechamento que estava no princípio do projeto à abertura poética que ele ganha no confronto com a plateia.

Em um primeiro plano tridimensional da cena estão malas, balões, bonecas infláveis, manequins e outros objetos com que esse clown-carlitos-misantropo contemporâneo se relaciona imediatamente. Ao fundo e à frente estão dois telões através dos quais o imaginário da cena se amplia, em projeções, entre outras, de rotas de fuga em trens imaginados (para onde?), pistas de dança, aglomerações humanas, beijos de cinema ou a luta de arena do sujeito com ele mesmo. Grande parte destes enfrentamentos, deste agón sem oponente, se dá em chave de ironia ou autoironia. Daí certo sentimento vizinho do patético que tende a dar o tom do conjunto.

O encontro do teatro com o cinema, do software (o Isadora) que permite aqueles efeitos de junção entre a cena projetada e a cena vivida, e todo o entorno tecnológico da montagem, se por um lado perfazem de fato alguns dos elementos essenciais a ela (sem estes não só a técnica, os sentidos também mudariam), por outro não dão conta de concentrar todos os espaços de pensamento que ali são abertos. Esta “escrita de si” e portanto com e pelos próprios meios (físicos, técnicos, existenciais), que periga cair no buraco do ensimesmamento, se depara com uma resistência essencial que não é outra senão a da própria natureza do teatro. Ou ao menos do teatro que ainda conta com a presença viva da plateia. Intuindo talvez isto Rodrigo Fischer acabou por criar uma obra cuja potência está justo nesse lugar de entrelaçamento dos duplos que o espetáculo, por fim, faz viver: do narcisismo radical à percepção da necessidade de olhar contextos; do fechamento que estava no princípio do projeto à abertura poética que ele ganha no confronto com a plateia.

Rodrigo Fischer cria espaços de pensamentos abertosHumberto Araujo

Rodrigo Fischer cria espaços de pensamentos abertos

Este Misanthrofreak, esse diferente-fora-da-ordem que o espetáculo performa não significa então, talvez como se poderia pensar em uma primeira impressão, um desejo de calar diante do outro e sim um cansaço em relação às falas ordinárias, às formas relacionais da vida coletiva e às suas traduções na arte, tomadas por repertórios e convenções carcomidas – inclusive e talvez, sobretudo, no caso – as do teatro (daí o apelo à metalinguagem). Curiosamente o solo não pretende tocar estes lugares através do silêncio, mas justo do acúmulo e multiplicação das referências.

Para muitos de nós pode parecer um espetáculo exigente e até mesmo hermético. Não há negociação de nenhuma ordem que garanta a emergência da fábula ou ao menos conexões que não sejam provocativamente precárias entre os fragmentos. É uma maneira de virar a linguagem pelo avesso para resgatá-la, vivificá-la nem que seja pela estranheza. Nesse sentido o trabalho de Rodrigo Fischer pede de nós uma atitude que não está em geral plenamente disponível: a audição sensível para aquele enigma sobre o qual poetava o Cassiano Ricardo. A resposta já está impressa em algum anel de prata a ser encontrado enquanto a pergunta ainda pede para ser feita.

.:. Escrito no âmbito da 30ª edição do Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, o Festivale, em São José dos Campos (SP). O jornalista, crítico, curador e pesquisador do teatro viajou a convite da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR).

Ficha técnica:
Atuação, direção, luz e som: Rodrigo Fischer
Vídeo: Brent Felker e Fernando Gutiérrez
Cineastas: Peter Azen e Juliano Chiquetto
Realização: Grupo Desvio

Kil Abreu

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