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Crítica

Sob todas as nossas peles

6.9.2015  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Carol Lacerda

Em São José dos Campos

4 Na Rua É 8, o nome da trupe de Jacareí que trouxe Má pele ao Festivale, diz muito sobre os modos como este delicado trabalho ganha a cena. Vindos da sempre boa escola que é o teatro de rua (lembremos o ótimo Aqui trem – histórias da ferrovia), o grupo parece multiplicar-se mesmo no palco para dar conta do seu tema sensível e da invenção dos procedimentos artísticos possíveis que oferecem a ele a carne e a ossatura cênica. A companhia renova neste espetáculo o interesse por criar dramaturgia a partir da paisagem física e humana observada na cidade. Em uma valiosa pesquisa, eles vêm afirmando através da cena não só a possibilidade do registro histórico como também – o mais importante se o ponto de vista for o da arte – a continuidade de um projeto poético no sentido fundo e mais produtivo da expressão.

Em Má pele esta pesquisa trata do drama (e por que não dizer, das alegrias?) de crianças que no decorrer dos anos 30 do século passado e adiante foram separadas dos pais, estes acometidos pela hanseníase, e levadas compulsoriamente ao preventório municipal, onde uma parte passaria toda a infância e de onde em certos casos sairia definitivamente órfã. Ao desenho destas tragédias íntimas corresponde a moldura histórica e o contexto social de um Brasil que se afirma no autoritarismo preventivo, então maquinado na política de higienização sanitária. De um país que já nascera dentro de uma cultura cuja raiz está nas formas do contraste pautadas na discriminação social. Formas que encontram aqui um contorno especialmente perverso: o da expressão da violência institucional promovida pelo Estado.

é  visível o empenho do grupo em deixar o narrado instituir os próprios efeitos, sem que sejam necessárias ilustrações demasiadas dos estados emocionais ou apelos ao sentimentalismo

A teia de vivências e consequências decorrentes da privação da liberdade e do afeto parental, bem como a forja dos comportamentos e decisões diante da situação, são levantadas no espetáculo através de uma delicada arquitetura. O instrumento mais útil entre todos é sem dúvida a narrativa. Um teatro que mesclando diálogos e narrações dá conta de articular o dado histórico aos enfrentamentos pessoais, o quadro geral da sociedade ao drama pessoal e intransferível de cada personagem. Coletiva que seja, a dramaturgia alcança assim uma unidade e um equilíbrio muito favoráveis à teatralidade.

Diante desta estrutura que pede idas e vindas entre o narrado e o vivido, entre o relato e o diálogo, entre o fato representado e a distância crítica tomada frente à representação, os atores performam com desenvoltura mais que razoável. Dizíamos durante o debate depois do espetáculo que um dos benefícios do aprendizado vindo das encenações nas ruas é esta disposição bem assimilada para um trânsito dinâmico e fluido na cena aberta e nas diversas formas do “estar em cena” que a montagem pede.

Entre as qualidades que podem ser observadas no trabalho da direção há duas especialmente relevantes: a de construir dispositivos cênicos (planos visuais, deslocamentos, etc) que favorecem o nosso interesse na descrição de lugares e circunstâncias. E o trabalho mais detido com o jovem elenco, que demonstra uma fé nas imagens da narrativa que nunca é negociada. Há em toda a encenação uma medida firme de racionalidade que compensa em certa medida o perigo de que o assunto e as situações se percam no melodrama. Em geral é visível o empenho do grupo em deixar o narrado instituir os próprios efeitos, sem que sejam necessárias ilustrações demasiadas dos estados emocionais ou apelos ao sentimentalismo. Os fatos, representados ou relatados com certo rigor e, quando é o caso, distância, não perdem com isso as bordas da emoção. E ganham quanto à possibilidade de uma compreensão não refém da mera catarse dramática.

Cena de 'Má pele' com o grupo 4 Na Rua É 8, de JacareíCarol Lacerda

Cena de ‘Má pele’ com o grupo 4 Na Rua É 8, de Jacareí

Há um elemento na encenação que certamente pede cuidado: o trabalho musical, tanto na execução dos instrumentos quanto nas passagens cantadas. Não seria uma condição importante caso a música não tivesse papel central na costura dramatúrgica. É um meio essencial à proposta e ainda pede afinação.

Se o ponto de vista for o dos sentidos possíveis o mais potente no trabalho do grupo de Jacareí é que se trata de um espetáculo que segue além de si. Qual seja, apesar das circunstâncias de ficção tão determinadas a montagem estende seus significados para alcançar as tantas formas de apartamento e discriminação vividas na sociedade atual. E especialmente agora, tempo de tantos e tão urgentes contrastes e em que o reconhecimento do outro na sua condição de diferença é algo tão problemático. Não é pouco e por isso é uma alegria ver o 4 Na Rua É 8 de fato multiplicando os gestos criativos e os campos de pensamento que aos poucos vão definindo aquilo que costumamos chamar de trajetória artística.

.:. Escrito no âmbito da 30ª edição do Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, o Festivale, em São José dos Campos (SP). O jornalista, crítico, curador e pesquisador do teatro viajou a convite da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR).

Ficha técnica:
Direção: Edgar Castro
Com: Camila Florentino, Juliano Mazzuchini, Lucila Andreozzi e Miguel Ramos
Assistente de direção: Daniela Rosa
Direção musical: Márcio de Oliveira
Preparação corporal: Melany Kern
Figurino: Samanta Olm
Iluminação: Fernando Andrade
Estágio: Gabriela Bernardes e Carolina Costa Silva
Design Gráfico: Pedro Guima

Kil Abreu

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