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Reportagem

‘Eu’, Suzana Saldanha

17.10.2015  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Gilberto Perin

A placa na parede do apartamento de Suzana Saldanha com a frase ‘o segredo do sucesso é começar novamente’ descreve um pouco de como a sua vida tem sido. Depois de 30 anos morando e trabalhando no Rio de Janeiro, a atriz, diretora e professora de 69 anos volta a atuar nos palcos de Porto Alegre com o solo Eu. A reestreia ocorre nesta sexta-feira (16/10), com a primeira de quatro apresentações na Sala de Música do Multipalco Theatro São Pedro.

Depois de trabalhar com Domingos Oliveira, Aderbal Freire-Filho e Gerald Thomas, além de continuar sua parceria com Luiz Arthur Nunes, Suzana voltou por motivos de saúde e familiares – retorno, aliás, nada fácil. “A cidade, como um todo, não suporta que você saia daqui, essa é a grande crítica que eu faço. Não é por nada que (o músico gaúcho) Bebeto Alves escreveu Festa dos caranguejos“, desabafa. “Me revolto com isso, a minha música favorita é Imagine, de John Lennon. Eu nasci aqui, entro e saio quando eu quero. Podemos ficar aqui e crescer profissionalmente, é verdade, mas quem trabalha com arte tem que ter o desejo de conhecer o outro no seu local.”

Desde que retornou a Porto Alegre, Suzana já dirigiu a peça O mundo de Camila, monólogo para crianças estrelado por Márcia do Canto, e lançou o livro Meu nome é Anita, parceria com Elma Sant’Ana que reúne dramaturgia e resgate histórico de Anita Garibaldi. Mas a grande volta da atriz será mesmo com este solo.

Suzana destacou-se na década de 1970 por integrar o Grupo de Teatro Província, liderado por Luiz Arthur Nunes (diretor de Eu), reconhecido por suas encenações experimentais. O Província contrastava com o Teatro de Arena, liderado por Jairo de Andrade, que se propunha um teatro que privilegiava o engajamento político.

A primeira vez que Porto Alegre presenciou um espetáculo de teatro pós-dramático foi com ‘Love, love, love’ (1981), dirigido por Luiz Arthur Nunes

O novo espetáculo não foge ao que Suzana acreditava desde os tempos de Província. O texto, assinado por ela, surgiu a partir do encantamento da atriz pela palavra “desamparado”, encontrada no livro Quem pensas tu que eu sou?, do psicanalista Abrão Slavutzky. “Eu sou viciada no teatro pós-dramático, que acaba com o tal do textocentrismo. O pós-dramático mistura tudo, literatura, fragmentos de peças, cartas, biografias, fotografias, poemas etc”, enfatiza ela.

Suzana emenda que a primeira vez que Porto Alegre presenciou um espetáculo de teatro pós-dramático foi com Love, love, love (1981), também dirigido por Luiz Arthur Nunes. “Na época, nenhum jornalista me perguntou se a peça era biográfica, e na verdade era. Mas ainda nem se falava em pós-dramático”. Love, love, love mostrava a relação de quatro amigos e tinha no elenco, além dela, Pilly Calvin, Gilberto Perin e Guto Pereira.

A artista também dedicou sua vida ao magistério (deu aulas em colégios, na Ufrgs e na UFRJ) e ao teatro de grupo. “Sou professora de alma e sempre acreditei no trabalho de grupo, que posso dizer que mudou para melhor. Éramos uma igreja, não convidávamos pessoas de fora. Agora as pessoas entram e saem dos grupos. No meu tempo, se tu ousasses dizer que ia fazer uma novela, seria execrado”, conta Suzana, citando Adriane Mottola, Liane Venturella e Nelson Diniz como pessoas com quem ela gostaria de colaborar.

A atriz, diretora e professora Suzana Saldanha em 'Eu'Gilberto Perin

A atriz e diretora Suzana Saldanha

Com Eu, ela pretende se aproximar dos espectadores: “São necessários dois elementos para que exista teatro: quem faz e quem vê. Eu quero é isso. O teatro não está morto, está vivo. E também não quero um público morto, que quando o espetáculo termina se levanta e bate palma porque acha cafona não fazer isso. Isso estabelece uma relação de falsidade com o ator”.

Entre os espetáculos teatrais que atuou, ela destaca A comédia dos amantes (1979), com direção Luís Artur Nunes; A mulher carioca aos 22 anos (1989), O tiro que mudou a história (1991) e O carteiro e o poeta (1997) com direção de Aderbal Freire-Filho; Electra Concreta (1986), de Gerald Thomas; e Senhora dos afogados (2010), com direção de Ana Kfouri.

Além de participar em novelas e programas de TV, Suzana também brilhou nas telas, venceu o prêmio de melhor atriz coadjuvante do Festival de Gramado com o longa Separações (2002), de Domingos Oliveira. “As coisas foram acontecendo na minha vida, não foi nada planejado. Quando olho para trás, gosto de fechar a casa, dar as coisas e começar tudo de novo.”

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Viver, p. 1, em 16/10/2015.

Serviço:
Onde: Sala de Música do Multipalco do Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/n, Centro, Porto Alegre, tel. 51 3227-5100)
Quando: Sexta e sábado, às 19h. Até 24/10
Quanto: R$ 50

Ficha técnica:
Dramaturgia: Suzana Saldanha
Direção: Luiz Arthur Nunes
Com: Suzana Saldanha
Assistente de direção: Isaias Quadros
Iluminação: Marga Ferreira
Técnico de som: Tiago Soares
Fotografia – Gilberto Perin
Escritório de produção: Marilourdes Franarin e Isadora Fagundes

Michele Rolim

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