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Crítica

‘Jacy’ e suas palavras ao vento

1.11.2015  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Rômulo Juracy

A velhice foi o ponto de partida do Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte, quando debruçado sobre a missão de compor um novo espetáculo. O caminho natural, para apropriar-se do tema, era se cercar de informação, compor histórias, talvez até tangenciar o real, mas revesti-lo com as rendas da ficção. E o propósito manteve-se firme por certo tempo, mesmo quando o acaso veio bagunçar sua intenção primeira. Mas há coisas que se impõem. Há pequenos mistérios a rondar esse mundo de explicações racionais e lógicas. E, às vezes, depois de resistir, é preciso saber a hora de se entregar.

Jacy nasce dessa rendição. Uma peça que se faz, essencialmente, na tentativa de dividir o espanto e a maravilha das miudezas que cruzaram o caminho dessa companhia. São miudezas no sentido literal do termo. Ao sair da casa de sua mãe, em um bairro de Natal, o ator e diretor Henrique Fontes deparou-se com um incomum emaranhado de entulho. Um colchão, o estrado de uma cama, papéis carregados pelo vento e uma frasqueira – bolsa feminina que estava repleta de pequenos objetos desimportantes. Havia um lenço, próteses dentárias, uma radiografia, o cartão de um motorista de táxi, alguma correspondência comercial, recibos de postagens nos correios.

É uma vida comum. Com solidões e pequenas perdas, como o a de todo mundo. É uma vida extraordinária. Com surpresas, reviravoltas e arranjos insuspeitos do destino, como a de todo mundo

As hesitações que cercaram essa descoberta prosaica são compartilhadas em detalhes com a plateia. A obra sobre a velhice transmutou-se em biografia da dona daquela bolsa perdida em uma avenida movimentada da capital potiguar. Mas não só. Não exatamente. Dois filósofos, Pablo Capistrano e Iracema Macedo, uniram-se ao grupo para escrever os textos. E aquele mundo de infinitas possibilidades, contidas em uma antiga bolsa feminina, começaram a ganhar forma e contornos; passaram a engendrar novas dúvidas e percalços.

De acordo com a definição do teórico francês Patrice Pavis, teatro documental é o “teatro que só usa, para seu texto, documentos e fontes autênticas, selecionadas e montadas em função da tese sociopolítica do dramaturgo.” Henrique Fontes e a atriz Quitéria Kelly levam à cena seu contato com esse tipo de pesquisa. Não exibem propriamente uma técnica específica, mas uma forma de apropriar-se do mundo. Como se o teatro fosse um meio de olhar e se aproximar do que está vivo e presente, porém, nem sempre explícito.

O ator e diretor Henrique Fontes no espetáculo 'Jacy'Daniel torres

O ator e diretor Henrique Fontes no espetáculo ‘Jacy’

Investigações e entrevistas permitiram reconstituir a vida da mulher que nomeia o espetáculo. Sabemos que Jacy nasceu no interior do Rio Grande do Norte, filha de uma família abastada, dona de engenho de açúcar. Foi criada pelos avós, após a morte da mãe. Transferiu-se para a capital do estado, Natal. Gostava de carnaval, de bailes, de cinema. Assistiu à Segunda Guerra Mundial. Viu a cidade ser tomada por soldados americanos. Apaixonou-se por um deles. Perdeu-o de vista. Conseguiu reencontrá-lo e casar-se com ele 20 anos depois. É uma vida comum. Com solidões e pequenas perdas, como o a de todo mundo. É uma vida extraordinária. Com surpresas, reviravoltas e arranjos insuspeitos do destino, como a de todo mundo.

A atriz Quitéria Kelly, cofundadora do Grupo Carmin, de NatalDivulgação/Grupo Carmin

A atriz Quitéria Kelly, cofundadora do Grupo Carmin, de Natal

Há lacunas na história de Jacy. Coisas que ninguém sabe ao certo como aconteceram. E permanecemos com essas perguntas. Existem vínculos com a história do Brasil. E com as transformações ocorridas nos lugares onde ela morou. Os trinta anos passados no Rio de Janeiro, trabalhando como funcionária pública, com sentimentos dúbios diante dos fatos políticos que se seguiram ao golpe militar de 1964. O retorno a Natal, após a aposentadoria, e o reencontro com uma cidade diversa da que tinha deixado. Retrato particularizado do progresso avassalador que varreu as capitais brasileiras – inchadas demograficamente, despojadas de seu passado e construções históricas, ampliadas sem planejamento, ao sabor das aventuras de empreendimentos imobiliários.

Muitos cuidados cercam o olhar que o Grupo Carmin lança à biografia dessa mulher anônima. Ilações são permitidas só até certo ponto. O princípio ético, contudo, não retira do espetáculo seus laivos de ironia. Em especial, de autoironia. Os intérpretes miram desconfiados suas escolhas interpretativas. Desenham a personagem, mas recuam diante da imitação. Riem do que soa canhestro. Utilizam o vídeo, assinado por Pedro Fiúza, como comentário cômico (o equipamento de projeção apresentou falhas no dia da primeira apresentação de Jacy na Mostra Latino–Americana de Teatro de Grupo). Melancolicamente, fazem troça de suas mazelas, de suas falhas e contradições. Soltam suas palavras, as páginas dessa história – por eles reescrita e apropriada – ao vento. Mas ao vento não quer dizer em vão.

.:. Escrito no âmbito da 10ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

.:. Leia crítica de Valmir Santos para a apresentação de Jacy na Mostra Internacional de Teatro da Paraíba, a MITpb, em 2014.

Ficha técnica:
Textos: Pablo Capistrano e Iracema Macedo
Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano
Direção: Henrique Fontes
Atuadores: Quitéria Kelly e Henrique Fontes
Manipulador de imagens e interação de audiovisual: Pedro Fiúza
Assistente de direção: Lenilton Teixeira
Design de luz: Ronaldo Costa
Cenografia: Mathieu Duvignaud
Trilha sonora original: Luiz Gadelha e Simona Talma
Coordenação de produção: Quitéria Kelly
Assistente de produção: Daniel Torres
Designer gráfico: Vitor Bezerra
Fotógrafo: Vlademir Alexandre
Assessor de imprensa: Pedro Andrade
Gerenciadora de mídias virtuais: Danina Fromer

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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