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Crítica

Fantasmagoria e iluminação

12.12.2015  |  por Gabriela Mellão

Foto de capa: Lee Kyung Kim

Uma lua negra paira suspensa sobre a cena de Fantasmas, novo espetáculo da Companhia Club Noir adaptado do clássico homônimo de Henrik Ibsen.

Nesta versão da obra do autor norueguês de 1881, apontada por alguns teóricos como a primeira tragédia moderna da história do teatro, o círculo simboliza os anseios obscuros do ser humano, fantasmas que assombram a paz e a ordem do homem. São os instintos primários, impulsos sexuais impossíveis de serem reprimidos que ameaçam as forças civilizatórias e o moralismo exacerbado da sociedade dogmatizada.

Alvim contrapõe sob o palco o mundo circular, representado pela natureza e sua selvageria, ao mundo cartesiano da ordem, dos limites, da repressão. Os personagens são iluminados por feixes de luz quadrados. Parecem encarcerados por eles. Os quadros de luz incidem sobre o chão como muros, aprisionando cada personagem em um espaço individual demarcado.

Roberto Alvim faz uma adaptação memorável de Ibsen. Conserva apenas a essência de seu horrores, tornando a obra mais precisa e pulsante para os tempos atuais

Nos planos abertos, o delineamento também é quadrangular. Luzes frias que oscilam entre o branco e o vermelho colocadas sobre o piso determinam os limites da mansão da Senhora Alving (por Juliana Galdino), local aonde irão se manifestar as pulsões irreprimíveis de um pastor corrompido pelo dinheiro, o mestre de obras disposto a prostituir e a abusar de sua enteada, e sobretudo a relação incestuosa entre a dona-de-casa e seu filho.

Alvim faz algumas concessões de linguagem para potencializar ainda mais seu Fantasmas. A iluminação menos penumbral, reveladora das expressões dos atores, é uma delas. Também escala intérpretes de trajetórias bastante distantes da perseguida pelo Club Noir, como Mário Bortolotto, Pascoal da Conceição e Guilherme Weber, para darem novos coloridos à musicalidade costumeira de suas encenações. Reúne um time inesquecível. Estão todos muito bem, mas Galdino e Bortolotto se sobressaem. Ela como a matriarca da casa, com seu poder habitual de transformar linguagem em música atonal. Bortolotto como o filho degenerado trava um embate sangrento com suas pulsões, numa batalha interior que age feito fantasma, desta vez na cabeça do espectador, seguindo-o depois que ele deixa o teatro.

Conceição, Weber e Galdino: encontro de escolas de atuaçãoLee Kyung Kim

Conceição, Weber e Galdino: encontro

Alvim faz uma adaptação memorável do texto. Conserva apenas a essência de seu horrores, tornando a obra mais precisa e pulsante para os tempos atuais. Mantém diálogos que em uma encenação tradicional teriam tons realistas. Personagens digladiam-se na cena sustentando o fervor da interlocução direta, mas a comunicação não se dá sem a interferência do poder de imaginação do espectador, instigado pelo isolamento espacial dos interlocutores, apartados por territórios inconciliáveis.

Alvim é mestre em colocar a fantasia do público para trabalhar, na tentativa de decodificar frases ou gestos minimalistas, ações sugeridas ou simbólicas em seus espetáculos. À primeira vista, seu Fantasmas parece mais nítido do que as outras criações que marcaram sua companhia. Um olhar mais atento revela, no entanto, uma obra capaz de instaurar em cena os anseios mais perturbadores do homem, motores da potência criadora da humanidade que lutam por ar há séculos, soterrados pela hipocrisia moral e pelo fanatismo religioso.

Serviço:
Onde: Sesc Santana (Avenida Luiz Dumont Vilares, 579, São Paulo, tel. 11 2971-8700)
Quando: Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 18h. Até 13/12
Quanto: R$ 30

Juliano Galdino e o círculo dos anseios obscuros do serLee Kyung Kim

Juliano Galdino e o círculo dos anseios obscuros do ser

Ficha técnica
Texto: Henrik Ibsen
Direção, tradução e adaptação: Roberto Alvim
Com: Guilherme Weber, Juliana Galdino, Pascoal da Conceição, Mário Bortolotto e Luísa Micheletti
Cenografia e iluminação: Roberto Alvim
Trilha sonora original: LP Daniel
Figurinos: Juliana Galdino
Assistente de direção: Steffi Braucks
Fotografia e vídeo: Leekyung Kim
Projeto gráfico: Felipe Uchôa
Cenotécnia: Diego Dac (Ateliê Russo)
Visagismo: Alex (Salão Pierà)
Direção de produção: Ricardo Grasson
Produção executiva: Ricardo Grasson e Fernando Fado
Assistente de produção: Felipe Costa e Ivy Souza
Produção: Gelatina Cultural
Idealização: Club Noir
Realização: Sesc São Paulo

Autora, diretora e jornalista teatral. Pós-graduada em Jornalismo Cultural na PUC-SP, estudou Cultura e Civilização Francesa na Sorbonne, em Paris, e Dramaturgia e História do Teatro Moderno em Harvard, Boston. Escreve para Folha de S.Paulo e revista Vogue. Compõe o júri do prêmio APCA de teatro. É autora e diretora de Nijinsky - Minha loucura é o amor da humanidade (2014), peça convidada a integrar o Festival de Avignon de 2015. Tem cinco peças encenadas, Ilhada em mim – Sylvia Plath (indicada ao prêmio de melhor direção pela APCA de 2014); Espasmo (2013); Correnteza (2012); Parasita (2009), A história dela (2008), além de um livro publicado com suas obras teatrais: Gabriela Mellão – Coleção primeiras obras. Lecionou Laboratório de Crítica Teatral para o curso de Jornalismo Cultural na pós-graduação da Faap, entre 2009 e 2012. Foi crítica da revista Bravo! entre 2009 e 2013, ano de fechamento da mesma.

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