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Resenha

Mistérios de Dario Fo

17.12.2015  |  por Dirce Waltrick do Amarante

Foto de capa: Michael Edwards/Wikipédia

Não são muitos os títulos de livros do dramaturgo italiano, ganhador do Nobel de Literatura de 1997, Dario Fo (1926), em português, no Brasil.

Este ano, a Sesi-SP Editora publicou Mistero buffo, uma das obras mais importantes de Fo, em tradução e adaptação de Neyde Veneziano, que há muito vem se dedicando à obra do dramaturgo, e ilustrações de Claudius Ceccon. O termo adaptação, nessa edição, é usado para advertir o leitor de que, na transposição desses textos para o português, não se levaram em conta os diferentes dialetos italianos – milaneses, sicilianos, lombardos etc. — usados no original, já que essa variação não ocorre na nossa língua. Sabe-se que Fo escreve com base na oralidade; por isso a confusão de dialetos e do uso do grammelot (sequência de sons sem sentidos) em suas peças, os quais, segundo o dramaturgo, não prejudicam o seu entendimento, pois, os gestos, para ele, são mais importantes do que as palavras.

‘Mistero buffo’ parte da tradição das histórias sagradas, mas é carregado de ironia, subvertendo o aspecto sacro do texto

Mistero buffo é um livro composto de mais de vinte “quadros” independentes. Nessa edição brasileira, contudo, o leitor terá acesso a apenas cinco “quadros”, os mesmos que foram encenados em 2012, pelo grupo La Mínima no Teatro, dirigido pela própria tradutora da obra para o português. A primeira encenação de Mistero buffo é de 1969.

A propósito do título da obra, ele remete aos mistérios medievais, ou ao drama medieval religioso, do século XIV ao século XVI, que, segundo Patrice Pavis, colocavam em cena episódios do Antigo e do Novo Testamento ou contavam a vida dos santos. Esses mistérios, apresentados em festas religiosas, duravam vários dias. Aos poucos, contudo, eles se corromperam e adquiriram características burlescas. No ano de 1548, a Igreja proibiu esses espetáculos na Île-de-France. Ainda assim, a tradição se perpetuou não só na França, mas em toda Europa.

Mistero buffo parte da tradição das histórias sagradas, mas é carregado de ironia, subvertendo o aspecto sacro do texto. Em A ressurreição de Lázaro, o milagre da ressurreição se transforma num grande espetáculo, em que não faltam vendedores de ingressos, de sardinhas e de cadeiras: “(No papel de guarda do cemitério). Sim. Dez real se quiser ver o milagre! […]. Dez real, senão vai pra outro cemitério! Quero ver se você acha um outro santo tão bom quanto o nosso, que com dois passes arranca os mortos pra fora das campas! Vai, vai! A senhora também, dona, dez real! O moleque, cinco real!”.

A grande maioria dos quadros são monólogos, introduzidos por um prólogo, apresentado por um único ator, que “recebe o público sem maquiagem, com a roupa que vem da rua, conversando, cumprimentando as pessoas, fazendo-as ocupar os lugares em volta dele”, como afirma Neyde. No prólogo, o ator explica alguns aspectos do quadro que se irá assistir: “Essa jogralice, O louco e a morte, é de origem croata, mas foi encontrada em uma transcrição dálmata bastante antiga […]. No teatro popular dos primórdios, o louco indica o personagem de contraponto, o de ponta-cabeça, fora das regras (fura-regras), que não aceita nem os costumes nem a lógica […]”.

Atores do Grupo La Mínima em 'Mistero buffo' (2012)Carlos Gueller

Atores do Grupo La Mínima em ‘Mistero buffo’ (2012)

O termo jogralice diz respeito, como lembra Neyde, “a uma obra narrada e criada por um jogral (ou giullare), que era um misto de ator e jornal falado do povo, narrador de fatos e artista especialmente satírico. Um fato bíblico, quando ‘dito’ por um jogral, vinha, inevitavelmente, contado ‘ao revés’”.

Na década de 1970, afirma Jean-Pierre Ryngaert, os monólogos estavam em alta, muito provavelmente, por questões econômicas. Além disso, essas peças para um único ator, como no caso das de Dario Fo, favoreciam o testemunho direto, a narrativa íntima e se voltavam à tradição das falações, em que o ator se dirige ao público sem o anteparo de uma ficção estabelecida.

Dario Fo é um dramaturgo politicamente engajado e cria um teatro fora das convenções do palco tradicional e burguês. Fo acredita num teatro popular, feito de recursos mínimos, em que o discurso teatral se concentra sobretudo no gesto.

.:. Publicado originalmente no jornal Notícias do dia em 14/12/2015, p. 8.

Serviço:
Mistero buffo (Sesi-SP Editora, coleção Teatro Popular do Sesi, 2015, 120 páginas, R$ 34,90). Mais informações, aqui.

Dirce Waltrick do Amarante

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