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Crítica

O indivíduo e o processo histórico

14.1.2016  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Divulgação

“O futuro dos museus está dentro de nossas próprias casas”, prognostica o escritor Orhan Pamuk, autor de O museu da inocência (2008). O romancista turco reivindica a escala humana para as instituições fixadas em narrativas nacionais, de Estado, em detrimento das experiências dos indivíduos que efetivamente a viveram. Ao escrever e dirigir o espetáculo Família museu (Familia museo, 2013), resultado de formação universitária em Buenos Aires, Ariel Zagarese fez uma delicada aproximação da premissa daquele Nobel de Literatura, como verificado na apresentação durante a II Bienal Internacional de Teatro da USP.

O paradoxo é que apesar de recortar a história de um indivíduo, seu pai, a experiência transmite a sensação de que o processo histórico ficou à margem na fração de tempo e de lugar que essas vidas compartilharam na sociedade argentina das décadas de 1980 e 1990.

Ao discutir os limites da representação oficial, o espetáculo argentino ‘Família museu’ também se depara com os seus

O trabalho de veio autobiográfico recria o microcosmo doméstico adotando o ponto de vista do primogênito Zagarese, da infância à entrada na fase adulta, quando Rubén Carlos Zagarese (1948-1999) sofreu o segundo enfarto. Fumante inveterado, ele era então divorciado de Norma e ainda pai da quarta personagem nesses relatos cênico, a caçula Carla.

Dramaturgia e encenação misturam dados factuais e voos ficcionais por meio de diálogos, fotos projetadas e objetos pessoais que imantam uma construção poética, estética e afetiva da rememoração. Tudo deriva da figura patriarcal, suas idiossincrasias e a relação com/dos filhos e mulher.

Antes de entrar em contato com a cena, o espectador é convidado a pisar e vivenciar o espaço cenográfico que mimetiza o ambiente de uma galeria. Totens expõem objetos originais com respectivos focos de luz, como máquina de barbear, caixa de ferramentas e relógio de pulso. Itens que dão a medida da capacidade artesã do homem que trabalhou na companhia estatal energética, conforme o breve perfil escrito na folha de papel afixada ao fundo do cenário. Pisar o território que em tese é dos atores nos dá a chance de ler o documento, mesmo após o final, e absorver informações-chave.

No prólogo, o próprio Rubén Carlos Zagarese ocupa o espaço expositivo em uma cadeira, jornal em punho, representado pelo ator Alejandro Ruaise. O operário que ajudou a forjar a família do diretor agora tem suas coisas correlacionadas publicamente. Objetos disparadores daquilo que o menino Zagarase guardou (e reelaborou) do que o pai disse, praticou e legou entre acertos, erros e ideais.

Esses dados, digamos, museológicos são vinculados a situações coloquiais. Estão colados a um campo anedótico igualmente amparado no registro de interpretação, a lembrar séries televisivas e tornando esquemática a sequência de quadros. O projeto acaba pulverizando as estruturas temáticas e formais ao subtrair a perspectiva histórica da moldura do sujeito retratado. Isso contraria a natureza daquilo que é sustentado de algum modo: o museu da pessoa. O percurso do pai esboça um estado de consciência (a individuação junguiana?) que não se cumpre, talvez porque falte pano de fundo à narrativa.

Localização e época ficam condicionados ao álbum fotográfico e a diálogos distensos. O recurso de mostrar os parentes em poses estáticas, feito fotograma, apazigua e não transcende. A aldeia é particularizada em mão única, não devolvida ao universo.

Espaço expositivo na peça do argentino Ariel ZagareseDivulgação

Espaço expositivo na peça do argentino Ariel Zagarese

O espetáculo reduz o campo de identificação da audiência com o “chefe de família” portenho. Os resquícios de livre associação com classe operária ou classe média, por exemplo, não advém da cena por ela mesma, mas dos anexos, retraindo o envolvimento. O que se confirmou na atuação apenas correta do quarteto de atores na sessão acompanhada no Tusp.

Ao discutir os limites da representação oficial, Família museu também se depara com os seus. É um limite não sublinhar o processo histórico em sentido mais amplo do que as pistas (também sociais e econômicas) disponíveis por meio do conteúdo audiovisual, do suporte dos objetos e da breve biografia paterna na parede cenográfica.

Em sua segunda visita artística ao Brasil – passou pelo Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau em 2014 -, Ariel Zagarese é nome da nova geração argentina a ser acompanhado com atenção. Ele foi assistente de Lola Arias em Mi vida después, obra que observa a história do país por meio de camadas íntimas, e exibida na I Bienal em 2013.

.:. Escrito no contexto da II Bienal Internacional de Teatro da USP (27/11 a 18/12), em ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

A DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

Ficha técnica:
Texto e direção: Ariel Zagarese
Com: Manuela Iseas, Sabrina Loza, Manuel Reyes Montes e Alejandro Ruaise
Cenografia: Ariel Vaccaro
Iluminação e operação técnica: Jessica Tortul
Assistência de direção: Julia Troiano
Coreografia: Pablo Lugones
Produção: Javier Torres Dowdall

Valmir Santos

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