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Crítica

Topografia da dor

25.1.2016  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Divulgação Tusp

O que deveria ser impensável, inimaginável – a mulher como saco de pancadas – ganha feição por meio de estatísticas, relatos, corpos e muita indignidade na performance Para aquelas que não mais estão, uma resposta à violência de gênero, chaga naturalizada na casa, no trabalho, na escola, na rua. Parceria da atriz mexicana Violeta Luna com as brasileiras Stela Fischer e Leticia Olivares, do Coletivo Rubro Obsceno, de São Paulo, o trabalho dá nome e rosto a algumas das milhares de vítimas assassinadas nos últimos anos.

A exposição dos sintomas objetivos do feminicídio em contextos latino-americanos vem atrelada a uma reação artística ao trauma. São elaborados níveis de crueldade bem como de espiritualidade. O suporte documental em fotos e dados, o engajamento explícito da narrativa, a invocação dessas memórias e a culminância ritual em reverência às mortas fazem da jornada um pacto testemunhal das artistas e do público para com esta época de paroxismos e a reincidência histórica do fenômeno da descartabilidade do outro, parelho aos campos de concentração.

As atrizes-criadoras dispensam o papel de porta-vozes. Elas evitam o escudo da vitimização e dão passagem às mulheres dessa tragédia cotidiana olhando nos olhos do presente

Somos confrontados a uma experiência de causa humanitária e geradora de efeitos cênicos e audiovisuais perturbadores. O impacto pode ser medido pelo silêncio abismal que cada espectador guarda para si ao deixar lentamente a sala do Tusp na primeira das duas apresentações que encerraram a II Bienal Internacional de Teatro da USP. A manifestação de aplauso seria mesmo despropositada. Em seu terço final, a performance delineia o território de um santuário. Nichos com velas, areias, adereços, objetos e fotografias constroem as presenças interrompidas por homens que boa parte dessas mulheres amou. “Não é crime passional, é feminicídio”, ouvimos.

Resulta flagrante o modo arcaico como o machismo obstrui direitos civis em sociedades do século XXI. Por isso a proposta de chamar e dar a lume as identidades exterminadas, feridas. O público soma a essa corrente de desvelamento familiares, amigas, personalidades. A cada nome, uma vela é colocada em relevo no espaço cenográfico tomado por lágrimas derretidas, compondo uma topografia da dor.

A descrição pode supor abordagem maniqueísta nessa estrutura com ares de instalação. Negativo, o roteiro não dá brechas. O sentimento solidário envolve estados incômodos. Não há arquibancada ou cadeiras na sala multiuso. Permanecemos em pé ou sentamos no chão amadeirado. As criadoras fazem desse ambiente de caixa uma ocupação. As músicas e os vídeos incidentais atritam ou fundem o que se denuncia. Num paralelo, as trabalhadoras de Cidade Juarez, na fronteira do México com os Estados Unidos, são violadas e exploradas em condições não muito distantes da realidade das brasileiras dos grandes centros urbanos que rumam de madrugada para a fábrica ou a casa da patroa, sujeitas à agressão.

Ação uniu mexicana Violeta e Rubro Obsceno (SP)Roderick Steel

Ação uniu mexicana e brasileiras

É da pilha de roupas ao centro da cena que as atrizes vestem as vidas que se foram. Elas usam figurino base de cor preta e manipulam as peças. Panos simbolizam o varal, o rastro, a mordaça, o tecido que ata as mãos, o véu. Os gritos de guerra contra abusos em projeções originais de passeatas ocorridas em países de língua portuguesa ou espanhola inflamam o espaço que transpira a rua. Consciência crítica e tensão amplificada pela fita zebrada, agora fora da tela, configurando de vez a arena dos conflitos com o público postado ao redor.

A sincronização de ativismo político com sedimento poético torna substancial o encontro em Para aquelas que não mais estão. As afinidades estéticas do Coletivo Rubro e de Violeta Luna sustentam o hibridismo de linguagem com razão de ser e um discurso firme e urgente sobre as zonas sombrias da engrenagem capitalista. As atrizes-criadoras dispensam o papel de porta-vozes. Elas evitam o escudo da vitimização e dão passagem às mulheres dessa tragédia cotidiana olhando nos olhos do presente, operando a boca (e a arte) no trombone para despertar os que aqui estamos e desejamos um convívio mais justo aos que virão.

Assim como O espaço do silêncio, com Nina Caetano, ação realizada numa praça, a performance da mexicana e das brasileiras demonstra atitude crítica e consciência histórica. Sobretudo ao plantar formalmente uma ágora e desmanchar alegoricamente o edifício teatral desde o seu ventre.

Leticia Olivares lê carta às mulheres executadasDivulgação Tusp

Leticia lê carta às mulheres executadas

Ficha técnica: Criação e atuação: Violeta Luna e Coletivo Rubro Obsceno (Leticia Olivares e Stela Fischer)

.:. Escrito no contexto da II Bienal Internacional de Teatro da USP (27/11 a 18/12), em ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

Valmir Santos

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