A organização da terceira Mostra Internacional de Teatro de São Paulo apresenta similaridade com a primeira ao ser condicionada pela medida do possível. A pressão cronológica que em 2014 não frustrou em qualidade, agora, sob aperto de ordem financeira, tampouco deve decepcionar na escolha das obras.

Antes, vale recapitular um pouco. A MITsp surgiu em março de 2014 premida pelo tempo. O alinhamento de recursos privados e públicos ocorreu quando boa parte das obras que a direção artística ambicionava, principalmente em outros continentes, já não dispunha de agenda.

Mesmo assim a programação alcançou surpreendente nível artístico, extensivo às práticas reflexivas e formativas concebidas para serem equivalentes em termos de importância e articulação no interior do evento. A direção artística preconizava em cada obra um núcleo irradiador de pensamento sobre a cena. O público correspondeu a essa atitude curatorial lotando as salas e fruindo residência, workshop, pensamento crítico, mesas sobre percursos, trocas e demais transversalidades envolvendo artistas internacionais e brasileiros, não necessariamente do campo das artes cênicas.

Naquele ano seminal as apresentações e as atividades foram gratuitas e atraíram cerca de 14 mil pessoas, conforme a organização. Houve expressiva participação de profissionais ou estudantes de artes cênicas, parte considerável vinda de outros estados.

E porque a escalação tem tudo para não resultar aquém das expectativas, apesar do determinismo econômico?

A segunda edição, no ano passado, somou tempo e recursos ideais. Garantiu excelência artística, fomentou bem as demandas de reflexão e pedagogia. Passou a cobrar ingressos na maioria das sessões, apesar de acessíveis (R$ 20, valor mantido em 2016). Investiu na descentralização ocupando palcos distritais nas regiões norte, sul e leste. Enfim, promoveu um avanço estruturante para aquilo que os idealizadores sonharam um dia. O evento atingiu 19 mil pessoas e fixou-se, assim, no calendário anual da cultura em São Paulo e no país.

Já o terceiro ato em preparação traz contornos mais dramáticos. A conjuntura econômica de 2015/2016 implicou doses realistas. Os organizadores passaram as últimas semanas desconvidando, cortando, rearranjando e confrontando os limites financeiros da nova mostra que acontecerá de 4 a 13 de março e prevê venda antecipada de ingressos no próximo dia 18, quinta-feira, a partir das 14h, no Portal Sesc e no site Ingresso Rápido.

'Ça ira', direção do francês Joël Pommerat Elisabeth Carecchio

‘Ça ira’, direção do francês Joël Pommerat

O diretor artístico Antônio Araújo e o diretor geral de produção Guilherme Marques foram enfáticos na exposição da crise ao anunciar a programação à imprensa, acompanhados de representante dos principais parceiros nos três anos da mostra, o Itaú Cultural e o Serviço Social do Comércio, o Sesc, por meio da regional paulista.

“Num primeiro momento fiquei abalado [devido à impossibilidade de trazer criadores que pré-convidara]. Vendo agora o desenho final, a programação ficou compacta, mas consistente. Traz artistas que nunca vieram ao Brasil”, disse Araújo, encenador e cofundador do Teatro da Vertigem.

Estão consolidados dez espetáculos, oito deles internacionais, ante 12 na primeira (sendo 11 estrangeiros) e 12 na segunda (dez estrangeiros).

Guilherme Marques expôs os números. No projeto de captação para 2016, aprovado pelo Ministério da Cultura, foram cogitadas 15 obras estrangeiras e seis nacionais, com teto de captação de R$ 4,6 milhões. Por enquanto, o orçamento é de R$ 3,4 milhões, pouco acima do valor divulgado no lançamento de 2015, R$ 3,3 milhões. Dessa vez a faixa de investimento é 55% pública e 45% privada (o Itaú Unibanco é patrocinador único com quase metade do bolo, utilizando a Lei Rouanet que autoriza até 100% de isenção fiscal).

O xis da questão a que a mostra se viu obrigada a equacionar foi o da desvalorização da moeda em pelo menos 43% nos últimos meses, o que encareceu cachês e demais custos. Marques relata como o câmbio já afetava a segunda edição. “Quando fechamos a negociação internacional em dezembro de 2014, o euro estava cotado a R$ 3,10. No pagamento das produções, em março de 2015, valia R$ 3,56. E o valor está em R$ 4,48”, explicou o diretor geral também integrado ao CIT-Ecum – Centro Internacional de Teatro Ecum.

'A carga', atuação do congolês Faustin LinyekulaAgathe Poupenay

‘A carga’, atuação do congolês Faustin Linyekula

De volta ao mapa da programação possível, as criações da vez são as seguintes:

Ça ira, autoria e direção de Joël Pommerat, com a Compagnie Louis Brouillard (França)

Cinderela, autoria e direção de Joël Pommerat, com o Teatro Nacional da Bélgica (Bélgica/França)

Natureza-morta, autoria e direção de Dimitris Papaioannou (Grécia)

A carga, autoria e direção de Faustin Linyekula, com Studios Kabako (Congo)

(A)polônia, autoria e direção de Krzysztof Warlikowski, com a Cia. Nowy Teatr (Polônia)

100% São Paulo, coautoria e codireção de Helgard Haug, Stefan Kaegi e Daniel Wetzel, do coletivo Rimini Protokoll (Alemanha/Brasil)

Revolting music – Inventário das canções de protesto que libertaram a África do Sul, concepção e atuação de Neo Muyanga (África do Sul)

An old Monk, autoria e direção de Josse De Pauw com composições de Kris Defoort inspiradas em Thelonious Monk (Bélgica)

Cidade vodu (Brasil), autoria e direção José Fernando de Azevedo, com grupo Teatro de Narradores (São Paulo)

A tragédia latino-americana , concepção e direção de Felipe Hirsch com o coletivo Ultralíricos (Rio de Janeiro/São Paulo).

E porque a escalação tem tudo para não resultar aquém das expectativas, apesar do determinismo econômico? É verdade que existem trabalhos com um ou três artistas em cena, como nos projetos congolês Revolting music e grego An old Monk, formato também presente em 2014, vide o solo da espanhola Angélica Liddell.

O fato é que ainda predominam os grandes elencos incorporados a cenografias não necessariamente portentosas, critério que influencia as despesas no transporte marítimo ou aéreo, atenuadas por meio da correalização de representações dos países de origem, no caso, da França, da Polônia e da Bélgica.

'Cinderela', de Pommerat, abre a mostraDivulgação

‘Cinderela’, de Pommerat, abre a mostra

Entre os oito trabalhos estrangeiros que aportam no mês que vem, cinco são de artistas cujas montagens próprias ainda não haviam pisado o território brasileiro. A inserção de inéditos tem sido uma das estratégias permanentes da MITsp. Dessa vez, estão em relevo dois encenadores habituados ao circuito de festivais europeus dos últimos 15 anos: o francês Joël Pommerat, de 52 anos, e o polonês Krzysztof Warlikowski, de 53 anos.

Com textos montados no Brasil a partir de novembro de 2012, quando a paranaense companhia brasileira de teatro estreou Esta criança e, no mesmo mês, a gaúcha Cia.Teatro di Stravaganza, Estremeço, Pommerat terá dobradinha em São Paulo. Seu espetáculo mais recente, Ça ira, estreou em outubro passado e é fruto do trabalho continuado com a Compagnie Louis Brouillard, da qual foi cofundador em 1990, e Cinderela (2011), sua versão e direção para o mito, uma produção do Teatro Nacional da Bélgica, a mesma casa em que Anônio Araújo estreou Dizer o que você não pensa em línguas que você não fala (2014), espetáculo do Vertigem em coprodução do Festival de Avignon, no contexto do projeto Cities on Stage.

Krzysztof Warlikowski é um dos três ícones da cena polonesa contemporânea que Araújo esperava juntar numa edição. Na impossibilidade de acolher de uma só vez as criações do veterano Krystian Lupa, de 72 anos, e do representante de uma geração intermediária, Grzegorz Jarzyna, de 47 anos, as negociações se encaminharam para Warlikowski.(A)Polônia vai a clássicos e contemporâneos (Eurípides, Ésquilo, a escritora e jornalista polonesa Hanna Krall) para falar da história de seu país. A personagem-título é, em si, a negação da própria Polônia, ou do discurso histórico contraditório diante do nazismo, por exemplo. Um painel sobre sentimentos como culpa, perdão e covardia nos níveis do indivíduo e de uma nação.

A evidência plástica emerge do próprio nome do espetáculo do grego Dimitris Papaioannou, Natureza-morta (2014), referência à representação de seres ou objetos inanimados por meio de pinturas ou fotografias. Em sua proposição, o artista converge o mito de Sísifo e uma pitada apocalíptica quanto ao ambiente na Terra pelo descuido dos habitantes. Araújo diz que Bob Wilson é um dos admiradores de Papaioannou, de 51 anos.

O pianista e compositor norte-americano Thelonious Monk (1917-1982), ícone do jazz pela precisão com que improvisava, inspira o belga Josse De Pauw, de 63 anos, e o trio de músicos que o acompanha em cena (piano, baixo e bateria). Original da porção flamenga do país em contraste com outro território linguístico de lá, o francófano, o projeto joga com o duplo sentido do título: o sobrenome do pianista e a tradução em inglês para monge. Há uma clara exposição da velhice, da temporalidade inscrita no corpo.

'An old Monk', com o belga Josse De Pauw  e trioKurt Van Der Elst

‘An old Monk’, com o belga Josse De Pauw e trio

O congolês Faustin Linyekula participou em 2005 do Festival Panorama, no Rio, com Tryptyque sans titre (Tríptico sem título) e, uma década depois, retorna com uma criação politicamente engajada. A carga transita o passado colonial, onde o regime escravagista foi dos mais violentos, e o depoimento pessoal do artista de 42 anos que mantém um espaço em seu país e promove intercâmbio com pares do Moçambique e do Senegal.

Conhecido no Brasil desde 2002, com passagens por Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, sempre apresentando trabalhos que incorporam não-artistas, o grupo Rimini Protokoll está de volta com um dos seus projetos globais, o 100% cidade. Sua primeira edição ocorreu em Berlim, em 2008, sendo replicado em Tóquio, Londres, Paris, Zurique, Amsterdã, Copenhague, Filadélfia, San Diego, etc. Em 100% São Paulo, os diretores, a alemã Helgard Haug, de 46 anos, o suíço Stefan Kaegi, 43, e o também alemão Daniel Wetzel, 46, vão reunir cem moradores e estimular seus pontos de vista a respeito de aspectos morais, ideológicos e afins, coligidos a partir do levantamento de estatísticas da cidade. Uma espécie de “big data”, mapeamento aleatório de dados passíveis de revelar outras faces da metrópole. O palco escolhido é emblemático: o centenário Theatro Municipal de São Paulo.

O oitavo espetáculo internacional tem origem no continente africano, no Congo, e é de difícil definição: um tanto de teatro, de dança, de música, mais inclinações aos modos de conferência ou manifesto. O músico e performer sul africano Neo Muyanga canta, toca e revolve as sequelas colonizadoras e a luta anti-Apartheid em Revolting music – Inventário das canções de protesto que libertaram a África do Sul. O hibridismo formal é embalado a fatos desagradáveis, que enojam pela arquitetura da maldade.

Duas estreias brasileiras completam a programação da MITsp. Em Cidade vodu o grupo Teatro de Narradores pesquisa a imigração haitiana no Brasil, circunscrevendo-a ao fluxo para a cidade de São Paulo e a contrapelo dos 11 anos da atuação militar sob comando brasileiro em missão de paz no país caribenho, a reboque da ONU – maior operação conjunta das três forças do país desde a Guerra do Paraguai. Dentro da modalidade site-especific, o diretor José Fernando de Azevedo convida haitianos a contracenar entre atuadores e músicos, cabendo ao público acompanhar as cenas itinerantes pela Vila Itororó, no bairro central da Bela Vista, conjunto de casas construído na década de 1920 e sob restauro.

O diretor Felipe Hirsch, de 43 anos, e os diretores de arte Daniela Thomas e Felipe Tassara, o músico e compositor Arthur de Faria e o iluminador Beto Bruel ancoram o coletivo Ultralíricos no desdobramento da série Puzzle, quatro montagens focados em obras da literatura brasileira. Como subentendido no título A tragédia latino-americana, os criadores expandem a tessitura às narrativas de países da região. Trata-se de uma das partes independentes do projeto (a outra será A comédia latina), trazendo fragmentos ou adaptações da prosa ou da poesia contemporâneas. O elenco fará jus à face multicultural abarcando atores da Argentina e do Chile.

Araújo admite que os temas costurados a partir dos espetáculos talvez não comuniquem a mesma força daqueles abordados na edição passada, quando zonas de conflito em contextos geopolíticos, étnicos, religiosos e interpessoais catalisaram ao menos quatro produções embrionárias de territórios conhecidos por tensões históricas: Rússia, Ucrânia e Israel.

Dentre as linhas norteadoras está a abordagem da discriminação racial e as heranças colonizadoras e escravocratas atualizadas nos processos imigratórios (perceptíveis nas criações de Faustin Linyekula, Neo Muyanga e Teatro de Narradores).

Os paradoxos de sociedades presumidamente democráticas, suas cicatrizes históricas, são notadamente evocadas por Joël Pommerat em Ça ira e por Krzysztof Warlikowski em (A)polônia.

Vem de Pommerat, sobretudo, a outra variante de fundo na programação: a discussão sobre o lugar da narrativa na cena contemporânea. Apreciador da arte de contar história, ainda que elíptica, sinuosa, de modo algum linear e cultivando estranhamento, como observa Araújo, o diretor francês recria um conto de fadas da versão dos Irmãos Grimm, Cinderela, em que a perda da mãe tangencial vai ao primeiro plano e as ressignificações na vida da personagem têm portas de entrada para o público de todas as idades – obra encarregada de abrir a mostra dia 4 no Auditório Ibirapuera.

No eixo Ação Pedagógica, destaca-se a residência artística de três semanas com o diretor Yuri Butusov, que trouxe A gaivota em 2015, uma concepção memorável do clássico de Tchekhov, autor que também servirá como ponto de partida da ação pedagógica. A atividade é endereçada a atores profissionais e culminará em breve experimento cênico que o público poderá conferir considerando seu caráter processual, e não de montagem ao pé da letra. Chama atenção ainda a abertura de dois processos criativos: o do intercâmbio do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos com o jovem diretor polonês Radoslaw Rychcik e o do bailarino e coreógrafo Cristian Duarte em Laboratório ó.

O diretor russo Butusov faz residênciaDivulgação

O diretor russo Butusov faz residência

E no eixo Olhares Críticos, sempre em sinergia com as obras, chamam atenção as três mesas com reflexões estéticas e políticas em torno dos temas: O lugar da narrativa na cena contemporânea (com o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, o crítico e pesquisador Edélcio Mostaço e o teórico e pesquisador francês Christophe Triau); O legado de Kantor: teatro polonês contemporâneo (com a curadora polonesa Joanna Klass, o diretor polonês Tomasz Kirenczuk, o crítico e jornalista Nelson de Sá e a pesquisadora Christine Greiner) e Teatro documentário: potências e limites (com o diretor e pesquisador Marcelo Soler, o diretor e pesquisador José Fernando Azevedo e o filósofo e ensaísta Peter Pal Pélbart).

E ainda os dois dias do encontro especial batizado Discursos sobre o não dito, configurado em duas mesas. Uma com os curadores Eugênio Lima (diretor e ator-MC do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos), José Fernando de Azevedo (diretor do Teatro de Narradores) e Leda Maria Martins (poeta e ensaísta, de Belo Horizonte). E outra com o historiador e cientista político Luiz Felipe Alencastro, a escritora Ana Maria Gonçalves e o artista sul-africano Neo Muyanga. E a curta jornada de pensamento no ventre de tão vasta programação será encerrada com a palestra da escritora e pesquisadora portuguesa Grada Kilomba (com ascendência da ilha africana São Tomé e Príncipe), cabendo ainda, na noite anterior, uma Performance poética/política em legítima defesa, dirigida por Lima.

A terceira edição da mostra perde um dos componentes valorizados em 2015: a descentralização, a capacidade de ir além das regiões centrais, da Avenida Paulista e dos bairros de classe média a alta. O Sesc, por exemplo, receberá espetáculos em quatro unidades: Bom Retiro, Consolação, Pinheiros e Vila Mariana, além de abrigar a residência de fôlego do russo Butusov no Sesc Ipiranga.

A organização da MITsp admite que tentou dar continuidade a esse movimento geográfico e atribui o recuo às limitações orçamentárias. Realidade que fez o diretor artístico/curador e o diretor geral de produção divergir quanto a adequar o evento a um calendário bienal em vez de anual. Araújo pensa que a periodicidade é ideal, apesar do volume de trabalho que acumula e pelo qual não seria remunerado: sua função não consta da planilha do projeto encaminhado ao MinC, no ano passado, porque funcionário público, professor da USP. Marques, por sua vez, avalia que tamanha incerteza pode afetar até a dimensão do possível. Ao contrário das edições anteriores, ambos preferiram não anunciar, pelo menos por enquanto, as datas do ano seguinte. Mesmo confessando ter uma lista praticamente fechada de artistas dos sonhos prospectados e ora adiados.

Diante do quadro, pode ter sido providencial a inédita adoção de um ponto de encontro no bairro Barra Funda, zona oeste. Um cabaré para distender com música e poesia ao vivo os finais de noite da comunidade (provisória) que gravitará a mostra, público incluído.

Serviço:
3ª MITsp
Quando: 4 a 13/3, em diferentes espaços de São Paulo
Quanto: R$ 20 (venda antecipada on-line a partir das 14h de 18/2, quinta-feira, no Portal Sesc e no site Ingresso Rápido.