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Crítica

De terra e ar

11.3.2016  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Ivson Miranda/Itaú Cultural

Toda linguagem nasce de um esforço, por natureza, inútil. É por saber-se incompleto que o homem deseja. A falta nos move, nos empurra para além do silêncio e da imobilidade. Qualquer palavra, não importa quão bem escolhida, será incapaz de dizer completamente dessa falha. É essa lacuna que nos obriga a seguir. A dizer mais. A tentar dizer melhor. A formular novos textos, novos arranjos, outros argumentos. E a voltar, seguidamente, de mãos vazias.

Espetáculo do artista congolês Faustin Linyekula, A carga (Le cargo), vem mover-se ao redor dessa ausência primordial. Não seria incorreto afirmar que da vontade de dizer surge toda e qualquer obra de arte. Nesse caso, porém, o desejo de expressão é o próprio mote a guiar o criador. Sentado em um pequenino banco de madeira, com as luzes da plateia ainda acesas, Linyekula se apresenta como um contador de histórias. Apenas um contador de histórias – a percorrer os palcos do mundo. Eis o seu ofício. Mas qual a finalidade de suas narrativas, ele se pergunta. Prescindível falar dos que morreram porque as histórias, por melhores que sejam, não impedem as mortes – nem as passadas nem as futuras. Supérfluo, porque os mortos já não podem ouvi-lo. Inútil.

O essencial nisso tudo é que contar histórias garante o seu sustento, informa o artista, como a justificar sua malograda insistência. Mantém seus irmãos e irmãs na escola. Garantiu uma boa acolhida à sua avó antes da morte. Existe, enfim, um propósito: a sobrevivência. Assegurar que os seus possam acordar, comer, dormir. E sonhar, quem sabe, com algo para além do estritamente necessário.

O congolês Faustin Linyekula se move em busca de seus ancestrais. Que dança é essa, que quer ser recordação e transcendência?

Esse contador de histórias faz questão de frisar de onde veio. Esse homem não é um indivíduo desapegado do tempo e da história. Mas uma voz a contar de seu próprio povo, uma narrativa que vem de algum lugar e precisa, insistentemente, dizer de sua origem. Precisa reafirmá-la, investigá-la. Não pode esquecer-se de quem é. Nem deixar-se vergar pelo peso do real. Diante da guerra, da crise, da morte e da dor, toda intervenção soa frouxa e pouca. Apesar disso – ou talvez por isso – Linyekula insiste.

Com dois livros à mão, o ator, bailarino, coreógrafo e diretor conta como tentou transcender os próprios limites. Tentou encontrar as respostas dos outros. Mas nenhuma delas, crê, servia a suas perguntas. Nascido no Congo, em 1974, Linyekula viu o país ser devastado por uma guerra civil de imensas proporções. Refugiou-se no Quênia. Depois seguiu para a Inglaterra e para a França, onde estudou teatro e dança com grandes, como Mathilde Monnier. Retornou, porém, ao convulsionado Estado natal, completamente destruído por constantes conflitos, e criou uma companhia de dança.

A carga é o primeiro trabalho solo do artista. E a maneira como ele se define – um contador de histórias – será posta sob suspeita nos primeiros minutos da obra. “Sou um contador de histórias. Mas hoje eu não estou aqui para contar histórias. Estou aqui para dançar”. O que as narrativas não abarcam, talvez caiba no corpo. Menos impregnado da linguagem do ‘colonizador’. Atravessado por alguma ‘pureza’. Mais espontâneo e, por isso, verdadeiro.

O congolês Faustin Linyekula em 'A carga'Ivson Miranda/Itaú Cultural

O artista Faustin Linyekula em ‘A carga’

Se ele pudesse encontrar um meio de colocar no gesto o que não cabe na palavra, o corpo saberia dizer mais. No palco, onde há apenas um fundo neutro e alguns refletores dispostos em círculo, o intérprete começa a substituir o discurso por dedos e braços que se movem. Na pequena aldeia onde nasceu, durante algumas noites, havia festa e dança para marcar os grandes ritos da vida: o nascimento, o casamento, a morte. Às crianças, ele recorda, a visão dessas celebrações era interdita. Obrigadas a se recolher, elas também não conseguiam dormir, a ouvir os sons da música e a imaginar o que se passava para além das paredes. Se ele, ao menos, pudesse reencontrar essas danças de sua infância. Essa poderia ser uma resposta.

O habilidoso jogo de contradições tecido pelo performer coloca-se como alicerce da criação. Ele não veio contar histórias, apenas dançar. Mas segue a contar histórias. Mesmo quando prescinde do verbo. Seus movimentos são atravessados pelo desejo de significar. De volta ao lugar onde nasceu, Obilo, ele conta ter feito uma festa para que os antigos dançassem como nas noites em que não podia ver. Mas o outrora grande percussionista era agora um pastor de igreja. Diante da guerra e da violência sem sentido, as pessoas precisavam crer em algo maior do que elas. A força das novas religiões varreu da memória os sons e os passos de antigamente. Varreu a memória do corpo. Mas algo permanece. De tudo, fica um pouco. Sempre fica.

Linyekula se move em busca de seus ancestrais. Que dança é essa, que quer ser recordação e transcendência? Braços, pernas, pés e quadris que se movimentam a partir do código único de um indivíduo. Para ver o outro, é preciso olhar para dentro. A carga quer reencontrar o que passou. Fincar raízes. Quer ser chão. Mas também quer ser ar.

.:. Escrito no contexto da ação da Prática da Crítica na 3ª MITsp, parceria da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, esta formada pelo site Horizonte da Cena, blog Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e site Teatrojornal – Leituras de Cena.

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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