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Crítica

Poéticas do texto espetacular

14.3.2016  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Caio Nigro

A compilação em prosa, poesia, conto, letra e até HQ faz com que tudo seja processado como texturas cênicas em A tragédia brasileira, navegação ficcional do diretor Felipe Hirsch e dos criadores do coletivo Ultralíricos pela realidade da América Latina e Caribe. E como qualquer expressão que valoriza o pensamento em arte e a intervenção crítica, a literatura pode constituir valiosa bússola.

No caso do continente africano, em contraste, essa potência se revela na tradição oral, anterior à grafia. Escrever, falar e pensar são atos corporais e literários mais complexos e dinâmicos do que o suposto exotismo tropical lançado sobre países subdesenvolvidos ou emergentes segundo a métrica das economias capitalistas.

Em ‘A tragédia latino-americana’, em regra, as ficções soam provocadoras e a cada vez que um ator as enuncia, parece filosofar em português ou espanhol, idiomas entranhados na peça

O espetáculo desvia da expectativa de acolhimento ao boom latino-americano que, nos anos 1960 e 1970, representou tomada de consciência e afirmação identitária em países subdesenvolvidos. Em vez de saudar o realismo mágico de Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, entre outros, o palco irradia vozes de escritores convictamente marginais e esteticamente radicais, a maioria de gerações posteriores.

São fontes do texto espetacular as ideias e os estilos garimpados em obras do chileno Roberto Bolaño, do mexicano Gerardo Arana, do uruguaio Leo Maslíah e dos argentinos Salvador Benesdra e Juan Rodolfo Wilcock – nomes pouco familiares a nossa escuta latina contemporânea, exceção a Bolaño, de notória repercussão crítica, morto em 2003 e para quem a literatura ultrapassa o espaço formatado da página do livro para se instalar de fato no território insondável e laboral do risco.

É desse desejo explícito pela palavra e suas derivas que a montagem organizou o mapeamento, tomando pelas mãos, ainda, autores brasileiros como os fluminenses Lima Barreto (reconhecido postumamente, tolhido pelo preconceito de raça, de classe e de insubordinação ao português castiço) e Marcello Quintanilha, quadrinista; a paraibana Dôra Limeira; o polonês Samuel Rawet, aqui radicado desde a infância; e o paulista Reinaldo Moraes, entre outros.

O ator argentino Javier DrolasCaio Nigro

O ator argentino Javier Drolas

Time tão heterogêneo reflete tempos de angústia e derrisão. Alguns dos escritores evocados colocaram ponto final à própria vida. Em regra, as ficções soam provocadoras e a cada vez que um ator as enuncia, parece filosofar em português ou espanhol, idiomas entranhados na peça.

Passeamos por estações cênicas em abordagens sociais, políticas, históricas, religiosas, subjetivas, autobiográficas e metaliterárias. Os dois atos – As cabeças e As carnes – pretendem e compõem um corpo geopolítico por meio de uma dramaturgia de modulações cruéis em relação ao indivíduo, a coletividade e o meio. Ou trágicas, na repetição de fatos como farsa.

Crítica, ironia e bom humor são assumidos desde o número coral de abertura, apropriação tropicalista com um quê de chanchada. O prólogo do romance do cubano Guillermo Cabrera Infante, Três tristes tigres, ganha atualização quanto ao contexto patriarcal-coronelista brasileiro, a amoralidade nos nomes dados aos bois em 515 anos de “Descobrimento”.

Se esta análise se ocupou até agora da matéria-prima impressa, contagiada pela admirável conjunção de textos, A Tragédia Latino-Americana escapa à fixação verborrágica, dançando pretextos e pós-textos. Como evolução da série Puzzle, desdobrada em quatro partes desde 2013, Hirsch afasta-se cada vez mais do perfil de encenador que moldou para si, atraído pela cultura anglo-saxã e profundamente zeloso no acabamento visual. Ele encerrou o ciclo da Sutil Companhia de Teatro, que fundou ao lado de Guilherme Weber, ora no elenco. E os últimos trabalhos que dirigiu embutem mais experimento, assumem a possibilidade do precário, da instabilidade dos elementos estimulada pela parceria continuada com a cenógrafa Daniela Thomas e com o iluminador Beto Bruel.

A chilena Manuela Martelli na cenografia de Thomas e Tassara Caio Nigro

A chilena Manuela Martelli na cenografia de Thomas e Tassara

Tal desmonte tem aproximado o projeto artístico de Hirsch de atores autorais, dispostos ao bom combate da criação, investidos de certa esperança militante nas raias expandidas do teatro contemporâneo. Atribuímos ao contato com a dramaturgia do norte-americano Will Eno, poeta para a cena de quem encenou peças como Temporada de gripe (2003), o ponto de partida da atual era de incertezas que torna o encontro do público com as obras assinadas pelo diretor uma experiência de precipitações poéticas.

A direção de arte de Daniela e Felipe Tassara habita o palco como uma instalação. Atores avançam por entre perpendiculares, lateralidades e constantes pontos de fuga, numa deambulação pelo vazio premido por blocos de isopor, simulacros de chãos, muros e horizontes. Movediças pedras brancas como o desafio da primeira linha na página ou na tela.

Corpos, figuras e presenças fluem libertos na cena da escola primária com Camila Márdila; na anticoreografia de Danilo Grangheia; no solo musical de Georgette Fadel, a lembrar o registro de Elis Regina; na condição da epígrafe em que Magali Biff assevera a mesma inteligência do texto para essa inscrição epistemológica à qual o público adere com prazer; ou na sequência do casal de antípodas vivido pela chilena Manuela Martelli e pelo argentino Javier Drolas.

Juntam-se ao painel procedimentos da materialidade da palavra nas passagens vinculadas à tradução e à legenda simultânea. Ou na leitura da insultante Carta a un escritor latinoamericano, do uruguaio Maslíah, desferida pela Asociación de Críticos Literarios de Europa e pelo Tribunal de Geopolítica Literaria, duas hipotéticas e risíveis frentes de aculturação. São efeitos que deixam clara a ruptura com dogmas e evangelizações quando o plurilinguismo, inclusive estético, veio para ficar e conversar de perto com as culturas autóctones.

Na segunda das quatro sessões apresentadas durante a MITsp, no Sesc Anchieta, era evidente que algumas cenas ainda não haviam encontrado seu ritmo em termos de atuação e espaço – a temporada abre no próximo dia 17 na mesma sala. Ritmo e tessitura que, ao contrário, fizeram os músicos da Ultralíricos Arkestra, dirigida por Arthur de Faria (compositor gaúcho entusiasta de parcerias no Mercosul), erguerem das coxias, ao vivo, um assemblage sonoro por meio do qual a equipe da montagem entra em campo com metade do jogo ganho. A música é dramaturgia, lavra a ação.

.:. Escrito no contexto da ação da Prática da Crítica na 3ª MITsp, parceria da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, esta formada pelo site Horizonte da Cena, blog Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e site Teatrojornal – Leituras de Cena.

Serviço:
A tragédia latino-americana e A comédia latino-americana – primeira parte: A tragédia latino-americana
Onde: Teatro Sesc Anchieta – Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, tel. 11 3234-3000)
Quando: quinta a sábado, às 19h30; domingos, às 18h. De 17/3 a 17/4.
Quanto:R$ 12 a R$ 40
Duração: 240 minutos

Ficha técnica:
Idealização e direção geral: Felipe Hirsch
Com: Caco Ciocler, Camila Márdila, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Guilherme Weber, Javier Drolas, Julia Lemmertz, Magali Biff, Manuela Martelli, Nataly Rocha e Pedro Wagner
Música escrita, arranjo e direção: Arthur de Faria
Interpretada pela Ultralíricos Arkestra: Arthur de Faria (piano e sintetizadores), Adolfo Almeida Jr. (fagote e efeitos), Mariá Portugal (bateria, glockenspiel e tímpanos), Gustavo Breier (processamentos eletrônicos), Georgette Fadel (trompete), Luccas Bracca (baixo acústico e elétrico) e Pedro Sodré (guitarras e overdrives)
Autores A tragédia latino-americana e A comédia latino-americana: Andres Caicedo (Colômbia), Augusto Monterrosso (Honduras), César Vallejo (Peru), Dôra Limeira (Brasil), Gerardo Arana (México), Glauco Mattoso (Brasil), Guillermo Cabrera Infante (Cuba), Hector Galmés (Uruguai), J.P. Zooey (Argentina), J. R. Wilcock (Argentina), Jaime Saenz (Bolívia), Leo Maslíah (Uruguai), Lima Barreto (Brasil), Marcelo Quintanilha (Brasil), Maria Luísa Bombal (Chile), Pablo Katchadjian (Argentina) Pablo Palacio (Equador), Reinaldo Moraes (Brasil), Roberto Bolano (Chile), Salvador Benesdra (Argentina), Samuel Rawet (Brasil), Teresa Wilms Montt/Teresa de la Cruz (Chile), Virgílio Piñera (Cuba)
Direção de arte: Daniela Thomas e Felipe Tassara
Iluminação: Beto Bruel
Figurinos: Veronica Julian
Preparação vocal: Simone Rasslan
Coreógrafa e preparação corporal: Renata Melo
Codiretora: Isabel Teixeira
Traduções: Bruno Colbachini Mattos
Crítico interno e dramaturg: Ruy Filho
Contatos direitos autorais: Rita Mattar
Assistente de iluminação e operadora de luz:– Sarah Salgado
Engenheiro de som, tratamentos, gravações e mixagem: Gustavo Breier
Produção musical: Arthur de Faria e Gustavo Breier
Diretor de palco: Nietzsche
Visagismo: Emi Sato
Aderecistas: Rita Vidal e Paulo Baboni
Golas e rufos: Marichilene Artisevskis
Efeitos especiais: Miniarte
Assistente de produção: Diego Dac
Assistentes de figurino: Helena Obersteiner e Elis Nunes Santos
Alfaiate: De Lello
Costureiras: Salete Paiva, Judith de Lima e Alice Alves
Design multimídia: Fernando Timba
Fotografias e artes gráficas: Patrícia Cividanes
Assessoria de imprensa: Vanessa Cardoso – Factoria Comunicação
Produção executiva: Bruno Girello
Direção de produção: Luís Henrique (Luque) Daltrozo

Valmir Santos

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