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Crítica

Variações em torno da “jazz-performance”

12.3.2016  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Kurt Van Der Elst

‘Ele já tem a alma saturada de poesia, soul 
e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol’
(Caetano Veloso, O homem velho)

(para ler ao som de Round midnight)

Às  primeiras notas de An old Monk Mário Faustino já sopra, de um lado, ao meu ouvido: “a jusante a maré entrega tudo (…) a montante a maré apaga tudo”. Vou marcando, pé no chão, o andamento variado da cena.

Thelonious Monk era, dizem, um cara estranho. Grandes artistas em geral  não têm metro certo, só se dimensionam na desmedida. Por isso para ser franco com ele o trabalho dos belgas apresentado na MITsp não poderia mesmo ser um negócio laudatório, uma homenagem carola. Precisava encontrar a própria valiosa estranheza. E foi procurando alguns atalhos fora da ordem que salvo engano o alcançaram.

O velho Louis Armstrong já dizia que  o jazz não é um “o que”, é um “como”. Por aí talvez dê para  entender, por um lado, que a inspiração no músico norte-americano não estava ali a serviço da  ilustração biográfica e sim para embalar as inquietações de outro (outros): o Josse De Pauw, mentor do projeto, e nós mesmos, que então performamos nossas histórias sob o espírito daquele. Este é um aspecto. O outro é que como arte é forma era preciso ir além e criar as mediações até chegar à invenção propriamente dita (o “como”), sem a qual não se faria jus ao que motivou a montagem. Ela surge então como o amálgama entre o relato do performer e as dinâmicas e estruturas, vamos dizer, físicas, do jazz. E também da dança, do desenho, do próprio teatro. Anteparos mútuos que formatam este brinquedo novo, sinuoso, que é o espetáculo.

‘An old Monk’  é daquelas obras que honram a poesia. Acontecimento em que a arte mostra poder para concentrar em um mesmo lance  a enchente e a vazante da vida

Não é uma “retórica” sobre o jazz como matriz para procedimentos teatrais. É um diálogo por dentro das possibilidades  da música  – ou daquilo que dá ânima e, quem sabe, sentido à forma – para iluminar o que se quer iluminar: o retrato de um sujeito  que se recusa a caber nos departamentos que uma vida razoável oferece. Daí o concerto a piano, baixo, bateria, gesto, voz e improviso. E o jogo que, posto livre, levanta nestas bases aqueles temas. Em ossos,  carne  e movimentos: a lembrança de um  corpo juvenil (o do próprio Pauw) abraçado como um amante “contra o corpo do sonho”; o mesmo corpo, maduro, tentando agarrar-se à vida como quem quer rezar uma esperança. Mas sem aguardar a resposta de Deus. Uma esperança que se joga de volta ao colo ainda quente das coisas.

É assim que a montagem se totaliza, fugindo produtivamente a classificações: uma não-peça? Uma coreografia criada a partir das extremidades – mãos, pés, cabeça, sexo? Uma Pina Bausch revivida? Uns respiros no coração da memória? Uma confissão sem nenhuma vergonha? Uma performance andando na direção do jazz Em qualquer destes caminhos o espetáculo dos belgas é uma invenção fresca, bonita, “com” o teatro. “Com” o teatro porque talvez esteja  antes (ou além) dele.

Kris Defoort na obra concebida por Josse De PauwKurt Van Der Elst

Kris Defoort na obra concebida por Josse De Pauw

Este trabalho nas fronteiras (do teatro, do tempo) ganha expressão no corpo vivo da cena: os três músicos/atuadores são presenças não só entusiasmadamente competentes sob o ponto de vista da execução musical como também eles mesmos elementos de uma narrativa possível, que permanece subliminar, mas que também indica estas mesmas extensões (ou rupturas). Figuras vivas de um traçado temporal e existencial importante para o espetáculo, que vai da juventude furiosa de Lander Gyselinck (no extraordinário enfrentamento da sua bateria) ao próprio Josse De Pauw, passando pela estação “intermediária” no acompanhamento de Nicolas Thys (baixo elétrico) e a quase regência do já maduro Kris Defoort ao piano. É antes, é depois, é agora, nos dizem do meio do próprio fazer e da própria energia, cada qual a seu modo.

Em todas estas direções e certamente outras a serem percebidas, An old Monk é daquelas obras que honram a poesia. Acontecimento em que a arte mostra poder para concentrar em um mesmo lance a enchente e a vazante da vida, como nos lembrava Mario Faustino. Põe no claro a nossa dança inventada – talvez  patética, talvez heroica – para que possamos perguntar a nós mesmos se queremos seguir inteiros nela. Aos dezessete, aos trinta e cinco, aos setenta. Aos infinitos, enfim, que o desejo permitir.

(Para Daniele Avila Small, Patrick Pessoa e Edélcio Mostaço)

.:. O site da 3ª MITsp.

Kil Abreu

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