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Crítica

Brecht, entre o recital e a bufonaria

16.4.2016  |  por Afonso Nilson

Foto de capa: Cristiano Prim

Em tempos onde o fascismo se disfarça mais uma vez de legalidade arbitrária, lembrar Brecht e a força política de sua poesia é, no mínimo, oportuno. O espetáculo Récita – tudo aquilo que chama a atenção, atrai e prende olhar, com atuação e direção de Bárbara Biscaro, transita entre o recital (como o próprio nome pressupõe) e a bufonaria. Canções de Kurt Weill (1900-1950) e Bertolt Brecht (1898-1956) recebem um tratamento revestido de comicidade burlesca, jogos vocais e interpretação clownesca.

Poderia ser apenas mais um recital de canto lírico, usando todos os recursos  clássicos do gênero, e contar com o assíduo público da música erudita. Não é o caso. Ao invés das salas de concerto, o espetáculo é composto para espaços alternativos, a rua inclusive.  Utiliza extrema proximidade com o público, que se dispõe em ambos os lados da cena, deixando um estreito corredor para os atores musicistas, que se apropriam dos personagens evocados dos musicais operísticos de Brecht/Weill em prol de um uso menos apolíneo da erudição musical.

Brecht soa atualíssimo em encenação onde bufões ironizam um contexto histórico que, tal como na época das composições originais, meados dos anos 1930, parece se encaminhar para uma ascensão fascista

A galeria de mendigos, prostitutas, vagabundos e malandros contidos em obras como a Ópera dos três vinténs (1928) e Ascensão e queda da cidade de Mahagonny (1930), entre outras, desfila em interpretações que demarcam o caráter íntimo e moderadamente agressivo da encenação. A figura desses desajustados, que no espetáculo se apropriam da música através da bufonaria, causa um deslocamento do jogo lírico para uma comicidade mordaz, erótica, que desvela a violência e a exploração encoberta pela criminosa moralidade de um sistema político fadado à barbárie, que Brecht tão bem descreveu.

A inteligente utilização de objetos e adereços compõem os interstícios necessários para as transições de uma música para outra, de um personagem para outro, de um jogo para outro. A construção do espaço de encenação e sua ampliação e redução através das múltiplas funcionalidades das “esculturas” cenográficas de Roberto Gorgati são surpresas à parte em um espetáculo que parece  utilizar até o limite todos os parcos recursos que dispõe.

A atriz  e diretora Barbara  Biscaro na montagem de FlorianópolisCristiano Prim

A atriz e diretora Barbara Biscaro na montagem de Florianópolis

Os arranjos de Fernando Bresolin para violino e voz funcionam bem no contexto reduzido que a montagem se propõe. A execução musical, criativa e precisa, usa o contraste entre os múltiplos efeitos cacofônicos e percussivos do violino e a lírica popular das canções de Weill e Brecht para estabelecer dinâmicas e climas que compõem um universo narrativo subjacente à encenação. Os atores estabelecem, mesmo sem linearidade ou narrativa fechada, um conjunto coeso de interpretação, execução musical e encenação.

Brecht soa atualíssimo em uma encenação onde o burlesco confronta as convenções do canto lírico e onde bufões ironizam um contexto histórico que, tal como na época das composições originais, meados dos anos 1930, parece se encaminhar para uma ascensão fascista.

Ficha técnica:
Autores de texto e música: Bertolt Brecht e Kurt Weill
Concepção geral e direção: Barbara Biscaro
Com: Fernando Bresolin e Barbara Biscaro
Cenografia e iluminação: Roberto Gorgati
Preparação corporal: Cláudia Sachs
Produção geral: Paulo Soares
Figurino e maquiagem: o grupo
Prótese dentária: Wagner Monthero
Arranjos (violino): Fernando Bresolin
Versões das letras em português: Barbara Biscaro (exceto Balada para um soldado morto: Cida Moreira)
Desenho: Roberto Gorgati
Arte gráfica: Daniel Olivetto
Produção Executiva: Nilce da Silva

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