Em Belém

O Grupo Cuíra fechou recentemente o seu espaço, colado à zona do meretrício, na Riachuelo com a Primeiro de Março, em Belém do Pará. Havia nove anos seus artistas e técnicos reformaram e ocuparam, abrindo ao público, um antigo estacionamento de bingo – incrível inversão ao sentido da época, saudada naquele momento como uma vitória quase inacreditável do teatro sobre a máquina do capital. Ali, não só em meio às putas como também de mãos dadas com elas (por exemplo, no espetáculo Laquê, de 2007), o Cuíra levantou um charmoso teatro de cem lugares. Nesta quase década, sem apoio do Estado, às custas de algumas parcerias e sobretudo do investimento próprio,  o grupo desenvolveu projetos e apresentou ali espetáculos centrais da cena paraense.

Estes lances da história recente da companhia são iguais  ou parecidos com a de outros grupos e artistas de Belém, cidade que segue sendo, entre as capitais, uma das mais abandonadas em termos de política pública para a cultura. A conjuntura atual do país, que periga deixar os trabalhadores da arte de pires na mão, não é novidade no Pará nem é situação de exceção, é a regra há muitos anos. E talvez por isso, de dentro do pior quadro possível, este teatro feito ao Norte tenha muito a dizer a um momento que se anuncia como plena crise sobre a cena nacional.  Senão em termos de resposta política formal, certamente em termos de resposta estética.

Em ‘Auto do coração’, o Grupo Cuíra, de Belém, transmite uma consciência terrível e produtiva sobre a materialidade das relações, tanto no campo pessoal quanto no político

É que diante da tarefa de sobreviver em terra dura os artistas da cidade inventaram teatros com perfis peculiares e cujas dramaturgias são fortemente desenhadas a partir de relações com os novos espaços ocupados. Por exemplo, as casas agora tomadas como lugares do teatro. É o caso da Casa da Atriz, espaço cênico na casa da atriz Yeyé Porto, que promove leituras, mostras de cenas curtas e mesmo espetáculos em pequenos formatos. Ou o Estúdio Reator, de Nando Lima, onde são desenvolvidas pesquisas alinhando performance e novas tecnologias. As recorrências desta cena de margem que se define esteticamente a partir das contingências passou a ser tão evidente que oportunizou estudos acadêmicos, como a tese da atriz e diretora Wlad Lima, inspirada em seu próprio trabalho de criação (O teatro ao alcance do tato – Uma poética encravada nos porões da cidade de Belém do Pará).[1] A autora estuda as características formais de uma dezena de espetáculos realizados nos porões de casas, em Belém, entre os anos de 1990 e2002.

Cuíra na rua

É diante deste quadro que o Cuíra, levado a se desfazer do espaço físico, cria momentaneamente outro teatro, ambulante, pensado para circular pela cidade. Literalmente no olho da rua, o grupo encontrou motivação para uma resposta curiosa: resolveu falar de amor, em uma espécie de lírica politizada através da qual faz ver seu desamparo – e de parte do teatro paraense – vazado simbolicamente na coleção de narrativas íntimas que vão à cena, todas defendidas por atrizes (Sonia Alão, Sandra Perlin, Olinda Charone, Wlad Lima, Leila Barreto e Zê Charone).

Uma mulher lembra o primeiro amor em relato de ingênuo homoerotismo juvenil. Outra abandona os homens para encontrar a si mesma no teatro. Uma separação dilacerante. Um amor naufragado inventa cordas para voltar ao seco. A procura do amor maduro e a paixão paga com a moeda da violência. Como se pode notar, o “auto” do título tem pouco a ver com a forma dramatúrgica da tradição medieval. Refere-se, mais detidamente, ao fato de o espetáculo acontecer em um ônibus, que cumpre trajeto pelas ruas da cidade. Ou, se quisermos remeter à forma dramatúrgica observando o plano de pensamento, trata-se de um auto pelo avesso: sem preocupação moral alguma (mas com discussão ética bem afirmada), em que os elementos de sátira são traduzidos em lances de autoironia, na sequência de relatos que transitam entre um esboço de ficção e o depoimento pessoal, mesmo sem abraçarem totalmente a performance.

Sexteto de atrizes do grupo paraense que embarca no teatro ambulanteAlexandre Baena

Sexteto de atrizes do grupo paraense que embarca em ônibus-teatro

De todo modo a relação entre arte e vida está dada e é provavelmente o elemento mais interessante da encenação, que ganha outras camadas além daquela das histórias de mulheres e suas angústias particulares. O arco narrativo, visto em conjunto, é razoavelmente esquemático, assim como a disposição encontrada para abrigá-lo: as atrizes que estão em foco vão sempre ao alto da cena (o que quer dizer, no caso, à altura da entrada do ônibus), e dali narram as histórias, distinguidas umas das outras pelas entradas da Rádio do Coração, de Renato Torres, que pontua com  trilha sonora  mais que sugestiva o andamento da representação. Este relativo esquematismo, que poderia resultar em rigidez, oferece como contrapartida a possibilidade de concentração da plateia no foco da cena. É solução boa porque de fato, com o ônibus em movimento, não são poucos os chamados da paisagem urbana do lado de fora.

O teatro vara a cidade,  gera amplos significados e muitos efeitos sobre a sensibilidade. Por exemplo, o convite a uma contemplação de flâneur que compreeende, em um mesmo melancólico movimento, a paisagem física de uma Belém manchada e alquebrada pelo tempo  e as marcas deixadas, aos sulcos, nas vidas daquelas personagens, umas amalgamando-se às outras e perfazendo uma imagem-sentimento potente sobre a transitoriedade da existência.

Em outra frente o mesmo trajeto das mulheres e suas histórias se afunila na direção de um ponto comum: a constatação desesperançada de uma vida na qual não se pode contar com nenhuma divindade nem com nenhuma força mobilizadora metafísica. Há no espetáculo uma consciência terrível e produtiva sobre a materialidade das relações, tanto no campo pessoal quanto no político. Trata-se, pois, de um auto tão somente dos humanos, em que virtudes e faltas são trazidas para um passeio sobre o asfalto, para o chão onde o único Deus a ser considerado e respeitado é Dionisio. É a ele que as mulheres todas, e seus dramas e suas alegrias e sua disposição para a vida, rendem ao final a mais bonita homenagem, resgatando o espetáculo da prostração que o ameaçava contaminar.

O outrora Espaço Cuíra, desativado na zona do meretrício de BelémRonaldo Rosa

O outrora Espaço Cuíra, desativado na zona do meretrício de Belém

Em Nheengatu, a língua geral falada pelos indígenas do Norte, “Cuíra” significa ‘vontade de fazer algo’. Assim como uma parte dos artistas de Belém, o grupo segue sinalizando ao Brasil atual formas de sociabilidade e de geração da beleza que são lições de sobrevivência à margem do Estado ou apesar dele. Este Auto do coração é também sobre isto, sobre formas de responder com amor crítico, não pacífico, à cidade que tanto maltrata uma parte  dos seus artistas. E a um país que tende a se alinhar ao mesmo tratamento. De alguma maneira, através destes trabalhos em porões, casas e ruas a arte tem dado uma resposta a partir da sua condição de potência e de resistência. Apesar das circunstâncias, é algo a se comemorar.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

[1] Lima, Wlad. O teatro ao alcance do tato. Belém: editora PPGArtes/ICA/UFPA, 2014. v. 500. 245 p.

Ficha técnica:
Direção: Wlad Lima
Com: Sônia Alão, Sandra Perlin, Olinda Charone, Leila Barreto, Wlad Lima e Zê Charone
Trilha sonora original e direção musical: Renato Torres
Consultoria de dramaturgia: Edyr Augusto Proença
Figurinos: Jeferson Cecim
Visualidade e Iluminação: Patrícia Gondim
Assistente: Bolyvar Melo
Projeto gráfico: Breno Filo
Fotografias e filmagem: Alexandre Baena
Produção: Zê Charone e Cleide Quadros
Estagiária de produção: Dani Cascaes