A contemporaneidade (ou os fenômenos que assim convencionamos chamar): é sobre esse universo nebuloso que se detém majoritariamente a companhia brasileira de teatro. Incertezas, incongruências e perguntas que não chegaram sequer a ser formuladas servem de alimento ao grupo de Curitiba desde 2000. Em suas criações, podem variar a nacionalidade dos autores, as formações de elenco, algumas das temáticas. Nessa trajetória, contudo, segue como constante a busca por novas formas de linguagem, por meios imprevistos de apreender o mundo. Como, afinal, é possível se aproximar ­daquilo que, ainda disforme e indecifrável, se impõe como realidade?

Visto em relação a esse panorama, projeto brasil carrega um sentido de continuidade. Em sua mais recente criação, que estreou em setembro de 2015 na capital paranaense e já percorreu algumas capitais brasileiras, o diretor Marcio Abreu permanece apegado aos pressupostos que orientam as montagens anteriores. Ainda que os empurre, aqui, a certo paroxismo: abraçando o risco como valor máximo.

Uma extensa viagem pelo país, que envolveu suas cinco regiões, serviu de fonte de pesquisa para o espetáculo. Iniciada em 2013, ano de estopim das manifestações que tomaram as ruas das grandes cidades brasileiras, a investigação deu-se em meio à aguda crise política atual. E logrou plasmar, não apenas naquilo que é dito em cena, mas sobretudo na forma, os dilemas que se multiplicam em uma sociedade que não mais se reconhece ou compreende.

Não se engendram fábulas, mas imagens. Trata-se de um teatro eminentemente político, que se reinventa, não mais tem certezas a oferecer, não empunha bandeiras

Como apreender um território tão vasto e diverso? É na recusa, a priori, dessa pretensão desmedida que Abreu encontra substrato para o seu constructo cênico. Não se fala sobre um país. Sua identidade – fragmentada, múltipla, inconstante – não está sob escrutínio. Ao menos, não de maneira direta, como se poderia propor em um ensaio acadêmico ou em uma dramaturgia convencional. Da impossibilidade de se apreender e decifrar o “Brasil” nasce a beleza convulsionada do espetáculo, seu jogo de luz e sombras. Como se estivéssemos diante de uma epifania suja, escura, dolorida. Mas ainda assim epifania: com sua qualidade de milagre, de iluminação.

Nenhuma das peças do quebra-cabeças encontra seu encaixe. Criada em sala de ensaio, com os atores Rodrigo Bolzan, Nadja Naira, Giovana Soar e o músico Felipe Storino, a dramaturgia organizada por Marcio Abreu propõe 16 discursos. Cenas independentes, sem a costura de uma narrativa unívoca e coerente. Breves atos, que podem ou não ser estruturados por um texto: alguns desses discursos, aliás, revelam-se muito mais performáticos do que verbais, mais consistentes como presenças, em sua dimensão física, do que como elaborações ficcionais. Outras partes são simplesmente canções. E é desses pedaços, aparentemente sem relação, que emergirá a obra. A estrutura evoca, de certa maneira, aquela proposta em Oxigênio: Com texto do siberiano Ivan Viripaev, esse título de 2010 apoiava-se em dez movimentos. Vinha impregnado de uma realidade muito específica (no caso, a russa), mas permitia atravessar-se por uma série de questionamentos e conflitos universais.

Afetar o espectador é uma das prerrogativas do trabalho da companhia brasileira de teatro. Em suas montagens, a tentativa de confundir os limites entre palco e plateia está sempre no horizonte. Antes de se ofertar uma peça a ser vista, a ambição parece ser a de abrir uma experiência. Incluir, desestabilizar. Como um prólogo, a anunciar ao que se poderá assistir a seguir, a passagem inicial de projeto brasil desorganiza o lugar tradicional do público. Os intérpretes recepcionam quem chega. Circulam entre as poltronas. Vão deixando, no palco e no proscênio, pistas de seus gestos futuros. Bebem e compartilham doses de cachaça.

O ator Rodrigo Bolzan (direita) e o músico Felipe StorinoMarcelo Almeida

O ator Rodrigo Bolzan (direita) e o músico Felipe Storino

Falar do Brasil é circular por extremos. É ficar no meio do caminho, sem destino certo, sem ponto de partida. Morte e festa coexistem, permeando tudo o que vai à cena. Um estupro, o espocar de balões (soam como tiros ou fogos de artifício?), um trecho das Bachianas brasileiras nº 5. Síntese dessa ausência de fronteiras entre o sublime e a barbárie é a visão da atriz Giovana Soar vertendo Um índio, composição de Caetano Veloso, para Libras, a língua dos sinais. Ela pinta o próprio rosto de vermelho. A cor da celebração, mas também a cor do sangue derramado.

A música se impõe como dimensão essencial da encenação. Nas canções originais, ecoam as mais enfáticas manifestações sobre a realidade nacional. Menções à miséria, à fragilidade das crianças, ao “corpo brasileiro” que morreu no auge. Não se engendram fábulas, mas imagens. Trata-se de um teatro eminentemente político. O teatro político produzido hoje no Brasil (ao menos sua parcela mais interessante) se reinventa, não mais tem certezas a oferecer, não empunha bandeiras. A dramaturgia abdica da ambição pedagógica que cultivava no passado. Como se a vontade de repensar o mundo passasse necessariamente pela invenção de uma outra linguagem. Para que se descortinem novas paisagens, janelas impensáveis precisam ser abertas. No texto da peça está explícito esse desejo: “Quem será o primeiro a dizer uma palavra?”, questiona a atriz. “Quem vai tomar esse risco para si?”

No caso de Marcio Abreu e de sua companhia, essas aberturas passam pela recusa à representação tradicional – não há personagens a serem interpretados –, pela já mencionada centralidade do espectador e também pela incorporação do risco e das imperfeições. Em determinada cena, uma mulher quer fazer um agradecimento. Mas não consegue sustentar de pé o corpo ou o discurso. Em outra passagem, a fala desconexa de um homem (talvez no mais marcante dos muitos momentos memoráveis de Rodrigo Bolzan) vai paulatinamente ganhando forma. Ali, podem-se reconhecer um amontoado de lugares-comuns. As frases que escutamos – e as que dizemos – no cotidiano. Rastros de nossas vidas de autômatos, desperdiçadas diante da televisão, nos deslocamentos de ônibus, na dureza das cidades.

Há olhares de fora para iluminar o que vai dentro. A fala da ex-ministra de Justiça da França ao defender o casamento e a adoção de crianças por casais de mesmo sexo. Um trecho do discurso do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, proferido em uma conferência na ONU, ressalta a falência de nossos governos republicanos, nossos impasses como civilização, como sociedade, como indivíduos. Seguimos no mundo por uma linha tortuosa, de avanços e retrocessos. Alcançamos nossas utopias de igualdade, esbarramos na intolerância. Falhamos como nação, como espécie?

Os anos 2000 chegaram nesse pedaço do hemisfério sul como se anunciassem a concretização de todos os nossos sonhos arcaicos de grandeza e redenção. A terra abençoada por Deus, gigante pela própria natureza, o país do porvir, havia se convertido em lugar do presente. Uma miríade de narrativas vinha dar conta do destino glorioso ao qual estávamos predestinados, desde tempos imemoriais. Nossa hora, enfim, chegara. Éramos grandes. O mundo olhava para nós, como “nunca antes na história desse país”. E o que restou disso agora? Não é casual a menção irônica à Aquarela do Brasil durante a peça. A canção de Ary Barroso festeja um espaço idílico, o Brasil brasileiro. Mas não é essa a imagem que surge refletida no espelho. A tese da democracia racial de Gilberto Freyre, o céu estrelado de Olavo Bilac, o sonho de uma “nova Roma” de Darcy Ribeiro. Estamos entre escombros de um mito fundador que ruiu. O futuro chegou e partiu. E o que faremos agora? projeto brasil nos lança no abismo e na estrada. Pouco antes de as luzes se apagarem, ouvimos: “Depois do futuro, o fim como começo”.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

.:. Leia a crítica de Gabriela Mellão a partir de projeto brasil.

Serviço:
Projeto brasil
Onde: Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho, São Paulo, tel. 2076-9700)
Quando: Quinta a sábado, às 21h30; domingo e feriado, às 18h30. Até 17/7
Quanto: R$ 25,00 a R$ 7,50
Duração: 80 minutos
Não recomendado a menores de 16 anos
Visite o site da cia. brasileira de teatro

Ficha técnica:
Direção: Marcio Abreu
Com: Giovana Soar, Nadja Naira e Rodrigo Bolzan
Músico: Felipe Storino
Dramaturgia: Giovana Soar, Marcio Abreu, Nadja Naira, Rodrigo Bolzan
Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino
Assistência de direção: Nadja Naira
Direção de movimento: Marcia Rubin
Orientação de texto e consultoria vocal: Babaya
Iluminação: Nadja Naira e Beto Bruel
Cenografia: Fernando Marés
Figurino: Ticiana Passos
Direção de produção: Giovana Soar
Produção executiva: Isadora Flores
Administrativo e financeiro: Cássia Damasceno
Produção e operação técnica: Henrique Linhares
Produção local: Jose Maria, Lili Almeida e Géssica Arjona
Projeto gráfico: 45JJ
Fotos: Marcelo Almeida, Maringas Maciel e Nana Moraes
Assessoria de imprensa: Morente Forte
Operador de luz: Henrique Linhares e Elisa Ribeiro
Técnico de som: Chico Santarosa e Miro Dottori
Contrarregragem: Fernando Marés, Liza Machado e Elisa Ribeiro
Cenotécnica: Anderson Quinsler
Artistas Colaboradores: Ranieri Gonzalez, Edson Rocha, Renata Sorrah e Cássia Damasceno
Oficinas de aprimoramento: Eleonora Fabião, Erelisa Vieira
Seminários: Eleonora Fabião, Mario Hélio Gomes de Lima, André Egg, Sandra Stroparo, Itaércio Rocha e Aly Muritiba
Entrevistas e encontros: Dona Eva Sopher, Hélio Eichbauer, Maestro Letieres Leite, Sr. Dimitri Ganzelevitch, Fabiano de Freitas e Teatro de Extremos, Favela Força, Bruno Meirinho e Ilê Ayê