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Artigo

As insurgências do presente

18.8.2016  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Denise Jácomo

Em Goiânia

Nestes dias e horas do “pra frente Brasil” olímpico, com atletas batendo continência nos pódios – 31% deles são oficiais das Forças Armadas –, o III Congresso Brasileiro de Teatro proporcionou um tempo e espaço diversos da onda de retrocessos sob a bandeira do “ordem e progresso” do governo interino. O encontro aconteceu em Goiânia, de quinta a domingo passados. A discussão sobre a crise política institucional e a luta por políticas públicas para as artes e a culturas não ignoraram ações propositivas na esfera da criação propriamente dita e feita. A instância poética foi levada em conta nos debates e nos documentos gerados coletivamente. O texto que segue tenta capturar um pouco do espírito do encontro que envolveu representantes de 20 estados e sublinhou as potencialidades da Frente Brasileira de Teatro para movimentar-se em outros termos que não apenas o antagonismo ideológico, talvez um reflexo da contracena dos grupos com as Ocupações em unidades do MinC em todo o país.

*

Num post, ou melhor, num contrapost publicado na rede social no sábado, dia 14 de agosto, o Teat(o) Oficina Uzina Uzona conclamou cidadãos simpatizantes da arte a participar do assim chamado Coro de Público Atuador com vistas a uma apresentação especial de aniversário do espaço do Bixiga na noite de terça-feira, dia 16 de agosto. Os termos da breve mensagem foram os seguintes, na língua única do ator e diretor José Celso Martinez Corrêa:

IÓ PÚBLICO ATUADOR !

com a censura imposta pelo facetruque, que removeu a fórceps nossa página do Teat(r)o Oficina, despertamos para o aqui agora das insurgências estéticas. vivemos uma crise da presença,

e em fogo d mídia tática, desejamos despertá-la.

bakxai bacantes!

venham! cadastrem-se para receber por outras mídias os chamados para os ritos espetáculos

dia 16 d agosto é aniversário d 55 anos do Teat(r)o Oficina

vamos comemorar num rito com o poeta Artaud

pra dar um fim no juízo de deus, às 21h!!!!!

Em sua fala na manhã de abertura do III Congresso Brasileiro de Teatro, na quinta-feira, 11 de agosto, o ator e diretor Amir Haddad promoveu um pequeno levante ao reclamar das cadeiras enfileiradas e das cortinas que tapavam da manhã ensolarada o salão de eventos no nono andar do Umuarama Plaza Hotel, no Setor Central de Goiânia.

Haddad pediu que as cortinas e janelas fossem abertas para que entrassem a luz e o ar. E não apenas uma ou outra janela do ambiente, mas todas. “Não é possível avançar fazendo mais ou menos isso ou aquilo”, disse o ator e diretor mineiro radicado no Rio. Em pensamento pessoano: “Sê todo em cada coisa”. E provocou os participantes a “levantar a bunda” e dispor as cadeiras em círculo. Contrariava assim o discurso de quem deseja mudar, mas não se mexe.

Amir Haddad foi cofundador do grupo Oficina, em outubro de 1958, portanto há 57 anos, ao lado Zé Celso, Renato Borghi, Carlos Queiroz Telles e outros. As primeiras peças dirigidas por ele e Zé Celso receberam nomes emblemáticos. Haddad dirigiu A ponte, de Queiroz Telles, e o segundo Vento forte para papagaio subir, a estreia de Zé Celso na dramaturgia. Eles tinham 20 e poucos anos, eram estudantes da Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, depois incorporada à USP…

Curiosamente, o Congresso abriu no Dia do Advogado, ou da “pendura”, o 11 de agosto. E aqueles estudantes vingaram grandes poetas da cena.

A tarefa política do teatro hoje é tentar contribuir para essa nova reinvenção da imaginação, reconstruí-la no sentido de pensar o futuro diferente do presente. Para o pensador Pablo Cipriano, trata-se de liberar a imaginação e construir novos sonhos, novos modelos em coletivo

Sabe-se que as utopias preparam as revoluções. Falou-se muito de utopia neste encontro, seja de maneira direta ou indireta.

“Vou morrer vivendo utopias todos os dias, e taticamente. O liberalismo ensinou que ser livre é poder comprar as coisas. Mas tenho crença, vontade de que a sociedade construa seus sentidos de igualdade, assim como pretendemos fazer aqui, nesses dias, localizando pontos comuns em meio às diferentes visões e realidades”, disse a atriz Ana Cristina Evangelista, cofundadora do Grupo Zabriskie, há 23 anos, e presidente da Federação de Teatro de Goiás (Feteg), entidade que ancorou o Congresso.

As utopias estão na base da cultura de Teatro de Grupo no Brasil em sua travessia histórica pelas conjunturas sociopolíticas. Foi o que moveu experiências das décadas de 40 a 60 do século XX, como as do Teatro Experimental do Negro (RJ), Teatro de Arena (SP), Teatro Oficina (SP), Teatro de Equipe (RS) e Grupo Opinião (RJ), paradigmas de inquietudes artísticas que combinaram ideologia, utopia em suas razões de ser.

Sintomaticamente, entre os representantes de 20 unidades federativas presentes em Goiânia tivemos o ator e diretor Lindolfo Amaral, que desde o segundo ano de atividade faz parte do Grupo Imbuaça de Teatro, fundado em agosto de 1977, em Aracajú, que ruma para os 39 anos no próximo dia 28.

A roda de artistas que preencheu o vazio com ideias de militâncias artísticas e políticasDenise Jácomo

A roda de artistas que preencheu o vazio com ideias de militâncias artísticas e políticas

Podíamos puxar aí uma fieira de coletivos que fortaleceram o Teatro de Grupo no país e cujos modos de organização, de produção e de criação são claramente reconhecíveis por causa da pesquisa continuada. Alguns deles deram origem aos primeiros encontros ou movimentos dessa corrente no início da década de 1990.

A linha de tempo pode ser demarcada pelo I Encontro Brasileiro de Teatro de Grupo, em 1991, na cidade de Ribeirão Preto (SP), que reuniu pelo menos 15 agrupamentos, entre eles o Imbuaça, a Tribo de Atuadores ÓI Nóis Aqui Traveiz e o Grupo Galpão.

Foram articuladas iniciativas em níveis regional ou estadual, como o Movimento de Teatro de Grupo de Minas Gerais, também a partir de 1991; o Movimento Arte Contra a Barbárie, que surge em São Paulo em 1998; o Movimento Redemoinho, que promoveu cinco encontros, de 2004 a 2009, nas cidades de Belo Horizonte (duas vezes), Campinas, Porto Alegre e Salvador; e o Movimento Teatro de Grupo de Curitiba, de 2010 a 2014, entre outras atividades organizadas conjuntamente.

É desse imaginário e dessas memórias que se alimentam os artistas que tornaram o Teatro de Grupo relevante no cenário atual. Mesmo aqueles que rejeitam filiação.

Diretor do Grupo Tá Na Rua, fundado em 1982, Amir Haddad lembrou que na peça Marat-Sade, do alemão Peter Weiss (1916-1982), o líder revolucionário diz para o filósofo e escritor libertino que carece da imaginação dele justamente para fazer a revolução.

Como bem observou o professor de filosofia Pablo Capistrano, do

Instituto Federal do Rio Grande do Norte e dramaturgo do Grupo Carmin, em sua providencial participação em vídeo na abertura da jornada, a gente precisa ter a capacidade de reposicionar a utopia dentro dos nossos horizontes, sejam eles político e, sobretudo, artísticos.

Vivemos a dificuldade de perceber o futuro, diz Capistrano. Isso é muito prejudicial a quem se propõe a projetar uma sociedade mais solidária e fraterna num ambiente regado a competição, lucro, desigualmente, violência. Vem daí o avanço das alas reacionárias em várias sociedades, num roteiro conhecido. Segundo Capistrano, o filósofo alemão Walter Benjamin anotara, na década de 30, que o fascismo é sintoma de uma revolução que fracassou. Ou seja, isso tem a ver com apagões utópicos. A ideia de que a utopia é algo muito distante, que não adianta pensar em alternativa, faz com que o fascismo cresça e apareça sem nenhuma ponta de vergonha. Como se todas as soluções viessem apenas do passado, da tradição, da família, da propriedade, numa espécie de “utopia regressiva.

Pablo Capistrano disse que a arte do teatro tem papel fundamental para quebrar esse gelo, assim como as linguagens do cinema, da literatura, da música, e assim por diante.

Diz ainda o professor potiguar, em sua pensata de 16 minutos e pouco que pode ser assistida no rodapé: “Nós não somos políticos profissionais, mas mesmo assim temos uma tarefa política e ela vai além de defender ou criticar o governo. A tarefa política do teatro hoje é tentar contribuir para essa nova reinvenção da imaginação, reconstruí-la no sentido de pensar o futuro diferente do presente. Expor, mas também provocar, criar mecanismos, ferramentas, espaços em que a imaginação humana possa se projetar num futuro diferente. Trata-se de “liberar a imaginação e construir novos sonhos, novos modelos em coletivo”.

Como nos citados versos do poema A Sierguéis Iessiênin, de Vladimir Maiakovski (1893-1930), ode ao amigo e escritor que tirou sua própria vida, Capistrano constata que há escória de sobra na paisagem e os tempos são duros para o artista: “É preciso arrancar alegria ao futuro”, como diz o verso. Leia-se criatividade em “alegria” e estamos diante de um oceano de potencialidades em arte. (Ainda que tampouco Maiakovski tenha conseguido divisá-las com a mesma convicção com que, cinco anos antes, condenara o ato do amigo, vindo a se matar com um tiro no peito sob o totalitarismo da era de Josef Stálin, entre 1927 e 1953).

Os diretores Romualdo Lisboa (BA), Fernando Yamamoto (RN), José Fernando de Azevedo (SP) e Haddad (RJ)Cassio Correia

Os diretores Romualdo Lisboa (BA), Fernando Yamamoto (RN), José Fernando de Azevedo (SP) e Haddad (RJ)

Tendo acompanhado algumas das ações do Arte Contra a Barbárie, como aquele ato de dezembro de 2000 que ocupou o plenário da Câmara de Vereadores na disputa pela aprovação do projeto de lei que criaria o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, quando cerca de 300 artistas entoaram Ô, abre alas, de Chiquinha Gonzaga, e deram seu recado; e tendo acompanhado ainda quatro dos cinco encontros nacionais do Redemoinho – é sempre bom lembrar que ele surgiu inicialmente como uma rede brasileira de espaços de criação, compartilhamento e pesquisa teatral, mas transformou-se em movimento catalisador da luta por políticas públicas na área –, enfim, com essas vivências rememoradas, foi vibrante perceber que a dimensão artística fez parte efetiva dos diálogos diuturnos do III Congresso Brasileiro de Teatro, de quinta-feira a domingo, ou de 11 a 14 de agosto. E, melhor, que as insurgências poéticas foram acolhidas como pauta pela doravante designada Frente Brasileira de Teatro.

Em uma de suas intervenções, sobre a inscrição da militância artística na realidade, o José Fernando de Azevedo, que é diretor do grupo Teatro de Narradores e professor da Escola de Arte Dramática na USP, afirmou que o programa em voga pela onda de direita no Brasil e no planeta é justamente “fazer a imaginação desaparecer”.

Em sua exposição sobre as intermitências das forças produtivas e criativas do teatro tantas vezes canceladas, conforme os ciclos de uma mitologia à paulistana que vem do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, na década de 1940, até o golpe jurídico, parlamentar e midiático em curso, Azevedo constata que o teatro, arte pública por definição, tem o tamanho da vida pública entre nós. E esse teatro pós-desmanche, a bordo do processo de destruição que permanece e nos faz “estetizar a precarização quando ela deveria ser força produtiva”, esse teatro precisa agora ser mobilizado por uma luta contra todas as formas reacionárias de destruição da democracia.

E para radicalizar (ou radicar?) a explicitação desse estado de exceção tornado regra, o diretor do Teatro de Narradores sugere produzir poéticas de emergência:

“Talvez a produção teatral no Brasil dos últimos anos tenha formulado imagens, produzido experiências e sugerido formas de organização, inclusive de produção, que ainda não sabemos elaborar, dar nome. O que a gente fez nos últimos 16 anos? O que esse teatro de fato organizou? Quais são as conquistas das quais não queremos recuar? E quando uma ordem democrática foi interrompida, o que isso resultou em termos formais? Tenho a percepção de que em cada um desses contextos, algo avançou nos programas. E pela primeira vez nós temos uma geração de grupos que sobreviveu por 15, 20 anos. Isso é inédito. Alguma coisa ganhou forma”, sustenta Azevedo.

Amir Haddad o precedeu na fala e já fizera um chamado à “(re)existência”. “Ainda não sei os caminhos, mas tenho certeza de que estamos vivendo o final de uma civilização”. Para tirar a arte do isolamento, ele defende a ocupação criativa do espaço público. “Nós somos o futuro acontecendo no presente, nos opomos a tudo que está aí. Nós somos muitos grupos. O futuro já está acontecendo em muitos lugares”, afirma o diretor em seu esboço de arqueologia do futuro.

O neologismo (re)existência também foi usado pelo ator do Grupo Teatro Invertido (MG), Leonardo Lessa, que dirigiu o Ceacen, o Centro de Artes Cênicas da Funarte, até o afastamento da presidente Dilma Rousseff em processo iniciado há oito meses na Câmara dos Deputados e pactuado pela traição de seu vice, com o qual foi eleita em 2014 por 54 milhões de votos.

O ator Leonardo Lessa (MG), que dirigia o Centro de Artes Cênicas da FunarteDenise Jácomo

O ator Leonardo Lessa (MG), que dirigia o Centro de Artes Cênicas da Funarte

Lessa vinha de experiências como coordenador geral do centro cultural Galpão Cine Horto em Belo Horizonte e integrante do Colegiado Setorial de Teatro do Conselho Nacional de Política Cultural do MinC. Declarou-se apaixonado pela possibilidade de levar parte dessa militância para dentro do Governo Federal nos campos da gestão pública, da construção da Política Nacional das Artes, da expectativa de repensar o escopo das políticas das artes para o Brasil.

“Como virar a chave da resistência para a (re)existência?”, pergunta Lessa. “A gente se reconhece neste Congresso. Há um afeto neste encontro que nos liga e ele é poderoso”, afirma, reforçando a cumplicidade dos últimos tempos nas mobilizações pelo Teatro de Grupo, de premissa investigativa que tem o espectador em alta conta e o lança às perguntas em vez de vaticinar respostas.

Outro nome destacado nos quatro dias de Congresso e associado à Funarte é o de Marcelo Bones, diretor e cofundador do Grupo Teatro Andante, de Belo Horizonte. Ele esteve à frente da direção do Ceacen no período de 2008 a 2011, sob os governo Lula e Dilma, sendo da segunda gestão desta um dos articuladores da mesma fundação, braço do MinC para as áreas de teatro, dança e circo. Bones reconheceu os grandes desafios daqui por diante. Daí o entusiasmo pela Frente Brasileira de Teatro, desdobramento da Frente Nacional de Teatro surgida entre abril e maio passado.

“As falas do Pablo, do Amir e do Zé Fernando trataram do encerramento de ciclos, desde o capitalismo mundial, a crise política do momento brasileiro, após a gente ter alimentado a esperança de um governo de esquerda, e os ciclos teatrais a cada dez anos, com a sensação de que a gente construiu e depois destruiu. Vivemos o fim desses ciclos, com os tijolos caindo em algumas cabeças. Mais do que repetir a expectativa de construção de novos ciclos, o desafio é se reinventar, trilhas novos caminhos”, declarou Bones.

Diante do Estado descaracterizado, qual a estratégia de luta? “Estamos no meio de uma luta, não temos dúvida disso. Se estamos esfarrapados e não vemos saída, o que fazer? Tenho esperança de que este Congresso seja o espaço de construção da Frente, que tem no seu DNA a conjunção de federações, redes, movimentos, grupos e outras representatividades”, afirmou o articulador.

O diretor Marcelo Bones, articulador da Funarte/MinC no governo Dilma RoussefDenise Jácomo

O diretor Marcelo Bones, articulador da Funarte/MinC no governo Dilma Rousseff

O diretor e dramaturgo Romualdo Lisboa, do Teatro Popular de Ilhéus (BA), em atividade há 20 anos no sul da Bahia, soou mais cético em sua primeira explanação.

“Teatro brasileiro não tem movimento não, isso é uma ilusão. Em última instancia, somos concorrentes de editais, curadorias de festivais. Por que criamos e, quando criamos, implodimos os movimentos, sempre defendendo interesses senão pessoais, muito próximos da gente?”, questionou Lisboa. “Agora, pensar em política pública com esse governo que está aí? A gente vai sentar à mesa e propor uma política nova? E a janelinha, vai ficar fechada?”, prosseguiu, confessando expectativas de que o Congresso sinalizasse respostas éticas e estéticas para o momento brasileiro. Vereda também lembrada pelo ator, diretor e arte-educador Franco Pimentel, da Secretaria de Educação de Goiás. “Temos esquecido de falar do sujeito, de formação de plateia, de nossa postura ética no teatro”.

Vindo de Salvador, onde é membro fundador do Grupo Vilavox, há 15 anos, o ator e diretor Gordo Neto demonstrou percepção oposta ao ceticismo de Lisboa. Segundo ele, o percurso histórico é evidente. “Discordo que não exista o movimento de Teatro de Grupo. Mostram isso o Redemoinho, o Arte Contra a Barbárie, o Programa de Fomento, a Cartografia do Teatro de Grupo no Nordeste, elaborada pelo Fernando Yamamoto [do Grupo Clowns de Shakepseare, de Natal], enfim, as tantas plataformas, encontros e possibilidades criadas e que ainda estão aí”, pontuou Gordo Neto. “Se a gente pensar bem, a própria ideia de Brasil não existe diante de tantas realidades parecidas e distintas. Nossa estratégia agora é diminuir o impacto inevitável que já estamos tendo nos direitos sociais e no campo da cultura. E o impacto continuará por conta desse governo ilegítimo, golpista. O momento talvez seja mesmo de estratégia de luta e não de diálogo com esse governo.”

Fernando Yamamoto discorreu sobre a gênese da Frente. Parte dos artistas de teatro começou a se articular na ocasião das ocupações de prédios ou de equipamentos do MinC que irradiaram de Curitiba para outras 26 unidades federativas, contra a anunciada extinção do Ministério da Cultura, logo recuada, além do protesto permanente ao governo interino.

Yamamoto contextualizou: “Quem participava da Frente o fazia por autodeclaração. Era uma espécie de representação, mas informal. Com isso acabou acontecendo um fenômeno inusitado e interessante, até pelo contato que a gente tem, e os artistas conseguimos se articular geograficamente, estabelecendo um vínculo com as Ocupas. Naquela audiência pública da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, no dia 24 de maio, o movimento atingiu todos os estados mais o Distrito Federal. A dita Frente Nacional de Teatro [agora Frente Brasileira de Teatro] estava presente e ativa em todas as ocupações. Isso acabou nos dando um respaldo dentro desse movimento. Havia outras iniciativas de grande importância, como o Fora do Eixo e os secundaristas. Se essas não foram ‘a maior ocupação artística no país’, acho que de fato elas foram de um vulto sem precedente”, contextualizou. “E não precisa ser convidado para ser da Frente, basta se declarar que é.”

Certidão

Foi natural perceber como a questão da identidade perpassou o III Congresso Brasileiro de Teatro. Como nos nomeamos é uma das premissas da representação do sujeito no mundo. O batismo tem a ver com a origem e a formação dos seres organizados. Somos um congresso? Somos uma frente nacional? A palavra congresso dá margem às tratativas do formalismo parlamentar, por exemplo. Frente nacional é definição de arrepiar por aludir às extremas-direitas em ascensão na Europa (onde floresceu o fascismo), com ressonâncias na onda conservadora que toma o Brasil de assalto. O léxico entrou em pauta, para não dizerem que não se falou das flores e dos espinhos. Congresso permanece, mas a dianteira do movimento foi renomeada Frente Brasileira de Teatro, ponto, e nada mais foi dito ou perguntado.

No espetáculo Congresso Internacional do Medo, de 2008, o Grupo espanca! foi inspirado pelo poema de mesmo nome de Drummond. O mote da dramaturgia da também diretora Grace Passô era a reunião de convidados de várias partes do mundo que tentam conceituar questões que dizem respeito à humanidade por meio da arte, da ciência e da natureza. Discute-se similaridades através das diferenças de línguas, de filósofos, revelando aos participantes que o medo é a véspera da coragem, como informado no material de divulgação da peça.

Já entre os versos de Drummond, lemos:

Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

*

Depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Cena do espetáculo 'Congresso internacional do medo' (2008), do Grupo Espanca, de Belo HorizonteDalton Valério

Cena do espetáculo ‘Congresso internacional do medo’ (2008), do Grupo espanca!, de Belo Horizonte

Transcorreu fruído o ambiente de convívio e respeito às tolerâncias e diferenças durante o Congresso. Destacamos ainda o diálogo intergeracional da maioria com anos de estrada diante das intervenções de jovens assertivos que não se sentiram intimidado em expor seus pontos de vista. Meninas e meninos de Natal, de Cuiabá e de Curitiba, por exemplo.

Acreditamos que o temperamento dos artistas idealizadores da Frente e o trabalho da organização foram decisivos para a afirmação desse caráter receptivo às diversidades. Não notamos disputas geopolíticas ou ideológicas nos níveis de embates mais acirrados a que presenciamos em encontros nacionais de Teatro de Grupo.

Ainda no quesito organizacional, a infraestrutura do salão, da hospedagem e da alimentação contribuíram para a concentração das atividades reflexivas, deliberativas e propositivas com média diária de 70 pessoas – os dois primeiros dias envolveram até 90 participantes.

Apesar da janela que tomou toda uma manhã, a de sexta-feira, dia 12 de agosto, destinada aos esclarecedores informes sobre a Lei Rouanet e o Procultura, o Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, este em tramitação no Senado, o volumoso mix de conteúdos do Congresso e da Frente Brasileira não redundou esquizofrênico. Os assuntos foram tratados, respectivamente, pelo gestor Henilton Menezes, ex-secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, e o especialista em gestão e políticas culturais Carlos Paiva, sucessor na mesma secretaria no segundo governo Dilma.

Houve disponibilidade e escuta mesmo naqueles momentos mais acalorados. A sensação é de que saímos com camadas de informações bem embasadas que não embolaram as resoluções quanto aos documentos finais construídos coletivamente e consolidados no domingo.

Tampouco resvalaram em viés de dirigismo institucional ou político as vozes dos gestores da Funarte no governo da presidente Dilma. Antes de tudo, são criadores e pesquisadores que não boicotaram a dimensão dialógica do Congresso. A transparência de posições trazidas à plenária reflete, igualmente, a possibilidade de convivência de pensamento crítico entre campos que costumavam ser apartados. Afinal, as noções de representatividade e de representação estavam delineadas.

Por tudo isso, como tudo na vida, na natureza, intuímos o surgimento inevitável de um novo ciclo.

Só que em vez de deixar sua constatação para a posteridade, que este ciclo brote desde já a sua consciência crítica/poética no debate entre indivíduos e agrupamentos que trabalham com as artes da cena.

Quem sabe, teremos aí revigorada uma terceira margem para a politização e a militância artística continuadas, e para além da luta por políticas públicas que nos ocupa com diligência.

Foram em média 70 participantes por dia durante o III Congresso Brasileiro de Teatro em GoiâniaDenise Jácomo

Foram em média 70 participantes por dia durante o III Congresso Brasileiro de Teatro em Goiânia

Os artistas avançaram no III Congresso para concretizar ações que efetivamente digam respeito ao ofício na veia, quase como que se ouvissem o chamado do dramaturgo argentino Oswaldo Dragun (1929-1999) no início da década de 1980, um dos precursores do movimento Teatro Abierto em seu país. “Juntamo-nos para fazer entre todos o que, mal ou de modo quase estéril, fazemos cada um por nossa conta”. Fazer arte, pressuposto.

Citamos o movimento Teatro Abierto que aconteceu na Argentina de julho de 1981 até o final do regime de exceção, em 1985, contrapondo-se à ditadura militar, instalada havia cinco anos com sua política de terror. Um coletivo de 21 dramaturgos decidiu escrever peças breves. Apresentadas a três por dia, elas compunham sete espetáculos a serem exibidos durante oito semanas. Cada obra seria dirigida por um diretor distinto e representada por intérpretes diferentes para dar lugar a uma presença massiva de atores, como se lê no histórico resumido no site do Teatro del Pueblo, dedicado ao autor argentino. As funções eram realizadas no Teatro Picadeiro, na periferia portenha, em horário inusitado, às 18h. E os ingressos custavam em média metade do preço para se ir ao cinema à época. Uma semana depois, um comando paramilitar incendiou o Picadeiro.

O atentado provocou a indignação do meio cultural. Cerca de 20 salas, inclusive as mais comerciais, se ofereceram para abrigar o ciclo. Mais de cem pintores doaram quadros para contribuir com a arrecadação de recursos diante das perdas. Houve adesão de ativistas dos direitos humanos, como os escritores Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato e o arquiteto Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz. Assim o movimento Teatro Abierto prosseguiu no Teatro Tabarís, em plena rua Corrientes (corredor do teatro comercial até hoje), cuja capacidade de público dobrava a do Picadeiro. A afluência de cidadãos foi tamanha que o fenômeno teatral converteu-se em comício antifascista.

Em 28 de julho de 1981, uma terça-feira, às 18h, o ator Jorge Rivera López, então presidente da Associação Argentina de Actores, inaugurou o movimento Teatro Abierto com a leitura do seguinte texto do dramaturgo Carlos Somigliana, à maneira de uma carta de princípios:

¿Por qué hacemos Teatro Abierto? Porque queremos demostrar la existencia y vitalidad del teatro argentino tantas veces negada; porque siendo el teatro un fenómeno cultural eminentemente social y comunitario, intentamos mediante la alta calidad de los espectáculos y el bajo precio de las localidades, recuperar a un público masivo; porque sentimos que todos juntos somos más que la suma de cada uno de nosotros; porque pretendemos ejercitar en forma adulta y responsable nuestro derecho a la libertad de opinión; porque necesitamos encontrar nuevas formas de expresión que nos liberen de esquemas chatamente mercantilistas; porque anhelamos que nuestra fraternal solidaridad sea más importante que nuestras individualidades competitivas; porque amamos dolorosamente a nuestro país y éste es el único homenaje que sabemos hacerle; y porque, por encima de todas las razones nos sentimos felices de estar juntos.

E na noite da última terça-feira, 16 de agosto, em sua terreira no Bixiga paulistano, Zé Celso jogou luz ao final da sessão de Pra dar um fim no juízo de Deus, ainda imantado pelo poeta Antonin Artaud (1896-1948) e pelos 55 anos do Teatro Oficina e sua arquitetura incomum desenhada por Lina Bo Bardi (1914-1992). “Nossa barricada é a arte”, exclamou o diretor, sob o signo da lua cheia lá fora e a convicção de que, em estado de emergência, não há alternativa senão sair da alma subterrânea para a ágora. A insurreição é artística.

.:. As edições anteriores do Congresso Brasileiro de Teatro aconteceram em Osasco (2011), articulada pela Rede Nacional de Teatro de Rua e Cooperativa Paulista de Teatro, e em Florianópolis (2014), pelo Setorial de Teatro de Florianópolis e Federação Catarinense de Teatro (Fecate). A quarta edição está prevista para Rio Branco (AC), de 25 a 28 de maio de 2017, organizada pela Federação de Teatro Amador do Acre, a Fetac.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do III Congresso Brasileiro de Teatro.

.:. Documentos anexos:

Goiânia, Goiás – Brasil, 14 de agosto de 2016

Carta de Goiânia

Em 2016 no Brasil, mais uma vez um golpe interrompe o processo democrático. Nós – artistas, grupos, companhias, coletivos, críticos, pesquisadores, produtores, técnicos, professores, gestores, programadores, federações, associações, entre outras redes de Teatro de 20 unidades federativas – reunidos no III Congresso Brasileiro de Teatro – realizado entre 11 e 14 de agosto em Goiânia-GO – compreendemos a gravidade do momento histórico.

A democracia é a condição primeira para o verdadeiro aprofundamento da experiência teatral em seu sentido efetivamente público: a luta pela viabilidade e continuidade do trabalho artístico é, sobretudo, uma luta pela radicalização da vida democrática.

Há décadas denunciamos o descaso do Estado, que tem sido até aqui o guardião de interesses parciais na sociedade, face ao direito constitucional de acesso à cultura e ao pleno exercício dos direitos culturais. A nossa força de mobilização nacional foi também demonstrada em maio deste ano, no processo inédito de ocupação de prédios públicos do Ministério da Cultura –MinC em 27 unidades federativas, resultando no recuo do regime interino em seu movimento de extinção do Ministério da Cultura.

Todo esse histórico de luta articulada,a resistência de vários outros movimentos sociais, os avanços, os benefícios de acesso e fruição do público, a preservação dos equipamentos culturais, a continuidade e manutenção das obras de arte, o fazer e pensar artístico livres, não sobreviverão sem um Estado de Direito legitimamente democrático.

A luta por melhores condições do trabalho artístico não se reduz a uma causa corporativa, como acusam aqueles que nos impõem as marcas de um passado autoritário que insiste em não passar. Nesse contexto de emergência social, nós – fazedoras e fazedores de Teatro reunidos neste III Congresso Brasileiro de Teatro – entendemos que temos um caminho a seguir e este caminho é para frente.

Por isso, além das deliberações que seguem documentadas nos relatos em anexo, em continuidade às lutas dos últimos anos e no esforço de garantir os avanços interrompidos, decidimos, entre outros, pela consolidação da Frente Brasileira de Teatro, regida por sua Carta de Princípios.

Dedicamos a realização deste congresso ao homem de Teatro Marcelo Sousa e à sua total recuperação.

III Congresso Brasileiro de Teatro – Goiânia/GO – 2016
contatocbt@gmail.com
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Goiânia, Goiás – Brasil, 14 de agosto de 2016

Moção de apoio ao Colegiado Setorial de Teatro do CNPC

Os participantes do “III Congresso Brasileiro de Teatro – Goiânia/GO – 2016”, realizado entre 11 e 14 de agosto de 2016 em Goiânia-GO, vêm a público manifestar apoio aos membros da sociedade civil que integram o Colegiado Setorial de Teatro do Conselho Nacional de Políticas Culturais –o CNPC do Ministério da Cultura, democraticamente eleitos em 2015. Frente ao golpe jurídico, midiático e parlamentar que depôs a Presidenta Dilma Rousseff e interrompeu o processo democrático no Brasil, os Colegiados Setoriais também serão um importante espaço de resistência ao desmonte das estruturas do Estado e à perda de direitos sociais conquistados pela população, perpetrados de forma sistemática pelos novos mandatários do Governo Federal, inclusive no campo das políticas culturais.

Apontamos também a necessidade de que nossos representantes no Colegiado Setorial de Teatro garantam a continuidade de programas e políticas do MinC, construídos nos últimos anos de forma pública e democrática, especialmente o ProgramaProCultura (2010), a Política Nacional de Cultura Viva (2014) e a construção da Política Nacional das Artes (2015), fazendo cumprir assim o Plano Setorial de Teatro, fazendo cumprir a lei n. 12.343/2010, artigo 216-A da Constituição Brasileira – Lei do Sistema Nacional de Cultura.

Exigimos, portanto, que as funções dos Colegiados Setoriais sejam respeitadas e as reuniões presenciais, cumpridas, conforme estabelece o Decreto 5.520, que dispõe sobre a composição e o funcionamento do Conselho Nacional de Política Cultural –o CNPC do Ministério da Cultura.

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Goiânia, Goiás – Brasil, 14 de agosto de 2016

Moção de apoio ao Procultura

O “III Congresso Brasileiro de Teatro – Goiânia/GO – 2016”, realizado entre 11 e 14 de agosto de 2016 em Goiânia-GO,  reivindica a imediata tramitação do Projeto de Lei que institui o Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura – Procultura (PLC 93), que substitui o atual mecanismo de financiamento de atividades culturais, implementado por meio da Lei n. 8.313, de 1991 –a “Lei Rouanet”.

O modelo instituído baseado no incentivo fiscal, perpetuou desigualdades, exclusões e distorções. Como pontos inegociáveis definimos o fim dos 100% da renúncia e a equiparação do Fundo Nacional de Cultura com o incentivo fiscal.

É importante lembrar que a reforma da Lei Rouanet vem sendo debatida publicamente por mais de dez anos e o Procultura é fruto deste debate realizado com diversos segmentos em todo o Brasil. Portanto, deve ser considerado pelo Ministério da Cultura e pelo Congresso Nacional.

Exigimos a imediata retomada dos debates públicos necessários para aprovação do Procultura e que estes debates sejam feitos a partir do estudo proposto pelo MinC no início de 2016.

III Congresso Brasileiro de Teatro – Goiânia/GO – 2016
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Carta de Princípios da Frente Brasileira de Teatro

A Frente Brasileira de Teatro, criada no ano de 2015, reúne trabalhadoras e trabalhadores, instituições, fóruns, movimentos, grupos, coletivos, companhias, cooperativas, sindicatos, associações e redes, fazedoras e fazedores de Teatro do Brasil, tendo como princípios fundamentais:

1 – A necessidade de que o Estado Brasileiro crie, de fato, condições democráticas que garantam o acesso, difusão e produção artístico-cultural como um direito social, constitucional e universal;

2 – O reconhecimento do direito à Cultura em suas dimensões simbólica, econômica e cidadã como exercício crítico da cidadania e isento de qualquer sujeição aos valores da concorrência, da acumulação ou concentração de renda, do preconceito e da exclusão;

3 – A garantia do cumprimento das obrigações constitucionais para com o fomento ao Teatro e à Cultura, através da formulação e implementação de políticas de Estado realizadas com investimento direto do orçamento vinculado da União, numa perspectiva federativa, envolvendo estados, municípios e o Distrito Federal, além da sociedade civil como um todo;

4 – O não reconhecimento da renúncia fiscal como principal política pública para a Cultura em geral e para o Teatro em específico. Privatizante, antidemocrático e excludente, o incentivo fiscal na prática representa a transferência de recursos públicos para o âmbito privado, submetendo a esfera da produção simbólica aos interesses mercantis de empresas que nada têm a ver com a ideia de cultura pública;

5 – A defesa de políticas públicas estruturantes que considerem a perspectiva continuada e coletiva de nosso ofício, reafirmando a Arte como campo de pensamento e de atuação pública, essencial ao exercício da cidadania e garantia da ordem democrática do país;

6 – O reconhecimento e a valorização das trabalhadoras e trabalhadores do Teatro, segmento profissional ainda desamparado por marcos legais específicos nos campos trabalhistas, tributários e previdenciários. Aquelas e aqueles que se sentirem representadas por estas lutas estão convidados a se engajar na construção coletiva desta Frente!

Frente Brasileira de Teatro
fbteatro@gmail.com
www.facebook.com/frentebrasileiradeteatro

Valmir Santos

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