É provável que todo espectador de teatro tenha, em algum momento, se perguntando como surgem e se desenvolvem as ideias que criam um espetáculo. O que preservar e o que descartar? Qual o momento em que a obra é declarada concluída e pronta para ser apresentada ao público?  O que é mais importante, o repertório do artista ou sua originalidade? Existe uma separação entre a realidade e a ficção? Ainda que não seja possível haver explicações conclusivas sobre os processos criativos, o debate sobre esse tema aparece de maneira muito instigante na produção uruguaia A ira de Narciso e na argentina As ideias, que estarão na quarta edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, de 8 a 18 de setembro, uma realização do Sesc São Paulo.

Desde Platão, pelo menos, a relação entre o teatro e a realidade é uma questão aberta. Para o filósofo grego, os atores eram hypócrités, fingidores. Nesse sentido, as artes cênicas seriam condenáveis, pois apresentariam uma falsificação do real. Seu sucessor, Aristóteles, ao contrário, chamava os atores de prattontes, atuantes. A capacidade do artista teatral gerar ações constituiria, para ele, a singularidade das tragédias. No teatro contemporâneo, ainda que fingir ou atuar sejam escolhas poéticas e políticas, é nas zonas de indefinição que as obras ganham potência.

Na encenação uruguaia ‘A ira de Narciso’, a amizade entre os dois é explorada não como um espelhamento do real na arte, mas sim como elemento perturbador da relação do espectador com a obra

Em A ira de Narciso, o embaralhamento de regimes ficcionais leva o público a duvidar, o tempo todo, sobre a veracidade dos fatos apresentados. A peça foi  escrita e dirigida por Sérgio Blanco, dramaturgo uruguaio radicado em Paris. Esta é a segunda obra de Blanco a ser apresentada no Brasil neste ano. Em março, Tebas Land fez parte da programação oficial do Festival de Teatro de Curitiba, trabalho também escrito e dirigido por ele sobre o encontro de um escritor e um parricida. O tema da morte é constante em sua produção e, no caso de A ira de Narciso, ganha contorno autoficcional.

Enquanto o público entra no teatro, o ator Gabriel Calderón, uruguaio como Blanco, canta sucessos populares, como se estivesse em um programa de auditório ou se divertindo com amigos em um karaokê. Calderón também já esteve no Brasil algumas vezes. No ano passado, foi o dramaturgo convidado do 7º Ciclo do Núcleo de Dramaturgia Sesi-British Council. Em A ira de Narciso, ele, heterossexual, vai aos poucos se tornando um dramaturgo homossexual solitário chamado Sérgio Blanco, que está em Liubliana, Eslovênia, para proferir uma palestra sobre a ira de Narciso. “A cidade é linda e os homens, uma maravilha!”, declara em uma de suas falas iniciais. O relato do personagem Sérgio é feito por meio de mensagens que ele envia para seu amigo Gabriel Calderón, que estaria no Uruguai. Nesse momento, o público fica desnorteado, pois o protagonista tem o mesmo nome que o diretor e autor da peça, e seu interlocutor, o nome do ator que o interpreta. Para complicar, Gabriel (o ator) recebe o público como ele mesmo e sua transformação em Sérgio é feita de maneira abrupta, sem explicações ou rituais.

Enquanto Gabriel/Sérgio fala da viagem e de sua estadia, são projetadas imagens da Internet com a localização e os supostos deslocamentos do protagonista na cidade. A trama segue uma narrativa linear, com relatos de perversão e homofobia. O cruising em espaço públicos, hábito comum da comunidade homossexual, é apresentado como um elemento turístico. Sérgio expõe-se ao perigo em um parque, relacionando-se com um desconhecido agressivo por quem se sente seduzido. O risco ao qual Sérgio se expõe remete ao conceito psicanalítico de gozo, o resultado da pulsão de morte, que ao mesmo tempo oferece prazer e angústia. O regime autoficcional mescla-se com o fantástico, manifesto em uma mancha de sangue no chão do quarto do hotel impossível de ser limpa.

A produção é da companhia Complot , criada por Calderón e que tem Blanco como colaborador assíduo. A amizade entre os dois é explorada não como um espelhamento do real na arte, mas sim como elemento perturbador da relação do espectador com a obra. Da mesma forma, outras obras contemporâneas, como a recente Amadores, da Cia. Hiato, ou Corte seco (2009), de Christiane Jatahy, os elementos documentais são absorvidos pela ficção, gerando uma sensação de proximidade entre os dois registros. A moldura teatral, por sua vez, atenua a realidade para torná-la compreensível. O mesmo expediente foi também utilizado em Farinha com açúcar (2016), do Coletivo Negro, na qual o personagem Jé Oliveira, mesmo nome do ator e diretor da companhia, afirma em uma das cenas iniciais da peça que, ali, “tudo é ficção, mas nada é ilusão”.

Em foco, as incontáveis decisões que o artista precisa tomarBea Borges

Em As ideias, foco nas incontáveis decisões que o artista precisa tomar

Em A ira de Narciso, Sérgio é fascinado por documentários do canal de televisão National Geographic. Neles, afirma-se uma realidade inquestionável, pois foram produzidos como jornalismo. Esse elemento não entra por acaso na peça, pois é justamente contra esse tipo de certeza que o espetáculo se ergue. As imagens de animais selvagens, apesar de fabricadas, apresentam-se como registros idôneos.

Se em La ira de Narciso a tecnologia serve para criar um diapasão com o excelente trabalho de ator de Calderón, em As ideias ela tem um papel mais estruturante da obra. Escrita, dirigida e encenada pelo argentino Federico León, a peça mostra um artista conversando com seu assistente sobre ideias criativas. O diálogo acontece em meio a uma partida de pingue-pongue, cuja mesa vai se expandindo e se convertendo em outros móveis e suportes.

Em larga medida, é possível afirmar que As ideias encaixa-se em uma sequência de trabalhos de Léon sobre a subjetividade e os procedimentos artísticos. Estrellas (2007), filme documentário codirigido por ele e Mariano Martínez, aborda uma agência de atores na periferia de Buenos Aires especializada em personagens pobres e marginais (porteiros, empregados, garçons, traficantes, entre outros). Seu trabalho seguinte, Entrenamiento elemental para actores  (2009) é um filme e livro ficcionais de León e Martín Rejtman sobre o ensino de técnicas de atuação a um grupo de crianças.

As ideias coloca em tela as incontáveis decisões que um artista precisa tomar. A ira de Narciso, por sua vez, coloca o artista como um sujeito com poder decisório limitado, pois além da interação com outros e dos constrangimentos das situações concretas de produção, precisa lidar com seus próprios desejos e com demandas inconscientes inexplicáveis. É uma oportunidade ímpar poder assistir a essas duas produções do teatro latino-americano contemporâneo em um único evento.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

.:. Veja a programação completa do Mirada.

Serviço:
A ira de Narciso
Onde: C.A.I.S. Vila Mathias
Quando: 17 e 18/9, sábado e domingo, às 20h
Quanto:  R$ 10 a R$ 40
Duração: 100 min.
Classificação indicativa: 16 anos

Ficha técnica:
Autoria e direção: Sérgio Blanco
Com: Gabriel Calderón
Cenografia, figurinos e desenho de luz: Laura Leifert e Sebastián Marrero
Videoarte: Miguel Grompone
Assistente de direção: Inés Cruces
Produção: Ignacio Fumero e Matilde Lopes
Apoio: Instituto Nacional de Artes Escénicas do Uruguai

Serviço:
As ideias
Onde: C.A.I.S. Vila Mathias
Quando: 9 e 10/9, sábado e domingo, às 20h
Quanto: R$ 10 a R$ 40
Duração: 60 min
Classificação indicativa: 16 anos

Ficha técnica:
Autoria e direção: Federico León
Com: Julián Tello e Federico León
Desenho de cenografia: Ariel Vaccaro
Desenho de som e vídeo: Diego Vainer
Desenho de luz: Alejandro Le Roux
Produção e assistência de direção: Rodrigo Pérez e Rocío Gómez Cantero