Em 17 de maio de 2016 foram comemorados os 150 anos de nascimento do compositor francês Erik Satie (1866-1925). Para celebrar a data, a Elefants Companhia de Teatro montou a única peça teatral do artista, A armadilha de Medusa, que estreou em 28 de setembro em Florianópolis. O texto de 1913 foi encenado pela primeira no ano seguinte, em Paris.

Satie como dramaturgo é uma faceta ainda pouco conhecida. O artista tornou-se vanguarda pelas composições para piano, entre elas Gymnopédies (1888) e as Gnossiennes (1890). John Griffiths lembra que ele foi um dos “mestres” (embora controverso) de Claude Debussy, que o via como um “descobridor de novas possibilidades harmônicas”; de John Cage, que admirava seu pioneirismo e sua independência artística; e de Jean Cocteau, para quem Satie era um “fornecedor do vazio”. Para outros artistas, a importância de Erik Satie estaria em ter inserido um riso subversivo na música “séria”, o que lhe rendeu o apelido de Satierik.

A armadilha de Medusa é uma “comédia lírica em um ato”, cujas cenas são intercaladas por música do autor e dança de um macaco empalhado. Vindo de Satie, não se poderia imaginar uma peça sem música, muito menos se poderia pensar numa música comum dançada por um personagem ou figura quaisquer.

O pianista francês não compõe sua peça teatral com o fim de agradar burgueses respeitáveis: ao contrário, ‘A armadilha de Medusa’ mostra com lente de aumento o cotidiano de uma família alheia ao mundo a sua volta

O humor da obra teatral de Satie parece ter extraído inspiração do nonsense de Ubu rei (1896), do também francês Alfred Jarry (1873-1907). Como na referida obra, A armadilha de Medusa é considerada uma das precursoras do que viria a se chamar, nos anos 1960, “teatro do absurdo”. Seria, para muitos estudiosos, a antipeça de Eugène Ionesco (1909-1994) avant la lettre.

Não é difícil encontrar paralelos entre as antipeças de Ionesco e a peça de Satie: elas retratam um mundo burguês cercado de platitudes e lugares-comuns, cujos diálogos, longe de contar uma história com enredo bem montado, destacam a banalidade do cotidiano dos personagens. Assim se lê em A armadilha de Medusa:

MEDUSA:
Ora!… Ora!… Me parece que eu já te vi em algum lugar; num lugar conhecido… Perfeitamente.

ASTOLFO:
Onde seria, senhor?

MEDUSA:
Na borra do café… Eu a consulto frequentemente… Para me divertir. Eu gosto muito de café, sobretudo se ele é do bom. Ele estala sua língua. Quem o recomendou a mim?

ASTOLFO:
O general Póstumo, senhor.

MEDUSA:
Acabei de lhe telefonar. Que homem bondoso! Ele é a bondade em pessoa & faz tudo o que está em suas mãos. Um dia, em uma revista às tropas, um coronel apresenta-lhe um homem que ainda não foi punido. Com benevolência, o general interroga o soldado:
– Você nunca foi punido, meu amigo?
– É verdade, meu general.
– Eu vou dar-te uma: você terá trinta dias de prisão.
Aqui está um verdadeiro militar!… O senhor estava dizendo?

O ator e diretor Cabral com as três figuras de macacosFabiano Augusto

O ator e diretor Cabral e as figuras do espetáculo catarinense

No final do século XIX, diz Peter Gay, os heróis bons enfrentando vilões maus, a especulação financeira nas bolsas e as aventuras românticas dos novos-ricos forneciam os enredos aos dramaturgos, que, transformados em peças, governavam os palcos em quase toda parte. Erik Satie se vale curiosamente de enredo semelhante, na construção de A armadilha de Medusa, que tem como protagonista um barão de meia-tigela, não propriamente um novo-rico, mas certamente um burguês que se preocupa com suas finanças pessoais e com o casamento de sua filha Frisette.

A peça conta com quatro personagens centrais (o barão, sua filha, um criado e o noivo da filha do barão), além de um macaco empalhado.

Na montagem catarinense, coube a Márcio Cabral, que também assina direção geral, cenário e figurinos, o papel de barão Medusa. Cabral é um artista de múltiplos talentos; já o conhecia das respectivas funções e, agora, o vejo encenar com muita graça nonsense o atrapalhado e medroso Medusa. Tarefa bastante difícil, pois a peça é praticamente um monólogo desse personagem que tem que dizer, com toda naturalidade possível, frases disparatadas como essas que se multiplicam no texto:

MEDUSA:
Estou sozinho?… Bem sozinho?… Ele olha embaixo de todos os móveis & vai sentar-se na escrivaninha. Eu adoro a solidão, a tranquilidade. Qualquer coisa me incomoda. Os formigamentos nas tíbias me são energicamente insuportáveis; o soluço me incomoda bastante; as meias demasiado curtas obstruem facilmente meu cérebro & me deixam afônico – moralmente, é claro…
O que eu tenho sobre o nariz?… Que tonto: são meus óculos!… Meus óculos de ouro…
Ele folheia um livro enorme. Onde estava? … Vejamos… Cinco & três: onze… Eu coloco quatro & tenho seis… Dois & sete: dezoito…
É isso mesmo… Pensativo: Diabos!… Eu perco sessenta mil francos!…
Eu não entendo. Ele conta em voz baixa.
Lógico!… Eu ganho!… Eu ganho dois bilhões!… Bate na escrivaninha: Deve haver um erro… Um errinho só…
Do começo… Ele reconta baixo.
Lá se vão dois meses em que me dedico a esse negócio… E ele não vai para a frente… Por quê?… Estou precisando agir com mão de ferro… Mudando de ideia:
Meu administrador vai terminar este trabalho: estou com muita dor nos olhos… Minha visão está diminuindo.

Aliás, todos os papéis são complicados nessa peça, que exige uma total integração dos atores com a linguagem nonsense, a qual, para que seja bem-sucedida, precisa convencer o espectador de que aquilo que se está falando ou fazendo faz sentido, ainda que não tenha sentido nenhum… E os atores convenceram.

A música ao vivo ficou a cargo de Felipe Soares, que faz às vezes de Erik Satie. Soares não é um pianista profissional (professor de cinema da Universidade Federal de Santa Catarina), mas soube conduzir com cuidado e humor não só composições do músico francês como uma miscelânea de composições clássicas (toda vez que se falava no general Póstumo, por exemplo, ele tocava os primeiros acordes da marcha fúnebre de Beethoven), além de temas vindos da indústria cultural, o que muito tem a ver com as composições de Satie e sua música de mobiliário, “feita para satisfazer as necessidades ‘úteis’”, segundo seu criador.

O pianista Felipe Soares faz às vezes de Erik SatieFabiano Augusto

O músico Felipe Soares faz às vezes de Erik Satie

Nessa montagem de A armadilha, o macaco empalhado se multiplica: são três ao todo, que, quando param de dançar, sentam-se à beira do palco.

São mantidos os diálogos originais em tradução de Marina Bento, pesquisadora da obra de Erik Satie e justamente fruto de seu mestrado em estudos da tradução na UFSC, a ser publicado até o fim do ano pela Rafael Copetti Editor. A propósito, são de Marina as traduções dos fragmentos da peça citados aqui

Quanto ao cenário, ele é limpo, mas os objetos parecem bastante pesados, principalmente a imponente poltrona no melhor estilo rococó do barão Medusa, desproporcionalmente grande para o pequeno (em todos os sentidos) barão.

Há que se destacar que Satie não compõe sua peça com o fim de agradar burgueses respeitáveis: ao contrário, A armadilha de Medusa mostra com lente de aumento, para usar uma expressão do poeta franco-alemão Yvan Goll (1891-1950), o cotidiano de uma família burguesa, alheia ao mundo a sua volta, com preocupações banais que não extrapolam suas relações. Há diálogos de cunho político e não poderia ser diferente já que o empregado do barão é um sindicalista, que “luta por seus direitos” e não se intimida com a figura do nobre patrão, muito pelo contrário:

POLICARPO:
O senhor barão chamou?

MEDUSA:
Não, meu amigo… Creio que não… Eu não me recordo… Minha visão está diminuindo. Com um ar idiota.
Policarpo se aproxima misteriosamente do barão.

POLICARPO:
Sabe de uma coisa?… Preciso sair esta noite… EU PRECISO. Imperativamente: Você me ouve?

MEDUSA:
Intimidado:Esta noite?

POLICARPO:
Sim… Esta noite… Com uma voz cavernosa: EU PRECISO.

MEDUSA, aborrecido:
Esta noite?… Impossível: o general janta aqui… Aonde você vai?

POLICARPO:
Vou a um jogo de bilhar… Um baita jogo!… Napoleão estará lá… Aquele do bilhar, obviamente:… O VERDADEIRO.

MEDUSA, acreditando ter encontrado uma solução:
Você pode remarcar seu jogo para amanhã.

POLICARPO, cheio de desprezo:
Você é louco… Remarcar um jogo de bilhar!… Onde já se viu isso?… Saindo & levantando os braços ao céu: Se Napoleão te escutasse!…
Sai.

Muito oportunamente, o grupo se valeu de todos esses aspectos políticos para explorar a situação atual no Brasil. Não por acaso, parece-me, Policarpo, o criado barbudo e orelhudo, fala com a língua presa, lava dinheiro e o esfrega numa tábua de lavar roupa no fundo do palco. Já a frívola e leviana Frisette bate panelas sem perder a pose entre uma selfie e outra.

A armadilha de Medusa estreou com o teatro Pedro Ivo cheio, mais de 500 espectadores foram conferir as peripécias do barão e sua trupe. O sul, terra de Qorpo Santo, parece mesmo gostar do inusitado.

Serviço:
A armadilha de Medusa
Onde: Departamento Artístico e Cultural da UFSC, DAC (Rua Desembargador Vítor Lima, 117, Trindade, Florianópolis, tel. 48 3721-3853)
Quando: 5 e 6/11, sábado e domingo, às 20h
Quanto: gratuito
Duração: 77 minutos
Classificação: 16 anos

Ficha técnica:
Autoria: Erik Satie
Direção: Márcio Cabral
Com: Márcio Cabral (barão Medusa), Lorenzo Lombardi (Policarpo), Marina Bento (Frisette), Gabriel Guaraciaba (Astolfo), Felipe Soares (Pianista /Erik Satie), Willian Mario, Ana Elisa Chagas e Ana Bárbara Zanella (Macacos), Paula Scheidt, André Zacchi e Robson Esteves Daniel (Cavalos)
Assistentes de direção: Marina Bento e Willian Mario
Coreografia: Paula Dias
Cenário e figurino: Márcio Cabral
Iluminação: Gabriel Goedert
Tradução do texto: Marina Bento
Realização: Elefants Companhia de Teatro