Kiko Marques reapresenta em Sínthia recursos formais experimentados no belo Cais ou Da indiferença das embarcações (2012). Ali já era perceptível a ambição que vai notabilizando o ator e diretor também como um dramaturgo importante na cena de São Paulo. Naquele espetáculo já se desenhava com rigor mais que razoável algumas coordenadas que talvez possam demarcar escolhas e características de estilo: o gosto por visitar o repertório dos temas familiares à luz de contextos mais amplos que a família e o exercício de transitar, nas tramas, pela história de diferentes gerações – o que vem resultando uma dramaturgia felizmente fora do padrão apressado da época, em que as plateias mal suportam uma peça de hora e meia.

Agora o arco da ação parte da história familiar para um painel ainda mais ampliado que o comunitário. É retrato de época em um trajeto que vai dos anos da ditadura (e um pouco antes) aos tempos atuais.  São vários os núcleos dramáticos, com dois pontos centrais de sustentação: a história de Maria Aparecida (representada em dois tempos, por Denise Weinberg e Alejandra Sampaio), mulher de ex-militar que serviu à ditadura (Henrique Schafer) e mãe de filhos todos homens (interpretados por Marcelo Diaz, Willians Mezzacapa e Marcelo Marothy). Ela mesma tornada o ânimo, o masculino da casa quando fora necessário substituir o marido. E espectadora de um desejo frustrado: o nascimento de uma filha (“Cíntia” era o nome pré-escolhido), que não vem, nascendo Vicente (Kiko Marques), o segundo ponto de fuga da peça. Compositor, personagem fora da curva na trajetória média familiar, casado com Nôra (Virgínia Buckowski) e tutor de Conrado (Valmir Sant’anna), jovem pobre que tenta se afirmar como músico.

Fazer o encontro entre subjetividade e sociabilidade em um mesmo movimento é uma bela tarefa artística

Sínthia é um espetáculo justo em pelo menos dois sentidos: no sentido estético, estritamente, mas também no sentido político. No estético porque equilibra, em geral com ótimo efeito, os recursos do teatro dramático aos princípios da narrativa. O bonito está na justeza da composição bem arranjada. A narrativa dá conta de suportar o trânsito entre épocas, entre o passado e o presente. Oportuniza a visada mais ampla sobre a convivência coletiva desde os anos 60 (e antes) até agora, alcançando o que poderíamos chamar um “imaginário da ditadura” e fazendo a avaliação, sob certo ponto de vista, das suas sequelas tanto no plano histórico como no da vida íntima.

Do repertório do drama vêm as soluções para que essa discussão sobre o que fomos e o que somos hoje possa ser representada em termos de conflitos interpessoais, familiares, no ambiente da vida privada, na trajetória singular de cada personagem. Mas de uma forma em que a singularidade reflete, comenta de modo próprio, o plano geral. Fazer o encontro entre subjetividade e sociabilidade em um mesmo movimento é uma bela tarefa artística. E a maneira como a montagem articula estas duas frentes, no desenho da trama e nas soluções de linguagem, é uma maneira, pode-se dizer, justa, bem medida.  Os teatros do eu também são os teatros do mundo, e vice-versa.

Kiko Marques, autor e ator: gosto por visitar repertório familiar à luz de contextos mais amplosLenise Pinheiro

Kiko Marques, autor e ator: repertório familiar à luz de contextos mais amplos

O segundo aspecto tem a ver com a escolha dos assuntos, no contraste com a história recente do teatro brasileiro. Diferentemente do que acontece em países latinos vizinhos como o Chile e a Argentina a nossa ressaca à ditadura foi longa demais nos palcos (em certa medida, segue sendo). De uma maneira que houve em geral clara recusa, nos momentos pós-abertura, de fazer do período um tema rotineiro. Os anos de neoliberalismo da sequência ajudaram a reforçar, em termos que se tornaram quase ideológicos, a aversão a todo teatro que tentasse se aproximar mais deliberadamente das realidades do país e das suas feridas então recentes. A própria crítica se encarregou de discernir a cena “artística” de uma cena classificada a priori como panfletária sempre que se interessasse em investigar temas frontais à vida social. Por isso, a Velha Companhia, ao fazer desses assuntos motivo para uma obra artisticamente inatacável é outra forma de elaborar o justo. Sem que seja preciso o levantamento de nenhuma bandeira ou a tomada de posições inequívocas, mas também sem medo de enfrentar a conjuntura, a política está lá, tão visível quanto a estética.

O lado torto

Apesar da forma como o espetáculo vem sendo anunciado e repercutido, vai se frustrar quem for ao teatro pensando em uma discussão vertical sobre transgeneridade, no sentido da apresentação estrita de uma demanda comportamental (e se fosse assim também seria justo). Sínthia é na verdade, salvo engano, sobre expectativas contrariadas, projetos pessoais interrompidos, assim como o projeto histórico. Quando Vicente recoloca a fantasia em jogo e volta para casa vestido de mulher, como a mãe queria, o que se tem talvez mais evidente do que a discussão sobre gêneros é o conserto/concerto poético não só da trajetória íntima como, talvez, do quadro social, que segue alquebrada, como sempre tem sido, mas que ali naquela zona momentânea de desobediência encontra um lugar consequente para operar, para tentar acertar-se consigo e com o outro. O artifício do gênero serve, pois, mais ao plano simbólico do que ao factual. E como símbolo é mais forte: arrasta consigo não só a questão pessoal como também a condição histórica do diferente, do que foge à ordem.

E visto assim o personagem está, paradoxalmente, do mesmo lado “torto” do pai. Porque a peça é também sobre um pai, militar, mas poeta antes da farda. Um homem cuja subjetividade é esmagada sob as ordens do regime, a ponto de criar na alienação da insensatez um espaço próprio, insondável, para a expiação das culpas. E então falamos sobre como podem reagir, diferentemente, os criadores, os que não cabem, os inconformados (aqueles que se recusam à forma esperada), no mundo em que tudo tende a ser oferecido como mercadoria, tudo tem seu lugar e função – ontem e, precisamente, hoje. É sobre uma sociedade que só reconhece a diferença quando esta vem na condição de celebridade, mas não nas malhas da vida ordinária.  E sobre a própria arte em um meio que acusa repetidamente seus artistas, os toma por vagabundos. E assassina seus poetas, os levando ao suicídio ou ao autoexílio. O corte fundamental entre o pai militar e o filho, artista-homem-mulher, é que o segundo assume – e paga por ocupar – o lugar da transgressão enquanto o outro se deixa enquadrar categoricamente ao colaborar com o regime da violência institucional tanto quanto da violência a si mesmo, a ponto de enlouquecer.

Sínthia trata de planos contrariados e projetos históricos interrompidosLenise Pinheiro

Denise Weinberg é a matriarca: peça tangencia projetos históricos interrompidos

Então a discussão sobre estes gêneros em trânsito a partir desta Sínthia inventada alcançam todas as demais relações de anulação ou confronto entre vocação e contingência, entre beleza e dinheiro, entre ordem e ruptura, mando e desobediência. Relações que desenham o centro nevrálgico da dramaturgia, em geral com clara crítica aos modos como nossas vidas vêm sendo disciplinadas e violentadas, sob regimes de exceção ou não. É a mesma disciplina que sufoca o talento e  arrasta a vitalidade do sujeito para o espaço mesquinho de um acerto de contas com a existência em que o parecer e o ter são mais  importantes  que o ser. Quanto a isso podemos tomar a montagem também como o exercício de uma dialética muito interessante. O espetáculo faz a avaliação em todas essas frentes, denunciando a regra que mata, ao mesmo tempo em que o trabalho de luto por essa morte é, ao fim e ao cabo, uma afirmação de vida: há uma reafirmada mobilização da poesia em favor das escolhas tortas. E, melhor, isso não se dá de forma meramente retórica e sim através dos artifícios formais da própria representação.

Cenografia e luz, por exemplo (respectivamente de Chris Aizner e Marisa Bentivegna), em que pese a expectativa de figuração naturalista devido ao amplo painel de espaços e tempos que a dramaturgia visita, são dedicadas aos símbolos essenciais. Na cenografia, utensílios domésticos, cadeiras, panos e mesas desdobram significados durante a encenação. A iluminação usa os “claro-escuro” e o jogo de contrastes que acompanha com recortes sugestivos o desenvolvimento da narrativa. A compensação a essa economia concentrada vem, não por acaso, na trilha original pensada por Tadeu Mallaman. É o elemento menos material e ao mesmo tempo dos mais presentes, que pontua por si o andamento do espetáculo e, muitas vezes, os estados das personagens.  Uma “Sinfonia da compaixão” que se avoluma, veremos ao final, desde o primeiro momento da representação.

Alejandra Sampaio e Henrique Schafer: Utensílios domésticos desdobram significados Lenise Pinheiro

Alejandra Sampaio e Henrique Schafer: objetos cênicos desdobram significados

Em que se note, no conjunto, o bom elenco, é um espetáculo com domínio das atrizes. Isso se deve primeiro à dramaturgia. Exceção feita a Vicente e, acidentalmente, ao jovem Conrado, os outros personagens masculinos são mais apoios para o drama central de Maria Aparecida. Mesmo Luiz Mário, o militar, e sua história anunciadamente dramática, não tem a mesma verticalidade e os mesmos contrastes vivos construídos naquela ou em Nôra. O fato é que esse esteio da peça a partir do feminino encontra intérpretes à altura. Virgínia Buckowski segue bem tanto na vitalidade inconsequente da neta (Ana) quanto na rodriguiana mulher de Vicente e sua atormentada dor em torno da sexualidade, dela e do marido. Alejandra Sampaio dispõe energia para transitar sempre potente entre as passagens da primeira Maria Aparecida, da expectativa juvenil dos primeiros anos até a transição para a frustração da gravidez e o preparo para o enfrentamento da tragédia cotidiana. Denise Weinberg faz da mesma personagem, mais velha, motivo para um trabalho de verossimilhança e inteireza, com dedicada atenção aos estados, mas conduzindo as mudanças de comportamento (e as idas e vindas aos diferentes momentos da ação) com a paciência e a intensidade das veteranas. E sem perder o prumo da composição é capaz de nos fazer ver, em ato, a maneira como a intérprete, aqui e ali, olha criticamente a personagem. É muito bonito ver uma atriz com tamanha fé no teatro, mas também com absoluto domínio dos seus meios.

Cena e realidade

Kiko Marques, como dramaturgo da sua Velha Companhia, responde a paralelo na história da cena moderna brasileira e dialoga com autores como Vianinha e Jorge Andrade. O primeiro através do cotejamento entre vida íntima, conteúdos parcialmente autobiográficos e processo social. Uma aproximação com Andrade talvez vá mais longe. Passaria, claro, também pela inspiração em trajetórias pessoais e familiares. E quanto aos achados formais, passaria pelo arco estendido, ampliado da ação, em tempos e espaços diferentes – o que demanda aqueles recursos a gêneros variados na escrita dramatúrgica. Passaria também pelo olhar sensível ao desencontro entre pais e filhos, seus lugares de classe e expectativas de futuro. Por exemplo, a quebra da expectativa provocada por Vicente em Maria Aparecida – essa mãe que desejava uma filha e, depois, um filho “normal”, que não dependesse do dinheiro alheio e tivesse um carro decente –, não deixa de refletir a seu modo a posição do homônimo Vicente de Rasto atrás, ele também um desalinhado, a cria cuja visão de mundo desafia os padrões regulares de comportamento do pai. Mas há uma diferença essencial. O Vicente de Andrade, escritor, artista, é um vencedor. A sociedade e posteriormente a família o reconhecem como tal, no quadro que a peça desenha pelas bordas e que foi tema de vários escritos do autor: a decadência da aristocracia rural paulista.  Já o Vicente de Kiko Marques é, aos olhos de toda a família, um loser, sob muitos aspectos. É um idealista. Mas, sob o ponto de vista da produtividade valorizada pela época, um idealista perdedor. Alguém que aos olhos da família optou por uma vida de ordem inexplicável porque não tributária do dinheiro e sim da vocação e da liberdade.  Este é um dado que está no campo da ficção, mas certamente pode ser entendido como mudança de valor no raio mais amplo, extraficcional, da nossa sociabilidade.

Marcelo Diaz e Alejandra Sampaio: discussão sobre lugares de classe não é acidentalLenise Pinheiro

Marcelo Diaz e Alejandra Sampaio: discussão sobre lugares de classe não é acidental

A esta altura da história do país, em que vivemos um momento delicado e de impasse da democracia e da justiça social, o tema dos que estão dentro ou fora do sistema não pode deixar de remeter a uma intuição que a peça também traz. O personagem Conrado é precisamente o não pertencido que tenta pertencer ao sistema. E o faz por esse caminho já difícil da arte, para ele interditado inclusive pelos parceiros de condição, que em tese os deveriam amparar. Ali, além do lance trágico pessoal, a peça talvez esteja intuindo também a fechada de porta que agora vivemos no lugar extraficcional. Nesse sentido a embrionária discussão sobre acesso e lugares de classe que o espetáculo aponta não deve ser vista como algo acidental. É sem dúvida umas das percepções críticas centrais no diálogo que a dramaturgia estabelece, a seu modo, entre a cena e o seu contexto. Sínthia não é um belo espetáculo “apesar” disso. É belo trabalho também por isso, porque assimila em estética uma discussão ética urgente. Tão importante quanto os desempenhos e os achados formais aqui descritos, a beleza também pode estar nesta urgência, traduzida em linguagem poética, diante do real.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

.:. Leia a crítica de Maria Eugênia de Menezes a partir de Sínthia.

Serviço:
Sínthia
Onde: Espaço dos Fofos (Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista, São Paulo, tel. 11 3101-6640)
Quando: Sábado, domingo e segunda-feira, às 20h. Reestreia dia 22/10. Até 13/11
Quanto: R$ 20 e R$ 40

Ficha técnica:
Autoria e direção: Kiko Marques
Com: Denise Weinberg, Henrique Schafer, Alejandra Sampaio, Virgínia Buckowski, Kiko Marques, Marcelo Diaz, Willians Mezzacapa, Marcelo Marothy e Valmir Sant’anna
Diretora de produção: Patricia Gordo
Cenografia: Chris Aizner
Desenho de luz: Marisa Bentivegna
Figurinos: Fábio Namatame
Direção musical e trilha original: Tadeu Mallaman
Preparação e desenho de movimento: Fabrício Licursi
Consultora vocal: Fernanda Maia
Assistente de direção: Mateus Menezes
Consultor histórico: Ricardo Cardoso
Consultor artístico: Bruno Meneguetti
Assistente no processo dramatúrgico: Cristina Cavalcanti
Colaboradores do processo dramatúrgico: Marcelo Laham e Maurício de Barros
Fotografia: Lenise Pinheiro
Assessoria de imprensa: Morente Forte
Design gráfico: Fabrício Santos
Assistente de produção: Lívia Ziotti
Diretor de palco: Fábio Mráz
Assistente de figurino: Juliano Lopes
Assistente de iluminação e operador de Luz: Jean Marcel
Operadora de som: Carol Andrade
Cenotécnico: Mateus Fiorentino
Quarteto de cordas: violino (Mica Marcondes), violino (Alice Bevilaqua), viola (Elisa Monteiro) e cello (Vana Bock)
Técnico de gravação e mixagem: Gabriel Spazziani
Produtor técnico do estúdio: Ricardo Martins
Piano: Jonas Dantas
Consultoria musical: Fernando Martin
Palestrantes da pesquisa: Jo Clifford, Marcos Napolitano, Maurício Cardoso, Amelinha Teles, Mariana Rosell, Cecília Heredia e Ricardo Cardoso
Produção geral: Velha Companhia