Sarah Kane (1971-1999) certa vez escreveu que frequentemente saía do teatro antes do fim, mas nunca fazia o mesmo em um jogo de futebol porque nunca se sabe quando um milagre pode acontecer. A venerada dramaturga inglesa julgava a performance muito mais interessante do que a atuação, mas sua noção não era a do conceito-fetiche da cena contemporânea. Performance, para ela, era uma partida do craque David Beckham ou um show da banda Jesus and Mary Chain, para citar duas de suas preferências. Essa é a autora homenageada pela companhia gaúcha Teatrofídico no espetáculo Cadarço de sapato ou ninguém está acima da redenção, que estreou no início de 2015 e teve novas sessões em setembro último no 23º Porto Alegre Em Cena.

Kane acreditava em um teatro no qual, a qualquer momento, algo pudesse acontecer. Quem saísse na metade de Blasted (Ruínas), sua primeira peça, perderia a improvável invasão de um soldado com um rifle de sniper no luxuoso quarto de hotel de Leeds (mas que poderia ser em qualquer lugar do mundo, como anotou a autora) no qual estão o quarentão Ian e a jovem Cate. Ou a surpreendente explosão de uma bomba, o que ocorre logo a seguir.

Este é o mais potente trabalho do Teatrofídico em muitos anos. Marca, na trajetória da companhia, uma evolução semelhante àquela observada na obra de Kane, de um teatro dramático em direção ao pós-dramático

O jornal Daily Mail classificou Blasted, após sua estreia em 1995, como “um desagradável festim de imundície”. Nem todas as críticas foram negativas, mas a incompreensão acompanhou Kane na trajetória de apenas quatro anos entre a primeira peça e o suicídio, aos 28 anos. A obra genial e a biografia marcada pelas constantes crises de depressão conferiram à autora certa aura romântica à moda de um encontro entre Os sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, com o teatro pós-moderno. Sarah Kane era isso e muito mais.

Entre os méritos de Cadarço de sapato… está a compreensão de que o papel da esperança em sua obra nunca está realmente claro. O dramaturgo Mark Ravenhill, que foi amigo de Kane, afirmou que é um equívoco ler sua última peça, 4.48 Psychosis (Psicose 4.48), como um bilhete suicida, pois no momento da escrita ela ainda não sabia o que escolheria: a urgência da ordem ou a necessidade de autodestruição.

Espetáculo tem ganho de fisicalidadeAndrea Cocolichio

Espetáculo tem ganho de fisicalidade

Em seu tributo cênico, o Teatrofídico e o diretor Eduardo Kraemer emulam a estrutura de Crave (Ânsia ou Falta, dependendo da tradução), na qual Kane situa três personas identificadas apenas como C, M, B e A. O grupo pinçou trechos da produção da autora e os combinou com textos criados pelos próprios atores, procedimento que provavelmente ganharia a aprovação dela ao colocar em xeque a ideia de pureza e, ao mesmo tempo, consagrá-la. Durante pouco mais de uma hora, Renato Del Campão, Rejane Meneguetti, Jairo Klein, Adriana Lampert, Gustavo Razzera e Aline Szpakowski exercem a função não de personagens em uma dramaturgia, mas de figuras que gravitam em torno da obra de Sarah Kane – e de suas próprias vozes – como se corpo e texto fossem parte indissociável um do outro. O corpo vira texto ou vice-versa?

Este é o mais potente trabalho do Teatrofídico em muitos anos. Marca, na trajetória da companhia, uma evolução semelhante àquela observada na obra de Kane, de um teatro dramático em direção ao pós-dramático. Na sucessão de suas cinco peças, está clara a diluição de personagens bem construídos (Blasted) em uma voz ou vozes soltas no tempo e no espaço (Psicose 4.48).

Conhecido por suas montagens de autores como Tennessee Williams, Nelson Rodrigues e Roberto Athayde, o grupo reforça a fisicalidade como elemento catalisador da dramaturgia. Em depoimento ao jornal Zero Hora por ocasião da estreia, em 2015, o diretor Eduardo Kraemer observou: “Sempre tivemos como característica a oralidade, mas gosto muito do trabalho físico. Agora, estamos no meio do caminho. Ainda quero mais fisicalidade”. O esforço valeu o Prêmio Açorianos de direção (Kraemer), ator (Del Campão) e cenografia (Alexandre Navarro), além de outro troféu de melhor direção no 11º Prêmio Braskem Em Cena, dedicado às produções locais do Porto Alegre Em Cena.

Grupo compreendeu que papel da esperança nunca está claro na obra de Sarah KaneAndrea Cocolichio

Papel da esperança nunca está realmente claro na obra de Sarah Kane

Um perigo recorrente na interpretação das peças de Kane é confundir obra e vida, risco que o Teatrofídico escolhe correr. A companhia não foge do desafio de desconstruir as fronteiras da identidade. Quem está falando é Sarah Kane ou uma personagem? Uma personagem ou uma persona? Uma persona ou múltiplas vozes? São questões evocadas desde o início, quando os atores estão com as cabeças cobertas por sacos de papelão estampados com suas próprias fotos.

Os espectadores não são poupados de alguns dos trechos mais brutais das obras da autora, como a sequência de Blasted em que o Soldado estupra Ian e depois extrai seus globos oculares com a boca. Se há algo que ainda choca o público, esse algo é o teatro de Sarah Kane. Mas o significado da violência em sua obra ainda é motivo de exegese. É como se, por meio do que há de mais cruel no ser humano, estes personagens fossem submetidos a uma experiência que não teriam de outra forma, assim como em uma das Breves entrevistas com homens hediondos de David Foster Wallace.

Espectadores não são poupados de trechos brutais da obraAndrea Cocolichio

Espectadores não são poupados de trechos brutais da obra

Partindo de reflexões sobre a vivência do terapeuta Viktor Frankl no Holocausto nazista, o narrador de Wallace observa que mesmo a violência mais abjeta pode revelar a uma pessoa algo que ela não sabia antes, um novo dado sobre a condição humana. Frankl provavelmente diagnosticaria Kane com um “vazio existencial”. Mas, enquanto o terapeuta a encorajaria a buscar o sentido da existência, ela (pós-moderna que era) jamais acreditaria no sentido do que quer que fosse.

A questão passa a ser como viver nesse vazio. Para o crítico de teatro inglês Michael Billington, Kane tinha, mais do que seus contemporâneos, “uma consciência profética de nosso mundo moderno assombrado pelo terror”. Escrevendo em 2005, no jornal The Guardian, ele previu que a próxima geração de profissionais do teatro “entenderá intuitivamente seu humor negro e sua agonia romântica”.

Desafiando seus próprios limites, o Teatrofídico construiu, ou melhor, desconstruiu uma homenagem que faz jus ao legado de Kane. As personas evocadas em cenas multifocais, simultâneas e descontínuas, falam sobre amor, pureza, sexo, redenção, violência e morte. Embora haja um começo e um desfecho, nada no meio parece obedecer a qualquer tipo de sentido nos termos que Viktor Frankl desejaria. Mas assim é a vida, essa estranha performance que se passa entre o nascimento e a morte. Nela, um milagre pode acontecer a qualquer momento. Por via das dúvidas, é melhor não deixar a sala de espetáculo antes do fim.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

Ficha técnica:
Autoria: criação coletiva, livremente inspirada na dramaturgia de Sarah Kane
Direção, trilha sonora, projeção e iluminação: Eduardo Kraemer
Com: Renato Del Campão, Rejane Meneguetti, Jairo Klein, Adriana Lampert, Gustavo Razzera e Aline Szpakowski
Cenografia: Alexandre Navarro
Figurino: alunos do curso de moda da Feevale, coordenados pela professora Ana Hoffmann
Produção: Cia. Teatrofídico