O espetáculo Mateluna, escrito e dirigido por Guillermo Calderón e apresentado no MITsp, constrói pontos de aproximação entre o espírito revolucionário latino-americano durante as ditaduras militares nas décadas de 70 e 80 e os modos de resistir ao estado de coisas atual. Para tanto, o grupo de seis atores se detém em uma narrativa prismática sobre um personagem real: o ex-guerrilheiro chileno Jorge Mateluna, com quem o elenco manteve contato durante a criação do espetáculo Escuela (2013).

O cenário é simples e cru: uma tela a cobrir todo o fundo do palco, um projetor, cadeiras em volta de uma mesa, dois computadores e um violão. A cena inicial é conduzida pela narradora que, consciente de seu papel como atriz (Francisca Lewin) e personagem, informa a plateia a respeito das motivações que levaram o grupo a criar a obra em questão. Tomamos conhecimento de que Mateluna auxiliou o grupo durante o processo de elaboração de Escuela através de relatos sobre seu envolvimento como militante da Frente Patriotico Manuel Rodríguez, uma organização surgida do Partido Comunista do Chile (PCCh) que lutava contra o governo Pinochet. Naquele momento, Calderón estava interessado em investigar a existência de escolas clandestinas que defendiam a via armada no Chile como principal tática de resistência ao contexto ditatorial nos anos 80.

Os diálogos do chileno Guillermo Calderón em ‘Mateluna’ são permeados pela armadilha da abstração e traçam um percurso espelhar. Como o teatro poderia apreender e modificar a realidade extrapolando o terreno da ficção através dela mesma?

Logo após tal envolvimento com o elenco e poucos meses depois da estreia, Jorge Mateluna é preso e condenado a 16 anos por assalto a banco. A atriz e personagem narradora conta o sucedido com uma máscara de guerrilheira – uma camiseta amarrada à cabeça. Além disso, ela atesta não haver dúvidas sobre o participação desse protagonista fantasmagórico no crime. Afinal, o assalto a banco não deixava de ser algo, em essência, revolucionário e coerente com a luta de Mateluna.

Somos, a partir daí, conduzidos a cenas que, aparentemente, têm a intenção de nortear o espectador em direção aos objetivos do espetáculo. No entanto, a exposição do processo de montagem, de seleção de vídeos e de caracterização de personagens dentro do palco revelam a inevitabilidade do ponto de vista e do recorte ideológico. A pergunta é: como transpor um material documental aos palcos de forma que fique clara a relevância desse protagonista, cuja fala foi reduzida violentamente ao completo silêncio?

A experiência individual ganha, a partir daí, contornos coletivos: o vídeo que expõe jovens militantes atestando a inviabilidade da guerrilha no Chile recebe outra camada de enunciação no momento em que os atores no palco colocam-se à frente da tela a discorrer sobre os motivos que levaram ao desmonte da esquerda armada – a depressão, responsável por fazer com que uma personagem se sentisse impelida a atirar contra si mesma; a crença alucinada em poder encarnar de maneira artificial o líder indiano Mahatma Gandhi e o trauma do luto. A ironia desses sentimentos tão individuais, que gera inclusive o riso desconcertado da plateia, também é reveladora da paralisia melancólica a enredar a nós todos em meio ao eufórico reggaeton.

Ao fim do primeiro ato, somos levados a uma “sala segura” como todas as outras, na qual Bertolt Brecht discute quais seriam os melhores caminhos para a escrita de uma peça de teatro sobre a Guerra Civil Espanhola. Os diálogos rápidos, entrecortados e fragmentados são permeados pela armadilha da abstração e, por isso, traçam um percurso espelhar no próprio espetáculo de Calderón. Estaríamos discutindo formas simbólicas possíveis de atuar dialeticamente na esfera social? Como o teatro poderia, por fim, apreender e modificar a realidade, extrapolando o terreno da ficção através dela mesma?

Felipe Fredes/Fundación Santiago a Mil

Sob cenário simples e cru, ‘Mateluna’ é narrativa prismática sobre ex-guerrilheiro

Talvez a resposta seja sugerida somente durante o segundo ato. Nele, Jorge Mateluna é, enfim, exposto como uma criação ficcional. Não seria o revolucionário ainda detentor do ímpeto anticapitalista de assaltar bancos, mas uma vítima amordaçada pela hegemonia social.

São exibidos vídeos reais contendo o “erro ensaiado” da polícia e dos investigadores na detenção do ex-guerrilheiro. Passivamente, assistimos ao aprisionamento arbitrário de um sujeito nunca reconhecido por testemunha alguma. E a narrativa inicial demonstra sua incompletude tal como o processo que guiava o protagonismo de jovens militantes nas décadas de 70 e 80 na América Latina. Jorge Mateluna é inocente. Jorge Mateluna é condenado a uma pena de 16 anos. Jorge Mateluna é compulsoriamente impotente.

Se a história é construída por representações, por códigos e principalmente pela linguagem como defendem os pós-modernos, seus efeitos continuam sendo os mais perversos e materiais. Não só representamos o mundo, mas o vivemos cotidianamente. E talvez a melhor forma de potencializar a materialidade da história seja através de uma construção simbólica que exponha as camadas do real. Mateluna assume essa difícil tarefa.

Ao final do espetáculo, estudantes secundaristas invadiram o teatro João Caetano com o propósito de cantar suas mais importantes reivindicações [fruto da ação pedagógica “Atos de resistência II”, intercâmbio criativo sob orientação da atriz e performer Martha Kiss Perrone]. O paralelismo existente entre a obra e nossa situação política não deixa espaços para devaneios.Teremos que realizar, como já nos ensinou Brecht, uma luta diária contra o antigo.

Equipe de criação:

Direção e dramaturgia: Guillermo Calderón

Com: María Paz González, Camila González, Carlos Ugarte, Luis Cerda, Andrea Giadach e Francisca Lewin

Design: Loreto Martínez

Assistência de direção e produção: Ximena Sánchez

Coprodução: Hau Hebbel Am Ufer, Berlim; Teatro Maria Matos, Lisboa; e Fundación Teatro a Mil, Santiago