O ascensorista de Refluxo, Dário, pode ser lido como uma síntese do camponês e do guarda da parábola Diante da lei, que Franz Kafka escreve na forma de conto e depois incorpora ao romance O processo. Ao transcrever a obra ao cinema, Orson Wells transformou a parábola em prólogo. A voz do próprio diretor e roteirista sobrepõe-se aos desenhos estáticos, de traços expressionistas, que mostram a arquitetura do que se presume um castelo, metáfora do sistema judiciário em suas portas, salas, corredores.

Esse diálogo de surdos entre o guarda que não dá passagem e o homem do campo que quer entrar – ele espreita, mas não demonstra convicção, postando-se ali por anos a fio, até a velhice – lembra a lógica de pesadelo por trás do protagonista da peça de Angela Ribeiro. O padecimento de Dário é por não conseguir sair do micro-habitat involuntário a que se resumiu seu mundo entre aquelas paredes do elevador, entre nove andares, descontados subsolo, térreo e terraço. O personagem é onisciente na narrativa vertical, em todos os sentidos, encenada por Eric Lenate, produção mais recente do Núcleo de Dramaturgia Sesi-British Council, em São Paulo.

A objetividade com que Eric Lenate trata os devaneios, as vertigens e as excrescências que jorram de ‘Refluxo’, peça sobre as formas de violência naturalizadas, constitui o alicerce poético em termos de linguagem

Assim como o guarda da parábola que, com o passar dos anos, conhece até as pulgas do puído colarinho do camponês, Dário sabe associar a outros seres vivos as práticas, atitudes e discursos selvagens dos moradores e frequentadores do edifício residencial onde trabalha. Na ausência de alteridade, posto que o homem que opera o elevador é invisível em sua condição de classe – horizontal só quando convém às carências do síndico e dos patrões indiretos –, a autora busca no cruzamento da animalidade com a humanidade o mal-estar dos níveis incivilizados das relações interpessoais na vida urbana.

Alusões a cavalo, cachorro e pássaro, entre outros, não têm o reducionismo da comparação humana com os bichos, que costuma inferiorizá-los, ainda que surjam patadas e patacoadas aqui e ali. As analogias do texto, ao contrário, são pontes firmes para os processos de desumanização, a crueldade dos dias, sem que a escrita abdique da guarida poética de imagens que soam como primas do universo de Manoel de Barros em estalos úmidos, ásperos, sonoros, faiscantes.

A angústia de Dário está em conhecer todos os porquês desses homens e dessas mulheres que fracassam em todos os planos da existência. Ele é para-raio dos queixumes, ódios, solidões, sopapos. E tem que se haver com os próprios limites traduzidos na contorção do corpo, recorrente, e na ânsia que não cessa. Mauricio de Barros encarna o homem franzino, de ascendência que poderia ser nordestina ou nortista, como a maioria daqueles que presta serviço em portarias de condomínios. O ator não abusa do sotaque e torna mais complexa a percepção desse subalterno da classe média, anti-herói que expõe as vísceras, recolhe as alheias e não está ali para julgar ninguém.

Leekyung Kim

Lavínia Pannunzio é Diva em ‘Refluxo’, texto de Angela Ribeiro

Na plataforma de sobe e desce de histórias, a dramaturgia ambienta espaços e tempos correspondentes às estações. A cada andar embarca ou desembarca uma célula da narrativa intercalada pelo diálogo interior do ascensorista, fluxo inconsciente de estados absurdos que não ficam atrás das situações que testemunha no ambiente. Na leitura do texto, são curiosos os qualificativos empregados para cada personagem, exceção a uma menina que flerta com um menino morador do local e Dário, que é o que há: ascensorista, ponto.

A fauna de tipos é composta da Cantora de Churrascaria, a Diva que quase nunca para no prédio (por Lavínia Pannunzio); da Senhora Fina, Dona Cleide (Patricia Vilela), ex-mulher do Escritor Desempregado, Seu Túlio (Laerte Késsimos); da Avó que Cria Peixes, Dona Corina (Agnes Zuliani), ansiosa pela visita de um filho que nunca vem; da Menina da Internet, Helena (Sheila Faermann), a única que não vive ali e é pretendente de Leon, Aspirante a Skatista (Felipe Ramos), filho de Cleide e Túlio; e do Síndico Faz Anos, Seu Abreu (Carlos Morelli), que quase nunca sai do prédio.

Diante da circularidade dos fios de vida desencapados, a encenação de Eric Lenate adota o estilo seco de observação do cotidiano. A objetividade com que trata os devaneios, as vertigens e as excrescências que jorram da peça sobre as formas de violência naturalizadas constitui o alicerce poético em termos de linguagem.

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Agnes Zuliani contrapõe sua presença com a inação na montagem de Eric Lenate

Revelam-se particularmente engenhosos o modo como embarca o público numa viagem sensorial, na “antecâmara” do espetáculo – instalação cenográfica também concebida por ele – e estiliza as atuações em registro cômico limítrofe com o drama que aos poucos sedimenta o ambiente ficcional. Ação, movimento, voz e visagismo (técnica de caracterização do rosto) harmonizam seres isolados e indiferentes, feito aqueles desenhados por Will Eisner em seus quadrinhos, conforme a Armazém Companhia de Teatro tão bem recortou em Pessoas invisíveis (2002).

As atuações de Lavínia, Késsimos, Agnes e Morelli são mais contundentes quanto aos personagens expansivos ou introvertidos, em pontos de inércia e de abismo. Impactam as suas máscaras e caras de pau. A deformidade moral assentam bem nas fisionomias. Em contraste, Barros somatiza o entorno degradante. Seu Dário arqueia, comprime o peito, vomita. Vê o inferno consumir a todos no entorno. A árvore caída na entrada do edifício já prenunciava “uma selva tenebrosa”, tal qual aquela que Dante se depara no início d’A divina comédia. No livro, a passagem pelo inferno dura 251 páginas. Em Refluxo, a descida ao subsolo do subsolo leva cerca de 90 minutos. O desencanto regurgita na cidade.

Os seres fantasmais e rancorosos delineados não escamoteiam o lirismo renitente da dramaturga. A indignação irrompe em outras superfícies e entranhas, no que Lenate também dá vazão em seu pragmatismo de cena no “projeto de provocação” Sociedade Líquida, como prefere a coletivo, grupo ou companhia. Da brutalidade dos diálogos e circunstâncias, divisa-se a escala do demasiado humano que a autora denota em seus escritos junto a sua Cia. Bruta de Arte, cuja temporada de Quantos segundos dura uma nuvem de poeira encerra-se esta semana na SP Escola de Teatro.

Serviço:

Refluxo

Quando: Quarta a sábado, às 20h30; domingo, às 19h30

Onde: Centro Cultural Fiesp – Mezanino (Avenida Paulista, 1.313, em frente à estação Trianon-Masp do metrô)

Quanto: Grátis. Reservas antecipadas de ingressos para as sessões realizadas entre os dias 1º e 15 de cada mês devem ser realizadas pelo portal Meu Sesi, a partir do dia 25 do mês anterior. Para as sessões realizadas entre os dias 16 e 31, as reservas têm início no dia 10 do mesmo mês, a partir das 8h. Os ingressos remanescentes serão distribuídos nos dias do espetáculo, de acordo com o horário de funcionamento da bilheteria (quarta a sábado, das 13h às 20h30; domingos, das 11h às 20h). Temporada até 2/7.

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 80 minutos

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Laerte Késsimos e Maurício Barros são o escritor desempregado e o ascensorista

Equipe de criação:

Texto: Angela Ribeiro

Direção: Eric Lenate

Com: Agnes Zuliani, Carlos Morelli, Felipe Ramos, Laerte Késsimos, Lavínia Pannunzio, Maurício de Barros, Patrícia Vilela e Sheila Faermann

Arquitetura cênica: Eric Lenate

Figurinos: Rosângela Ribeiro

Iluminação: Aline Santini

Trilha Sonora: L.P. Daniel

Direção audiovisual: Laerte Késsimos

Visagismo: Leopoldo Pacheco

Fotógrafo: Leekyung Kim

Material gráfico: Laerte Késsimos

Ilustrações: João Pirolla

Assistência de direção: Felipe Ramos

Ouvinte de direção: Mariana Leme

Assistência de produção: Jamil Kubruk

Produção executiva:  Munir Pedrosa

Direção de produção: Luís Henrique (Luque) Daltrozo

Produção: Daltrozo Produções

Realização: Sesi-SP

Criação: Sociedade Líquida