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Artigo

Cacá Carvalho em seu labirinto

1.3.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Lenise Pinheiro

“É preciso que a gente se diga na peça”. Foi com essa máxima que Cacá Carvalho estimulou os atores do Grupo Galpão ao trabalho de pesquisa nos primeiros ensaios de Partido (1999), convidado a dirigir a livre adaptação do romance O visconde partido ao meio, do cubano naturalizado italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Nessa alegoria, o personagem-título participa de uma guerra entre turcos e cristãos quando é atingido no peito por um tiro de canhão, vindo a sobreviver com uma parte associada à maldade e a outra, à bondade. As reações aos desequilíbrios dessa identidade dupla são narradas sob a ótica do sobrinho dele, um menino.

Exercer a alteridade e prover o conhecimento sobre si mesmo foram algumas das práticas e reflexões norteadoras daquele processo de criação com o grupo mineiro. A leveza e a multiplicidade características da escrita de Calvino, conforme o dramaturgo Cacá Brandão anotou no programa do espetáculo, não aliviou a atmosfera espessa e labiríntica daquela experiência coletiva.

Saltamos quase 20 anos adiante para observar o que o ator Cacá Carvalho tem dito e meditado sobre si nas entrelinhas de dois solos recentes, ambos estreados em São Paulo: 2×2=5 – O homem do subsolo, de 2015, no Sesc Santo Amaro, e A próxima estação – Um espetáculo para ler, de 2017, no Sesc Pinheiros.

Há um “duplipensar” no modo como o corpo e a voz atuam ou narram essas histórias originalmente escritas com um intervalo de um século e meio.

Os solos ‘A próxima estação – Um espetáculo para ler’ e ‘2×2=5 O homem do subsolo’ são conexos ainda pelo estado da animalidade que tangencia o humano

Adaptação da novela russa Memórias do subsolo (1864), de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o espetáculo 2×2=5 – O homem do subsolo aborda os conflitos de um funcionário público solitário. O sujeito imerge no inconsciente e traz à superfície os paroxismos que o corroem. Um exemplo disso está na avara sociabilidade que pratica quando sai de casa para andar nas ruas ou frequentar uma taverna de São Petersburgo, lugares dos quais costuma retornar ainda mais irritado consigo e com os outros.

Cenografado por Márcio Medina, o ambiente subterrâneo aos poucos se torna desorganizado, feito o mundo interior de quem o habita. Mas é ruminando entre quatro paredes, por vezes espreitando uma janelinha só alcançável através de uma escada, que o personagem relata ao espectador alguns incidentes cotidianos. Seu estado de espírito rancoroso e existencialista – a especulação filosófica a tudo permeia – faz com que o ator explore essa imagem ressentida através da própria barriga protuberante, o corpo como espelho da deformidade.

A peça abre com Carvalho deitado numa mesa, sob espessa escuridão diluída lentamente pela penumbra. A topografia da barriga volumosa e desnuda é revelada aos poucos, feito a sinuosidade dos pensamentos na cabeça do protagonista que sofre do fígado, mas não busca remédio ou médico para cessar sua dor, atitude atribuída à raiva. A autodepreciação é seu esporte dileto.

Ao manejar a barriga de modo visceral, o ator expõe o corpo fora de forma – como poderia trombetear algum patrulheiro do condicionamento físico –, mas temos um artista pleno na forma e nos sentidos que traduzem a repugnância provocada pelas ideias e palavras do anti-herói.

Roberto Palermo/Reprodução

Carvalho e Dostoiévski: corpo como espelho da deformidade

A fisicalidade é companheira da presença desse ator que cultiva a cena há mais de meio século, desde a formação na Belém natal, no final da década de 1960. A combinação de instinto e domínio técnico balizou o trabalho por meio do qual foi revelado ao público de São Paulo: Macunaíma (1978), direção de Antunes Filho, interpretando o personagem-título na transposição da rapsódia de Mário de Andrade para o palco – espaço em geral vazio nessa obra concentrada na expressividade gestual e notabilizada pela fluência com que o coro surgia e desaparecia.

As gerações que acompanham Carvalho desde o início da década de 1990 estão acostumadas a associá-lo à parceria artística com o diretor Roberto Bacci, conexão ítalo-brasileira via Centro per la Sperimentazione e la Ricerca Teatrale, mais tarde renomeada Fondazione Pontedera Teatro. O dramaturgo, poeta e romancista siciliano Luigi Pirandello (1867-1936) norteou a dupla nos espetáculos O homem com a flor na boca (1994), A poltrona escura (2003) e umnenhumcemmil (2012), trilogia abarcadora dos princípios estéticos do Nobel de Literatura que universalizou o jogo do “teatro no teatro”.

O dramaturgo e diretor italiano Michele Santeramo projeta a relação de 50 anos do casal, entre 2015 e 2065, combinando texto e imagens dos traços animalizados do homem e da mulher concebidos pela artista plástica e performer Cristina Gardumi, que também vive na Itália.

A palavra que se faz carne tem sua natureza percebida com outras nuances em A próxima estação. A obra torna o verbo lido, ouvido e expandido pelas ilustrações com as quais contracena. Carvalho executa o subtítulo – Um espetáculo para ler – descrevendo as circunstâncias ou narrando os diálogos da história de Violeta e Massimo.

Chama a atenção, de pronto, a não representação corporal desses seres de ficção por Cacá Carvalho. Exceto pela voz que é, por extensão, músculo e mediadora onipresente. Os óculos e o figurino casual indicam o artista em situação civil, expondo certa sobriedade e despido do gesto teatral que lhe é peculiar até fora do palco. Com as páginas do texto em mãos, ele ocupa um púlpito perpendicular, à direita da plateia, ângulo que o permite visualizar a tela ao fundo. O campo de observação do espectador, por sua vez, envolve o narrador em sua leitura, bem como a reprodução cadenciada na tela das ilustrações instintivas do homem e da mulher.

Divulgação

Uma das ilustrações de Cristina Gardumi em ‘A próxima estação’

Os espetáculos são conexos ainda pelo estado da animalidade que tangencia o humano.

Em Dostoiévski, o funcionário devaneia feito um demiurgo no controle dos atos e subjetividades humanos. “Nem herói nem inseto”, fareja com celeridade quem lhe pareça ter a consciência atrofiada de um camundongo. A esse alter ego tirânico Carvalho apõe sua silhueta disforme, ratificando os questionamentos de quem reclama a incapacidade de ser bondoso. Ou varia da degradação ao belo quando uma moça cruza o seu caminho e desata nele resíduos de sentimentos que acreditava extintos.

O ator escreve no programa, a respeito da repulsa e da atração que o protagonista lhe inspira. “A primeira coisa que digo é não. Não tenho identificação. Este corpo não é meu. Essa voz, de que caverna ecoa? A solidão como escolha para o crescimento e o sublime. Mas ele sou eu também”, reconhece.

A precisão com que compõe o funcionário amoral em seu quarto-labirinto é exemplar da voracidade na entrega de Carvalho a projetos solos, notadamente nas parcerias com Bacci, ou na ancoragem de processos em grupo, como na idealização da Casa Laboratório para as Artes do Teatro (2005), integrada por jovens atores e exitosa nos primeiros sete anos de investigação continuada.

Já na anatomia de Violeta e Massimo os traços felinos vão do charme corporal da juventude ao envelhecimento do espírito abnegado, capaz de perceber o déficit de inconformidade no curso da vida em comum. Apesar de endereçar a conversa à maneira de conferência, interpondo as vozes do narrador, do homem e da mulher, essa experiência dá margem a uma aproximação lúdica através do fluxo de imagens do texto e das graciosas e às vezes melancólicas figuras coloridas. Assim como há espaço para rusgas e delícias no plano da intimidade, evita-se o efeito bumerangue da covardia que pode ferir de morte até a cidadania.

A próxima estação traz o cenógrafo Medina na função de coordenador artístico. Ele equaliza os pontos de vista do público, dos desenhos e do ator-narrador, inscrevendo outras temporalidades, espacialidades e ritmos à dramaturgia. O autor Michele Santeramo – que partiu de uma ideia de Luca Dini – tem o mérito de, na direção, conter a voluptuosidade das palavras e, principalmente, dos recursos gestuais. O tom e a postura do ator soam minimalistas e conduzem a níveis surpreendentes em termos de emoção e imaginário.

O Cacá Carvalho que desponta dessas duas produções relativizando as certezas aritméticas e se movendo da zona de conforto parece mesmo estar nu, aberto a reformulações de toda ordem. Como um animal filosofante do teatro não há de desprezar a intuição poética.

.:. Leia a transcrição do 7º Encontro com o Espectador em torno de A próxima estação – Um espetáculo para ler, envolvendo Cacá Carvalho e Márcio Medina.

Divulgação

50 anos de convívio narrados em voz e imagens

Equipe de criação:

A próxima estação – Um espetáculo para ler

De uma ideia de Luca Dini e Michele Santeramo

Com: Cacá Carvalho

Texto e direção: Michele Santeramo

Tradução: Cacá Carvalho

Ilustrações: Cristina Gardumi

Coordenação artística: Márcio Medina

Assistente de direção na Itália: Erica Artei

Colaboração artística: Roberto Bacci

Músicas originais: Sergio Altamura, Giorgio Vendola e Marcello Zinn

Sonorização e projeção: Kako Guirado e Tiago Mello

Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro – Ofício das Letras

Fotografia: Lenise Pinheiro

Produção executiva e administração: Géssica Arjona

Parceria de produção: Condomínio Cultural e Teatro della Toscana – Itália

Produção: Casa Laboratório Para as Artes do Teatro

Agradecimento especial: Luciana Caminha – Mina Cultural, Iris Cavalcanti, Junae Andreazza e Micle Contorno

Roberto Palermo

O funcionário público anti-herói na versão de Cacá Carvalho

Equipe de criação:

2×2=5 – O homem do subsolo

Dramaturgia: Stefano Geracci

Direção: Roberto Bacci

Com: Cacá Carvalho

Cenário e figurinos: Márcio Medina

Desenho de luz: Fábio Retti

Música original: Ares Tavolazzi

Tradução para o português: Anna Mantovanni

Produção: Teatro della Toscana, Teatro Era Csrt e Casa Laboratório para as Artes do Teatro

Valmir Santos

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