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Crítica

Rapsódia tragicômica ou o bode do mundo

4.3.2018  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Guto Muniz/Foco in Cena

Suíte nº2, o espetáculo de abertura da MITsp, é uma rapsódia teatral nos vários sentidos referidos pelo teórico francês Jean-Pierre Sarrazac quando trata das recorrências formais na cena contemporânea. A rapsódia é, como na concepção antiga, uma narrativa épica, ou seja, que tem interesse na vida social; ou um fragmento de poema. E é, em uma direção também muito próxima ao espetáculo dirigido por Joris Lacoste, uma das formas mais livres da música, com arranjos que surgem das possibilidades de ordenação sonora em acordo com as circunstâncias, temas e influências do momento. Mesmo o título, Suíte, é certamente tomado em abertura, para nomear o fundamental do projeto artístico: um arquivo de discursos vivos e em diversas línguas, uma enciclopédia de falas reais que arranjadas como uma composição musical pretendem “produzir, cada qual ao seu modo, algum tipo de impacto no mundo”, como diz o encenador.

Em ‘Suíte nº2’ , do francês Joris Lacoste, o virtuosismo não está apenas na apresentação competente das formas de expressão regionais. A língua é campo de luta

De fato, os materiais recolhidos são dispostos e tratados rigorosamente em cena como um concerto para vozes, com o uso de pedestal para a leitura das partituras e o apoio de alguns instrumentos sonoros. Harmonizados pelo compositor Pierre-Yves Macé, os fragmentos de fala executados pelos cinco atores vão desde um discurso do ex-presidente americano George Bush justificando à nação a invasão do Iraque em 2003 até a singela gravação que encerra o espetáculo, uma mensagem ouvida em secretária eletrônica, de alguém para outro alguém na cidade de São Paulo em 2018, dizendo de um primeiro encontro “muito bom” e desejando um segundo. No intervalo que vai das grandes questões vindas do quadro social aos acontecimentos da vida íntima está uma variedade de performações fundamentalmente vocais que mimetizam aqueles textos.

A forma do espetáculo, determinada sob estas coordenadas, poderia soar monótona não fossem alguns recursos pontuais, mas suficientemente sustentados que fazem o esquema ganhar grande teatralidade e interesse. O primeiro está sem dúvida no trabalho dos intérpretes, que mimetizam os diversos fragmentos e suas variações com um resultado perto da virtuose. Mas o virtuosismo não está apenas na apresentação competente das formas de expressão regionais. Está na maneira empenhada com que o elenco nos faz ver os diferentes estados de falas, de um modo que no quadro geral tenhamos não só o significado delas e das situações em que aparecem como também as suas intensificações ou distensões, as suas implicações éticas e políticas.  A língua é campo de luta.

Neste capítulo já estamos no segundo aspecto da formalização da cena, que é o da montagem propriamente dita. Ali a palavra montagem alcança sentido forte. É que uma parte do efeito teatral está na conjugação dos fragmentos, em como eles são ordenados, justapostos ou sobrepostos. A representação alcança o melhor do seu lugar crítico nesses arranjos porque é deles que podemos intuir o ponto de vista daqueles artistas sobre um material muito variado cujo fundo comum é a tragicomédia do mundo atual, seja nos lances da vida pessoal, seja nas grandes decisões de Estado, que comprometem a vida coletiva. Assim, por exemplo, um longo discurso, em tom monocórdico e assentado, de um ministro da economia em Portugal, que começa anunciando os supostos benefícios de cortes de gastos do Estado e termina deixando claro que haverá grande impacto sobre os mais pobres, é atravessado por uma aula de fitness na Croácia (salvo engano). Acontecimentos de tempos e lugares diferentes que, no entanto, apresentados juntos nesse exercício de montagem, nos dizem sobre como se continua a seguir: dentro do amor, do drama, da rotina, da mobilização ou da indiferença. À mercê das grandes decisões que não são tomadas por nós, mas nos desgraçam ou incitam à desobediência civil como reação diante do intolerável. Entre as tantas passagens há duas de amplo efeito sobre a plateia: a cena em que uma consumidora colombiana liga para a central de atendimento de uma empresa que lhe cortou o sinal e termina com uma crise e a quase promessa de assassinato; e outra em que uma líder estudantil conclama à rebelião contra o governo nas ruas de Londres. Ainda que a palavra aplausos venha no script e seja projetada entre as legendas, a coincidência com o momento brasileiro acende na plateia uma vontade mais que entusiasmada de participação, e os aplausos vêm mesmo. Identidades, reconhecimentos.

Guto Muniz/Foco in Cena

‘Suíte nº2’ é fruto do projeto Enciclopédia da Fala, de Joris Lacoste

Quando se diz que o espetáculo tem dimensão tragicômica é porque dele salta um sentimento que nos alcança ainda que seja uma forma experimental e não se aproxime formalmente de nenhum gênero teatral específico.  O trágico estaria aqui não para o seu sentido clássico e sim mais próximo do que o crítico galês Raymond Williams chamou de tragédia moderna: a que pode ser lida nos acontecimentos comezinhos. O que se explica porque a tragédia se constitui sobre o chão da sociabilidade e esta é feita na soma das formas de relacionamento. Quando esses nos parecem insuportavelmente fora dos eixos a ponto de já não conseguirmos compreendê-los, surge uma estrutura de culpa e ilusão transformada em experiência, e dela resulta o sentimento trágico independente de a cultura política atual dispensar deuses e heróis. Esse dimensionamento da desdita e da queda coletiva está certamente atualizado em cena.

Essa é uma possibilidade de leitura que o espetáculo nos dá.  E como dizia Adorno no seu estudo sobre poesia e sociedade, voluntariamente ou não a arte acaba por desvelar, trazer de novo à vista aquilo que a ideologia escondeu. Na montagem isso acontece de um jeito  peculiar, quando se pretende rearranjar a linguagem e os acontecimentos humanos que ela filtra ou são filtrados por ela não apenas em torno da ideia de uma síntese simbólica do grande dicionário das ações e comportamentos da vida atual, mas também visitando o próprio osso dos discursos e a sua dinâmica babélica, reproduzindo-os, mimetizando-os ao pé da letra, assim como a sua estrutura de difusão – a rede mundial dos dizeres e audições conectadas,  que se sobrepõem em  volume e velocidade inalcançáveis, mas presentes e perceptíveis. Nós o sabemos. Daí a melancolia. “Quem lê tanta notícia?”, perguntaria Caetano Veloso em uma canção cujo título apresentava talvez esperançosamente sentimento oposto a este:  Alegria, alegria. É compreensível: a canção de 1967 fazia a anatomia poética, sob olhar brasileiro, da nossa percepção diante de um mundo que se abria aos olhos, difundindo e alimentando a partir dali o imaginário das culturas de massa tanto quanto apontando os seus meios de reprodução. Os mesmos que, desenvolvidos, são parte da dramaturgia que esse espetáculo dos franceses agora atualiza já no seu estado de paroxismo.

É preciso dizer que, nesse aspecto, o ponto de vista crítico lançado da cena desenha perfeitamente o mal-estar da civilização, mas não ilumina a sua raiz. Pode-se argumentar, com razão, que um viés sociológico, de verificação das causas, não é a proposta do projeto artístico, que talvez tenda mais a certo formalismo. De todo modo é fundamentalmente da vida social que o teatro ali se ocupa, seja no lugar das micro relações familiares, íntimas, seja no espaço dos acontecimentos públicos, das ruas, dos enfrentamentos coletivos. Por isso se quisermos ver o espetáculo na sua melhor potência crítica será necessário considerar o tratamento dos materiais na montagem também como uma operação de autoironia. E isso dá conta da chave cômica que também está lá, a pontuar e intervir como uma espécie de olhar vigilante. Na dialética com os temas emergentes o efeito cômico não fala por si e deve alcançar aquela culpa trágica sobre a qual referia-se Raymond Williams. E então, compreendido assim, um espetáculo que é essencialmente uma coleção de falas não dispensaria o discurso deles próprios, os artistas que as performam, a partir de um lugar que não é de autoridade sobre o processo e sim de revisão crítica, já que aqueles artistas herdaram conosco a civilização que em geral deu errado, mas foi criada pelos seus ancestrais e é alimentada atualmente nos centros de poder de onde eles e elas vêm.  É importante lembrar disso, que esse bode não foi criado por nós, latino-americanos. A escolha aparentemente aleatória de discursos é capaz de desenhar o bode gigantesco que foi criado pela cultura política contemporânea e posto na sala do mundo. Mas ele tem origem. É ele, o bode paradoxal da civilização do dinheiro, que a montagem nos oferece como totalização dos fragmentos. As consequências do processo histórico são mundiais, mas a parte mais pesada recai sobre as cabeças e subjetividades dos que estão nos andares de baixo das diversas sociedades regionais. Isto não inviabiliza, em termos de valor estético e político, o experimento de Lacoste e sua companhia. Pelo contrário, é contracena que abre nova frente na complexa rede de assuntos que eles estão visitando.

A imagem do bode como sabemos tem significações variadas, sendo a mais comum essa descrita acima, que vem do pensamento cristão – o bode é o mal ou o estado de mal-estar do qual é necessário fugir. Mas há outras leituras deste emblema, entre elas uma antiga, ligada também à origem da tragédia, e mais produtiva: os bodes cantam em honra ao deus Dionisio e compõem o cenário de uma embriaguez libertadora dos sentidos, necessária à abertura de novas portas de percepção da realidade.  Para nós, que vivemos a tragédia e a comédia cotidianas do planeta em 2018 e para quem (senão todos, muitos) os deuses são apenas “cabeças de bebês sem toca” Suíte nº2 traz a melodia possível da época:  o sumo talvez melancólico, mas também disparador de uma visão sobre a possibilidade de movimentar o que está dado, se o quisermos. O bode e seu mélos, sua música estranha, é elemento central da crítica, da crisis. E, portanto, elemento fundamental para que se possa pensar sobre a reinvenção da vida no tempo atual.

.:. Mais informações sobre a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Equipe de criação:

Concepção: Encyclopédie de la Parole

Criação e direção: Joris Lacoste

Criação musical: Pierre-Yves Macé

Com:  Vladimir Kudryavtsev, Bianca Iannuzzi, Nuno Lucas, Crystal Shepherd-Cross, Thomas Gonzalez

Colaboração artística: Elise Simonet

Iluminação, vídeo e operação técnica em geral: Florian Leduc

Som: Stéphane Leclercq

Figurinos: Ling Zhu

Coach de voz: Valérie Philippin e Vincent Leterme

Tradução, gestão de projeto: Marie Trincaretto

Assistente de vídeo: Diane Blondeau

Programação de vídeo: Thomas Köppel

Revisão e correções: Julie Etienne

Coach de línguas: Azhar Abbas, Amalia Alba Vergara, Mithkal Alzghair, Sabine Macher, Soren Stecher-Rasmussen, Ayako Terauchi Besson

Coletores: Constantin Alexandrakis, Mithkal Alzghair, Ryusei Asahina, Adrien Bardi Bienenstock, Judith Blankenberg, Guiseppe Chico, Manuel Coursin, David-Alexandre Guéniot, Léo Gobin, Haeju Kim, Monika Kowolik, Federico Paino, Pauline Simon, Ayako Terauchi Besson, Helene Roolf, Anneke Lacoste, Max Turnheim, Nicolas Mélard, Tanja Jensen, Ling Zhu, Valerie Louys, Frederic Danos, Barbara Matijevic, Vladimir Kudryavtsev, Olivier Normand, Nuno Lucas

Produção e administração: Dominique Bouchot e Marc Pérennès

Produção e distribuição: Judith Martin/Ligne Directe

Produção: Echelle 1:1 (empresa conveniada ao Ministério da Cultura e da Comunicação/DRAC Ile-de-France).

Coprodução: T2G Théâtre de Gennevilliers / Festival d’Automne à Paris, Asian Culture Complex – Asian Arts Theater Gwangju, Kunstenfestivaldesarts, Théâtre Vidy-Lausanne, Steirischer Herbst Festival, Théâtre Agora-Seinendan, La Villette – résidences d’artistes 2015, Théâtre National de Bordeaux en Aquitaine, Rotterdamse Schouwburg. Suíte n°2 é coproduzido pela NXTSTP com o apoio do Programme Culture de l’Union Européenne. Com o apoio do Institut Français, como parte dos programas Théâtre Export e CIRCLES, e do Nouveau Théâtre de Montreuil. O espetáculo esteve em residência artística na Usine, Scène Conventionnée (Tournefeuille).

Línguas: inglês, japonês, francês, árabe, holandês, alemão, português, espanhol, russo, croata, lingala, chinês, dinamarquês, sânscrito, urdu.

Você pode ouvir a íntegra da coleção sonora da Enciclopédia da Fala gratuitamente, aqui.

Se você deseja contribuir para o projeto enviando gravações, escreva para info@encyclopediedelaparole.org

As Apresentações do espetáculo na MITsp contam com o apoio do Institut Français du BR.

Kil Abreu

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