Menu

Assine nossa newsletter

Crítica

Convite à liberdade

19.6.2018  |  por Beth Néspoli

Foto de capa: Andre Stefano

A informação de que o elenco do Cabaret transperipatético, dirigido por Rodolfo García Vázquez, fundador d’Os Satyros, é inteiramente formado por performers não cisgêneros, ou seja, por pessoas cujas mentes e corpos não se enquadram no padrão binário homem/mulher, pode provocar recusa à priori naquela parcela de espectadores ainda arredia às questões de gênero. O espetáculo, porém, tem forte potencial para conquistar o público não afinado com o tema.

Sem negligenciar as dificuldades do processo – incontornáveis para muitos –, a abordagem foca na autonomia e liberdade alcançadas por aqueles que enfrentam a normatividade que incide sobre os corpos. E conduz o espectador à percepção de que normas vinculadas a padrões estéticos ou de comportamento, mais ou menos perniciosas, obstruem a vitalidade plena de diferentes pessoas, independentemente de identidade de gênero.

É como se os performers – também responsáveis pela dramaturgia – invertessem a direção mais comum da arte engajada:  em vez de atacar a opressão que vem do campo social miram sobre si mesmos e demonstram com suas trajetórias outras possibilidades de vínculos solidários fora das configurações convencionais de família e trabalho

Moldar na forma da arte as insurgências que brotam do campo social não é tarefa fácil. Se o movimento é de ruptura, a poética que o proclama também deve ser. Tal enfrentamento de linguagem pode ser detectado no contraponto entre a cena de abertura e as que vêm depois dela. Não por acaso, o anúncio protocolar de início do espetáculo só é ouvido após o término do número inaugural formalizado como um programa de auditório no qual travestis e transexuais realizam mímicas musicais diante de um júri.

Clichês, imagens esvaziadas de sua força expressiva ao longo do tempo pelo excesso de repetições, são tomados pelo seu reverso, ou seja, servem para evidenciar o controle exercido sobre aqueles corpos e seus sorrisos congelados, expostos ao senso comum, colocados em competição e premiados de acordo com o grau de enquadramento à atitude deles exigida.

Ao participar do 20º Encontro com o Espectador, ação do Teatrojornal que se dá como uma conversa entre críticos, criadores e público, Vázquez comentou sobre o procedimento recorrente em seu trabalho que é o de buscar signos que possam agir sobre a percepção como disparadores de sentidos. Daí, é possível deduzir, a escolha de um simulacro de folha de cheque e de um videocassete como prêmios ao vencedor do concurso. Tecnologia ultrapassada tomada como símbolo do lugar atribuído àquela estética no pensamento dos criadores desse espetáculo que tem como uma de suas bases teóricas o livro Manifesto contrassexual (2002), de Paul Beatriz Preciado. Desde o nome adotado, feminino e masculino, essa filósofa feminista nascida na Espanha na década de 1960, que estudou com Jacques Derrida (1930-2004), analisa a transexualidade como liberação do corpo ao trânsito vital dos desejos, desconstruindo a rigidez das identidades de gênero, sejam quais forem.

O significado da cena inicial só pode ser apreendido quando os performers retornam ao palco em uma lenta e silenciosa coreografia. O efeito brota do contraste com a abertura e logo será intensificado pela imobilidade: sentados diante da plateia, em atitude altiva e serena, convidam ao olhar demorado, talvez libertador de estereotipias. Daí em diante o verbo se fará carne e a carne será verbo. A experiência inscrita nos corpos será a matéria da encenação que faz jus à extensão do título, referência ao filósofo grego Aristóteles que, em oposição ao pensamento platônico, investia na observação dos fenômenos no movimento da vida e compartilhava conhecimento em caminhadas pela Ágora.

Andre Stefano

Daniela Funez ministra aula sobre anatomia trans na peça d’Os Satyros

Será menos cabaré – não há a clássica ambientação de mesas e cadeiras, nem comes e bebes – e mais peripatético esse espetáculo de tom pedagógico, ora velado, ora acentuado, como na cena em que Daniela Funez, régua em punho diante do desenho em giz da silhueta de um corpo humano, responde a perguntas imaginárias. Assumindo-se como mina trans fancha/sapatão/lésbica – a apropriação de termos pejorativos por aqueles que são alvo deles tem como objetivo alterar sua carga negativa – ministra uma bem-humorada aula sobre anatomia trans, troca afetiva e possibilidades de prazer.

Um dos riscos do atravessamento do documental sobre a formalização poética é a perda da dimensão utópica, da reverberação de alguma coisa de inapreensível, porque ainda não visível no campo da Cultura, ainda que presente no inconsciente coletivo. Algo assim ressoa na cena em que a performer Luh Maza, mulher negra trans, dança sorridente a sua valsa de debutante – a qual não teve direito como a maioria das meninas nascidas meninos – enquanto relembra a relação com seu pai que, na narrativa dela, é desenhado como um bombeiro cuja formação, contraditoriamente, faz dele um ser incapaz de proteger a vida de toda sua família.

Vale ressaltar que a direção de Vázquez se dá no sentido da contenção gestual e da criação de marcações muito precisas, sem com isso provocar o engessamento expressivo do conjunto de atuadores. O resultado é bastante harmônico, com raros momentos em que um excesso de movimento de mãos ou uma emissão vocal meio truncada desvela tempo menor de experiência cênica.

Reversão de expectativas talvez seja mesmo termo chave na análise dessa montagem.  É como se os performers – também responsáveis pela dramaturgia – invertessem a direção mais comum da arte engajada:  em vez de atacar a opressão que vem do campo social miram sobre si mesmos e demonstram com suas trajetórias outras possibilidades de vínculos solidários fora das configurações convencionais de família e trabalho.

Andre Stefano

Ator trans Léo Perisatto (esquerda) e a a travesti Fernanda Kawani

Tal estratégia alcança intensa efetividade na reconstituição de um traçado que parte do árduo processo de individuação realizado por Guttervil – assim rebatizada quando se auto definiu como agênero – e, também, em outra direção, pela travesti Fernanda Kawani, atualmente proprietária de uma loja voltada para o público trans, passando pelo momento em que ambas se conhecem até o estabelecimento da parceria plena dessa dupla.

Desenho similar conecta o momento em que Gabriel Lodi, homem trans, desnuda-se, metafórica e literalmente, diante de um espelho – objeto de forte carga simbólica no universo trans – com outro no qual ele se une aos atores trans João Henrique Machado e Léo Perisatto numa espécie de conversa de machos. Neste segundo movimento eles, que tendo nascido com órgãos sexuais femininos se constituíram seres masculinos, levantam questões sobre o homem que querem ser em oposição ao padrão de comportamento e de aparência esperado, ou mesmo exigido, de quem se define como tal.

Por fim, ganha relevo o contraponto entre suavidade e contundência no relato da atriz Sofia Ricardi sobre sua condição intersexo, ou hermafrodita como antigamente eram nomeadas pessoas nascidas com anatomia bissexual, talvez a mais ocultada entre as que envolvem os chamados corpos desviantes. Desde bebês essas pessoas têm suas vidas marcadas por mutilações e medicação pesada com o objetivo de apagar uma ambiguidade insuportável aos familiares que, tendo assimilado padrões convencionais de sexualidade, acreditam sinceramente estar investindo na felicidade dos filhos.

Vale retomar aqui o argumento expresso em outro texto sobre tema similar. Leis podem até garantir proteção, mas não aceitação. Se o ocultamento, ou a dose correta de discrição, é a atitude exigida de todo aquele que contraria os códigos sociais hegemônicos, então ocupar os espaços de convívio com presença singular e atuante é poder. Tal pensamento alicerça os embates contra a representação e a disputa pelos chamados “lugares de fala”. Luta não isenta de contradições, cujos agentes por vezes atuam com opressão similar àquela que denunciam.

Ao apostar na arte como espaço de construção de utopia – no jogo entre palco e realidade ainda é preciso voltar duas casas ao sair da cena para a vida – Cabaret transperipatético convida a pensar sobre a efetiva contribuição advinda desses embates às poéticas da cena. Sedimentadas algumas conquistas, outros arranjos familiares e sociais se sedimentarão, e com eles conflitos diversos pedirão abordagens dramatúrgicas distintas daquelas acumuladas ao longo de séculos.

.:. Leia a crítica de Kil Abreu a O incrível mundo dos baldios, da Cia. de Teatro Os Satyros, em cartaz até 26/8/2018

.:. Visite o site da Cia. de Teatro Os Satyros

Serviço:

Onde: Estação Satyros (Praça Roosevelt, 134, Consolação, tel. 11 3258-6345)

Quando: Sextas, às 21h; sábado e domingo, às 20h. Até 31/7

Quanto: R$ 5 a R$20. Gratuito para não binários, transexuais e agêneros

Telefones para reservas: 11 3258-6345 e 3231-1954

Recomendação: 18 anos

Duração: 75 minutos

Andre Stefano

Léo Perisatto em cena de ‘Cabaret transperipatético’

Equipe de criação:

Dramaturgia: Coletiva

Direção: Rodolfo García Vázquez

Com: Daniela Funez, Fernanda Kawani, Gabriel Lodi, Guttervil, João Henrique Machado, Leo Perisatto, Luh Maza e Sofia Riccardi

Assistência de direção: Felipe Moretti

Supervisão dramatúrgica: Luh Maza, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

Coordenação de produção: Daniela Machado

Cenografia: Dan Oliveira e Rafael Santos

Cenotecnia: Alexandre Barbosa

Design: Henrique Mello

Operação de luz: Dennys Gonçalves e Axl Cunha

Operação de som: Alexandre Apolinário e Laysa Alencar

Figurinista: Lenin Cattai

Assistência de figurino: Cinthia Cardoso

Fotografia: Andre Stefano

Sonoplastia: Rodolfo García Vázquez

Costureira: Lenin Cattai

Produção executiva: Israel Silva

Administração: Lucas Allmeida

Realização: Cia. de Teatro Os Satyros

Assessoria de imprensa: Bruna Buzatto e Diego Ribeiro

Beth Néspoli

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados