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Crítica

Em nome da violência de Estado

22.6.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Regina Peduzzi Protskofcapa

Porto Alegre – Os textos A mulher arrastada, de Diones Camargo, cuja encenação acaba de cumprir oito sessões na capital do Rio Grande do Sul, e Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã, de Jhonny Salaberg, em temporada a partir desta semana, no Centro Cultural São Paulo, distanciam-se no tempo, no espaço e nos procedimentos documental e ficcional de um e de outro. Em comum, no entanto, as peças releem a naturalização da violência policial contra mulheres e homens negros, alvos diletos das forças de segurança nas cidades brasileiras. Realidades de classe e de raça sacramentadas pela impunidade.

Camargo parte da morte da auxiliar de serviços gerais Claudia Ferreira da Silva, ocorrida na manhã de 16 de março de 2014, num morro carioca. Naquele domingo, a funcionária de um hospital saiu de casa para comprar pão para os quatro filhos e quatro sobrinhos que criava com o marido. Nunca mais voltou. Foi baleada por policiais quando dobrava uma rua, a caminho da padaria. Eles chegaram atirando, escudados pela enésima operação de cerco ao tráfico. Cientes do erro e alertados por moradores, que disseram se tratar de trabalhadora, agiram às pressas para jogá-la no compartimento traseiro de uma viatura, sob a desculpa de socorrê-la. Cerca de um quilômetro após deixarem a comunidade e ganharem o asfalto, a porta se abriu e ela foi arrastada por cerca de 350 metros, estando o corpo dependurado pela roupa presa ao para-choque.

Lidando com material emocionalmente explosivo, para artistas e audiência, a encenação de Adriane Mottola para ‘A mulher arrastada’ aplica uma racionalidade que enriquece o texto e muitas vezes o expande nas soluções visuais e sonoras

Essa distância foi percorrida sem que os militares tenham percebido que a tampa do camburão destravara, apesar de alertados por pedestres ou motoristas. As imagens registradas por celular ou por câmeras de segurança chocaram o país e o mundo, midiatizadas, como se diz, banalizadas à mesma proporção que perdeu interesse nos veículos tradicionais. Os policiais da desastrada operação, assim como os demais colegas, são acostumados a redigir autos de resistência, isto é, em legítima defesa. Foram presos, mas não demoraram a ganhar as ruas, alguns deles promovidos, apesar de dois inquéritos a cargo da Polícia Civil e da Corregedoria da Polícia Militar, respectivamente.

Como extrair desse relato uma plataforma de voo criativa e relevante para as artes da cena? Antes, o mote da peça de Jhonny Salaberg a estimular analogia.

O menino narrador também sai para comprar pão, agora na periferia leste de São Paulo em pleno primeiro dia de ano. Na volta, é abordado por policiais que querem saber o que, afinal, carrega no saco de pão. Ele só quer ir para a casa e tomar o café que a mãe prepara para toda a família. Ato contínuo, desembesta, sobe num poste e passa a equilibrar-se sobre os fios de alta tensão, dando início a uma corrida digna de realismo maravilhoso em que consegue voar, mas nem sempre se desvencilhar dos tiros, centenas deles, no vaivém por outros países. Ainda assim, continua contando e contextualizando a respeito do jogo de sobrevivência dos meninos pretos que moram no pedaço. Uma gente que nasce com ligamentos nas costas, ao lado das escápulas, essas diminutas asas desenvolvidas à medida que o perigo aumenta.

Com o texto de 2016, escrito durante o curso do núcleo de dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André, sob orientação de Solange Dias, Salaberg, que também é ator, diz homenagear “a todos os pretos e pretas executados nas periferias de todo o mundo”. E segue: “É uma denúncia ao genocídio da população negra. É um grito de socorro. É bandeira da paz estiada nos corações daqueles que carregam o poder.”

Mas enquanto não sabemos o que será do espetáculo Buraquinhos, a ser apresentado no âmbito da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, sendo dirigido pela atriz e cantora Naruna Costa, cofundadora do Grupo Clariô de Teatro, de Taboão da Serra (SP), focamos a encenação da atriz e encenadora Adriane Mottola (cofundadora da Cia. Teatro di Stravaganza, há 30 anos), sob destacada atuação da também cantora Celina Alcântara (cofundadora do Grupo UTA – Usina do Trabalho do Ator, há 26 anos), conforme assistimos na estreia dentro do 13º Festival Palco Giratório Sesc/POA, no final de maio.

Regina Peduzzi Protskof

A atriz e cantora Celina Alcântara é Claudia Ferreira da Silva

As tensões sociais e étnicas prementes nos horrores aportados em A mulher arrastada não tornam a obra refém do discurso sociológico direto. Passados quatro anos e três meses do episódio, vem de artistas de Porto Alegre uma elaboração nada óbvia, e não menos indignada da truculência de Estado a partir do que aconteceu na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, no Morro da Congonha, em Madureira.

Diones Camargo promove um encontro fictício e não diretamente dialógico entre a cultura militar de ocultação, quando seus malfeitos vêm à tona, e o mecanismo de apagamento da identidade da vítima, corroborado por diferentes atores da sociedade – as autoridades de segurança do Executivo, o Legislativo, o Judiciário, a imprensa, entre outros setores subentendidos.

A exposição desse mecanismo perverso está na base do texto que dá voz à trabalhadora de 38 anos, de origem empobrecida, semialfabetizada e admirada pelos filhos e marido, bastante conhecida da comunidade que protestou contra o crime no dia seguinte. A família mudou do bairro porque a polícia estava em seu encalço.

No primeiro plano, há um fluxo de consciência que pode ser entendido como um duplo de apartes: o de um dos soldados envolvidos na tragédia e o de seu superior que o interroga determinado a livrar sua barra – consequentemente, da instituição e do batalhão implicados. Cultura militar expressa no que há de mais cômodo, o raciocínio embasado na tradição brasileira da prescrição e não punição – quando muito branda, no primeiro momento dos fatos de repercussão, mas a regra dos criminosos de farda é safar-se.

Regina Peduzzi Protskof

Detalhe de cena com o ator Pedro Nambuco, policial e interrogador

Essa figura falocrática, ordenadora, exerce a coerção do princípio ao fim, conduzindo o breve deslocamento pela galeria de arte até o ambiente retangular onde o público se instala. Suas falas e atos circulam o espaço cenográfico feito um corvo, em movimentações suspeitas, irrompendo de vez em quando ao centro e nas laterais. Intervenções tão duras quanto os coturnos que calça sob uniforme preto, em atuação nuançada de Pedro Nambuco.

O olhar de quem está na arquibancada atravessa a cena até o espectador do outro lado. Celina Alcântara ocupa esse miolo com apropriação, dispondo sua presença ativa à cidadã ocultada, retirada simbolicamente das sombras por meio da massa textual. A palavra enfrenta a anamnese, a opacidade. A mulher profere a existência. Sua fala é matéria-prima das imagens e dos ruídos familiares às Carolinas Marias de Jesus nas periferias e nos centros urbanos. A materialidade do ônibus é explorada como signo desse corpo desfigurado. E a conflagrada rua brasileira há décadas desfila injustiças de toda ordem.

A estrutura verbal inscreve o corpo social. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, deu a letra Seu Jorge, imortalizou Elza Soares. A cor da pele, o lugar onde mora, a classe social e o grau de instrução são alguns dos itens que embasam as estatísticas. É desconcertante o poder enunciador do olhar da atriz que reaviva Claudia Silva Ferreira como uma desconhecida aliada, cuja trajetória guarda muito em comum às mulheres negras às quais os preconceitos de gênero e de raça são ainda mais cruéis.

Na livre recriação desse documento, Celina confronta o discurso duplamente oficial do homem branco vestido de preto – e o microfone é uma extensão da arma pelo militar e pelo seu chefe. Em pé ou na maca de hospital/necrotério, suas incisões soam sublimes, sobrevoam a mediocridade do sistema que a matou.

Regina Peduzzi Protskof

A relação espacial expande a contundência do texto de Diones de Camargo

Lidando com material emocionalmente explosivo, para artistas e audiência, a encenação de Adriane Mottola aplica uma racionalidade que enriquece o texto e muitas vezes o expande nas soluções visuais e sonoras. A condição de mulher certamente contribuiu para alcançar na parceria com Celina uma afinidade trágica que aproxima Claudia da luta de uma Antígona ou de uma Medeia para serem escutadas em alto e bom som. Pelas décadas de dedicação da diretora à arte do teatro, seu encontro inédito com Celina e com Camargo – dos dramaturgos locais mais inquietos – culmina em experiência rara.

Mas há duas ambiguidades a anotar. Claudia Ferreira da Silva não é nomeada no texto ou em cena, ausência da qual se recente, por mais que o autor tente sublinhar nessa falta o processo de desconstrução/anulação do estatuto da pessoa humana, vide o seguinte trecho em verso falado: “(…) como vocês podem notar, eu já não tenho mais nome./ Agora eu sou só uma manchete antiga”. Talvez a identidade não devesse ficar no vácuo para boa parte do público que desconhece esse acontecimento. No dia da apresentação em análise, Celina Alcântara não resistiu a evocá-la aos espectadores após o final. Consta que durante a temporada a atuante incorporou esse procedimento que reforça a presentificação. A outra observação vem do nome do espetáculo. Ao criticar o reducionismo da “mulher arrastada”, mas alçá-lo a título, Camargo redunda a alcunha e não interrompe o ciclo vicioso sensacionalista que sai da cobertura jornalística policial para a cultural.

Esses paroxismos, contudo, não demovem os alcances da denúncia e da poética do trabalho.

.:. A mulher arrastada ficou em cartaz de 2 a 17 de junho na Galeria La Photo e Espaço Cultural. O jornalista viajou a convite do 13º Festival Palco Giratório Sesc/POA, cuja programação abrigou as sessões de estreia em 25 e 26/5.

Regina Peduzzi Protskof

Cena da montagem que teve primeira temporada em galeria de Porto Alegre

Equipe de criação:

Texto: Diones Camargo

Direção: Adriane Mottola

Com: Celina Alcântara e Pedro Nambuco

Trilha sonora original: Felipe Zancanaro

Iluminação: Ricardo Vivian

Cenografia: Zoé Degani

Figurinos: criação coletiva

Produção: Diones Camargo e Regina Peduzzi Protskof

Realização: Diones Camargo e LA PhOTO Galeria e Espaço Cultural

Apoio: Cia. Teatro di Stravaganza e UTA – Usina do Trabalho do Ator

 

Valmir Santos

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