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Crítica

Um algoritmo sobre o vazio

29.7.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: João Caldas

Quando desempregado, Karl Marx penhorou seu casaco muitas vezes para sustentar a família. Sobreviver, naquela década de 1850, incluía encontrar meios para seguir sua pesquisa acerca da engrenagem da economia capitalista.  Por ironia, sem essa peça do vestuário – retida intermitentemente por dinheiro –, o filósofo tinha dificuldade de frequentar a venerada sala de leitura do Museu Britânico, onde prospectou material que anos depois subsidiaria O capital.  Andar por aí com um casaco, sobretudo no inverno, implicava status social no reino das aparências, como relata o pesquisador Peter Stallybrass. Esse era um dos panos de fundo de como a teoria da luta de classes foi forjada. Elementar, portanto, que Pi – Panorâmica insana escolha a roupa como signo das transformações da humanidade no amplo painel temático que enseja.

Como os discursos, em si, não bastam para produzir as realidades que desejam, o espetáculo dirigido por Bia Lessa proporciona alternativas de afetação em outros parâmetros. Memória, poder, consumo, exploração, violência e demais variantes da história, da identidade, do comportamento, da sexualidade, da fé, da finitude e do ambiente são tecidos através de dados estatísticos depurados com angústia, algum humor e certa simplicidade.

O trabalho convida o público a raciocinar a partir de questões essenciais e complexas que precisam vir à consciência sob o risco de ascensão da ignorância. Não se trata de equação a ser solucionada, absolutamente. O que essa obra configura é o abismal empobrecimento de espírito. Seu achado artístico-filosófico está em diagnosticar as condições-limite em todos os campos da vida, dar forma ao vazio contemporâneo e fazer da crítica uma fonte de invenção.

Em ‘Pi – Panorâmica insana’, Bia Lessa oxigena recursos de linguagem sem sublinhar que são inovadores. Quer e conversa com o espetador, abre-se à audiência para compartilhar perplexidades do presente. O espetáculo foi criado para um espaço inacabado e essa proposição é de fato estruturante na narrativa

A encenadora projetada na década de 1980, com presença continuada nos anos 1990 até meados dos anos 2000, mantinha relação sazonal com as artes da cena, cada vez mais próxima da curadoria em artes visuais ou do cinema. A versão de Grande sertão: veredas, em 2017, que define como espetáculo-instalação, mostrou o quanto a sua teatralidade sofisticou-se em espessura poética. O romance de Guimarães encontrou, sobretudo em Caio Blat, à frente do elenco, uma tradução singular em termos de atuação e espacialidade. O verbo se fez carne e imagem, multiplicado pelos planos vazados.

Em sua obra mais recente, o vocabulário dá um salto ainda mais surpreendente. Sem a possibilidade de partir da primorosa e despojada trama roseana – sim, é preciso muita inspiração e talento para encarar a obra-prima literária, e, para tanto, Lessa provou que vive estágio lapidar na carreira –, coube a ela exercer a liberdade de leitura desconstruída do mundo e suas instâncias de crise, que não cessam, para que a cena gerasse universo próprio.

Pi oxigena recursos de linguagem sem sublinhar que são inovadores. Quer e conversa com o espetador, abre-se à audiência para compartilhar perplexidades do presente. O espetáculo foi criado para um espaço inacabado – o antigo Teatro Dias Gomes, na Vila Mariana, que virou Teatro Novo –, e essa proposição é de fato estruturante na narrativa. Não há palco, mas um piso cuja distância do teto (o pé-direito) é imensa. Ele está forrado de milhares de peças de roupa. Sabemos que o modo de vestir molda o corpo e a mente: moralidades, leis, costumes, etc. “A roupa que você usa é o retrato de quem você é”, ouve-se em determinado momento. Esse simbolismo perpassa o cenário, o texto e o jogo vivo de quem atua. O interior da edificação corresponde a uma caixa literal de ressonância de ideias provocadoras que têm no quarteto de atuantes, cocriadores, entrosamento no mesmo diapasão de inquietudes.

João Caldas

Bia Lessa (de costas) ensaia Rodrigo Pandolfo, Leandra Leal, Cláudia Abreu e Luiz Henrique Nogueira

Em entrevista a este jornalista, em 2004, por ocasião da estreia de Medeia, no Teatro Dulcina, no Rio, a diretora já pactuava com ruínas. A sala inaugurada em 1935 estava desfigurada, sem palco, sem poltronas. Tudo era poeira no cenário em que conversamos. “Eu não gosto do mero cenário, da decoração, da mesa, da cadeira. Gosto que as pessoas [atores, espectadores] se inventem e sejam cúmplices a partir do que o espaço está propondo. Aqui no Dulcina trabalhamos com o cru do cru”, disse, como publicado na Folha de S.Paulo.

Quase 14 anos depois, o oráculo é cumprido à risca, com espanto e beleza, revestido da tragédia contemporânea multifacetada. Eurípedes estaria horrorizado com o buraco que a humanidade anda cavando para si. É sobre isso, em essência, que fala a dramaturgia tripartida – por Júlia Spadaccini e Jô Bilac, que vivem no Rio de Janeiro, como Lessa, e André Sant’Anna, em São Paulo. Ela evolui em quadros e proporciona um raio-X desse paciente entendido por mundo, vasto mundo. Mostra o esgotamento dos seus organismos. O espetáculo começa de maneira provocadora, com uma mulher à margem da sociedade discutindo a destinação das suas fezes, deixando claro que os mal-estares da chamada civilização vão pautar a noite.

Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo correspondem ao caleidoscópio de figuras que habitam, revezando alívio cômico, tensão dramática,  pulsão performativa e licenças coreográficas. Quando correm em círculo pelo espaço cênico lembram a arte de Pina Bausch. Em meio a essa deriva, a partitura recorrente consiste em escolher peças entre os montes de roupas e a partir dessa ação compor fragmentos. Modelos, cortes, cores e texturas podem combinar ou contrastar com a figura ou acontecimento evocado.

Há referências a contextos cariocas, como o estado de guerra civil urbana e o assassinato de uma moradora de rua por um lutador de MMA e uma estudante de medicina. Os quadros podem durar um frame ou ser mais estendido, como o que enfoca os paroxismos da sexualidade e do casamento, o vão entre liberdade e conservadorismo. Há também aquele em que Deus é colocado em xeque.

Contrariando a era da informação e da imagem, o espetáculo combina seu algoritmo dramatúrgico alternando cadência e velocidade sem turvar o pensamento. Antes, acende faíscas e sabe demarcar silêncios para o público processar as probabilidades, acasos e iminências.

João Caldas

Milhares de peças de roupa compõem o espaço cênico, recurso que remete ao signo do que se veste e se é na sociedade

O título, aliás, pressupõe dobras como a 16ª letra do alfabeto grego, Pi, que na matemática é uma constante usada para calcular a circunferência de círculos a partir do raio ou do diâmetro, enquanto o termo panorâmica, na cultura audiovisual, corresponde ao movimento de uma câmera em torno de seu próprio eixo, ou seja, sem se deslocar, capturando imagens em sentidos horizontal ou vertical.

A cena final, por sua vez, religa Bia Lessa ao poder da visualidade, traço marcante de sua assinatura nos primeiros anos de ofício. Um efeito artesanal e terrificante envolve todo o espaço, caracterizando os tempos sombrios do presente histórico – ao qual o desenho de som corrobora decisivamente, como em outros pontos da narrativa. As urgências urdidas até então ganham uma tradução imagética arrebatadora e diametralmente oposta àquela da primeira ópera que encenou, Sóror Angélica, de Giacomo Puccini, quando dezenas de crianças nuas ocupavam o palco com seus passinhos, à maneira de um coro de anjos que redime a jovem freira encerrada num convento pela família, após ser mãe solteira. Corria o ano de 1990, 28 anos atrás. As esperanças estão sendo carcomidas.

Serviço:

Onde: Teatro Novo (Rua Domingos de Moraes, 348, Vila Mariana, tel. 11 3542-4680)
Quando: Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 18h. Até 29 de julho
Quanto: R$ 50 (sexta) a R$ 70 (sábado e domingo)
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 16 anos

Equipe de criação:

Textos: Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant’Anna, com citações de Franz Kafka e Paul Auster

Concepção, direção geral e escritura cênica: Bia Lessa

Com: Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo

Diretor assistente: Bruno Siniscalchi

Assistentes de direção: Amália Lima e João Saldanha

Concepção musical: Dany Roland

Desenho de som: Estevão Casé

Figurino: Sylvie Leblanc

Assistentes: Julia Barreto e Clara Lessa

Iluminação: Bia Lessa e Wagner Freire

Cenografia: Bia Lessa

Fotos: João Caldas

Programação visual: Vicka Suarez

Assessoria de imprensa: Beth Gallo, Dani Bustos e Thais Peres (Morente Forte)

Coordenação de produção: Egberto Simões

Produção executiva: Martha Lozano

Assistência de produção: Bárbara Santos

Assistência administrativa: Alcení Braz

Administração: Danilo Bustos

Idealização: Cláudia Abreu e Luiz Henrique Nogueira

Produtoras: Selma Morente e Célia Forte

Patrocínio: Marisa, Laboratório Cristália e Porto Seguro

Realização: Morente Forte Produções Teatrais

 

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Cursa doutorado em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado na mesma área.

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