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Crítica

Nós da alienação

26.8.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Leekyung Kim

O desengajamento aparente de uma obra de arte pode ser estratégico para potencializar consciência crítica. Isso é perceptível no espetáculo Love, love, love, com o Grupo 3 de Teatro, que incide sobre alienação intrafamiliar. Sujeitos vivendo sob o mesmo teto tornam-se estranhos uns aos outros, corroendo o caráter e causando estranhamento à própria natureza de cada um.

A peça do britânico Mike Bartlett envolve pai, mãe, irmã e irmão numa espiral de quase 50 anos. Vai da celebração do sentimento amoroso entre duas pessoas à oxidação do mesmo. Aqueles que sonharam e praticaram a liberdade nos diferentes planos da existência agora sentem os efeitos da mediocridade em que suas vidas, assim como a dos filhos, ora adultos, foram convertidas ou se deixaram converter.

A dimensão psíquico-moral é construída pouco a pouco na dramaturgia de ‘Love, love, love’, que ultrapassa a bolha do lar e é afetada pelos reflexos históricos de cada época

Essa história principia no namoro do casal universitário que se conhece em 1967 e é influenciado pelo movimento hippie. Avança para os anos 1990 com o casamento e o pragmatismo de classe média urbana na criação dos filhos adolescentes e na manutenção da carreira profissional. E desdobra até meados da década atual, expondo os pais separados há anos, com algum nível de amizade e de desprezo mútuo, anestesiados pela fixação material, além do quadro desalentador do caçula com distúrbios de saúde mental e da primogênita disposta a passar a limpo a confusão emocional herdada desse convívio, desabafando tudo que restava engasgado.

Segundo o psicanalista Jurandir Freire Costa, cada sofrimento é uma experiência única e, muitas vezes, incomunicável. Mas alguns sofrimentos são originários de situações socioculturais comuns a comunidades locais ou globais. Natural, portanto, o processo de identificação com as personagens consanguíneas da narrativa que nos acompanha após a sessão.

Leekyung Kim

A partir da esquerda, Débora Falabella, Augusto Madeira e Yara de Novaes em ‘Love, love, love’

A dimensão psíquico-moral é construída pouco a pouco na dramaturgia que ultrapassa a bolha do lar e é afetada pelos reflexos históricos de cada época. A obra de Bartlett (nascido em 1980) guarda filiação estilística com a de outro autor inglês, Harold Pinter (1930-2008), pelo humor desconcertante, a exposição de ambiguidades, as relações familiares atomizadas pelo mundo também hiper-fragmentado.

Diretor convidado do Grupo 3 de Teatro, Eric Lenate contrapõe o grau de disfuncionalidade humana a uma minuciosa concepção metateatral para sustentar o continuum da narrativa tripartida. O palco é de fato o habitat das personagens e do jogo dos atores vistos permanentemente nas coxias e urdimentos desnudos, mesmo quando não são a fala ou o silêncio da vez.

Nas duas transições espaço-temporais da peça o público visualiza a mutação dos cenários materialmente codependentes em seus avessos, cores e texturas, engendrados por André Cortez. Os atores fazem as vezes de contrarregras, substituem figurinos e adereços para caracterizar a passagem dos anos. Esses momentos de respiro são cruciais para se elaborar o fosso geracional que só cresce.

A atuação de Yara de Novaes torna-se central não apenas pela presença da mãe, motor das desestabilizações (sob a inércia do marido, diga-se), mas pelas nuances da mulher da década de 90 para a de 2014, emocionalmente apartada dos seus. Uma mãe impiedosamente contemporânea, por meio da qual o autor contraria as convenções e se abstém de julgamentos. Expõe, ponto, delegando a tarefa ao espectador, se este assim o quiser. As práticas e pensamentos juvenis, progressistas e coletivizantes dão lugar a uma suntuosidade vazia da matriarca.

Leekyung Kim

Cena da primeira fase da peça, com Débora Falabella, Alexandre Cioletti (esquerda) e Mateus Monteiro

Tais gradações são mais evidentes nos saltos dos papeis cumpridos por Débora Falabella nas diferentes fases, exigindo-lhe presença integral de fôlego: a jovem libertária que virá a constituir família, a filha adolescente de desejos entrincheirados e a mulher de trinta e poucos anos que chamará os pais à consciência, em alto e bom tom, acerca desse estado continuado de coisas.

As personagens masculinas escritas por Bartlett são ainda mais inseguras, no que os atores correspondem. Augusto Madureira é o pai que mata o ímpeto idealista da juventude e escuda-se na ostentação e na bebida. Mateus Monteiro vive seu irmão no início, estudante que padece do machismo e de quem conquistou a namorada. Coube a Alexandre Cioletti interpretar o pai quando jovem e o filho adolescente e depois adulto, deste conseguindo traduzir no corpo o contorcer de uma alma que dói pelo abandono.

Numa aproximação a outro espetáculo empenhado em retratar o cotidiano de uma família disfuncional, La omisión de la familia Coleman (2005), da companhia argentina Timbre 4, que passou por festivais brasileiros, Love, love, love (2017) combina uma teatralidade pulsante, a partir de um contexto realista, e frisa o quanto o tripé sexo, drogas e rock and roll desandou para o avanço da mentalidade ultraconservadora. Já a peça escrita e dirigida por Claudio Tolcachir, mantida em repertório, concentra a ação na casa da avó, exceção ao quarto de hospital em que foi internada e para lá todos se mudam. Pai ausente, mãe infantilizada, filhos com problema de saúde mental ou alcoólatra, é a partir desse entulhamento também realista, até na cenografia, que a obra toca em feridas e interrompe silenciamentos.

O mal-estar erigido na travessia da memória de décadas em Bartlett, com noções de finitude, de liberdade e até de verdade regurgitando no núcleo familiar, surge riscado nos dias de hoje com igual espanto em Tolcachir. Em ambas as peças, os diálogos e situações instilam o riso exasperante e as distorções do nosso tempo.

Aos 13 anos de estrada, o Grupo 3 de Teatro – fundado por Débora Falabella, Yara de Novaes e pelo produtor, iluminador e diretor Gabriel Fontes Paiva – arriscou-se a incorporar um segundo texto de Mike Bartlett no intervalo de quatro anos, Contrações (2013) e Love, love, love. Foi a primeira dobradinha no currículo que já visitou obras de Nelson Rodrigues, Murilo Rubião e do chileno Marco Antonio de la Parra. Assim, introduziu em palcos brasileiros um dramaturgo de 37 anos, que hoje conta pouco mais de uma década de atuação profissional, projetado numa residência do Royal Court Theatre, instituição londrina voltada à formação de jovens autores. Em Contrações, a mordacidade das entrevistas da diretora de recursos humanos com uma funcionária tampouco é reducionista no modo como escancara as entranhas do mundo corporativo, modulando a abdução do sujeito a outros contextos interpessoais em sociedade. Quanto mais indireto, mais o texto de Bartlett disseca a realidade absurda.

Leekyung Kim

Yara de Novaes como a mãe nos anos 90

Leekyung Kim

Débora Falabella como a estudante nos anos 60

Serviço:

Onde: Teatro Vivo (Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2.460, Vila Cordeiro, São Paulo, tel. 11 3279-1520)

Quando: Sexta, às 20h; sábado, às 21h; e domingo, às 18h. Até 16/9

Quanto: R$ 50 e R$ 60 (sábado e domingo)

Duração: 110 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

Horário da bilheteria: terça a quinta-feira, das 14h às 20h. De sexta a domingo, das 14h até o início do espetáculo.

Estacionamento: R$ 20 (Estapar Valet)

Equipe de criação:

Autor: Mike Bartlett

Tradutora: Maria Angela Fontes Frederico

Diretor Artístico: Eric Lenate

Com: Augusto Madeira, Débora Falabella, Mateus Monteiro, Alexandre Cioletti e Yara de Novaes

Iluminação: Gabriel Fontes Paiva

Trilha sonora: L.P. Daniel

Cenário: André Cortez

Figurinos: Fabio Namatame

Transportadora oficial: Avianca

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

 

 

 

 

Valmir Santos

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