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Crítica

A arquitetura da persuasão

22.11.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Leekyung Kim

Estrangeiros às dores do povo chileno durante a ditadura militar, saímos pungidos da experiência de Villa, a peça de Guillermo Calderón montada por Diego Moschkovich. A empatia do espectador não decorre apenas da abordagem artística do material em torno do terrorismo de Estado. As entrelinhas gritam o avançado grau de discussão daquela sociedade sobre as sequelas do governo do general Pinochet (1973-1990).

Lá, quem torturou foi julgado e preso. No Brasil, os crimes de lesa humanidade não foram punidos ou sequer admitidos pelas Forças Armadas, sob o escudo da lei de Anistia forjada em 1979, a seis anos do fim do regime (1964-1985). Inclusive quando tinham como alvo as ações das guerrilhas e suas diferentes motivações e modos de resistência.

Além do contraste da naturalização da injustiça por décadas, o Brasil acaba de alçar à Presidência da República, a essa altura do milênio, um grupo político liderado por militares da reserva que cultuam torturadores e ignoram as centenas de cidadãos presos, executados e desaparecidos no período. Legitimam a tirania.

Em ‘Villa’, Diego Moschkovich promove uma leitura autoral nesta que é sua terceira direção de um texto de Guillermo Calderón. O desenho concêntrico do embate das três arquitetas ao redor da mesa ganha pontos de fuga nuançados pela projeção em vídeo do interior de uma maquete, reforçando o ambiente claustrofóbico da ditadura do general Pinochet

O processo de legitimação é nuclear em Villa. O texto confronta a memória e expõe a disputa de narrativa para transmiti-la com coerência factual e simbólica às gerações chilenas que virão. Na inescapável comparação brasileira, estamos longe do estágio de reconhecimento ou disposição para o contraditório, por parte dos militares, sequer após a anunciação do relatório da Comissão Nacional da Verdade (2012-2014).

Na peça, três jovens arquitetas tentam convencer umas às outras sobre suas ideias acerca da destinação da área onde funcionou o Quartel Terranova, mais conhecido como Villa Grimaldi, em Santiago, um dos endereços da prática sistemática de sequestro, tortura e extermínio pelos agentes da repressão. As mulheres compõem uma comissão especial determinada a conjecturar sobre reconstruir o local, erguer um museu ultramoderno, pôr abaixo o que restou e gramar o terreno vazio ou simplesmente deixar tudo como está, então semidestruída para fins imobiliários.

Segundo a tradutora Maria Soledad Más Gandini, originalmente o local era um complexo de luxo usado como ponto de encontro para a elite de intelectuais e artistas nos séculos XIX e XX, com salas para reuniões, um teatro e uma escola. Quando as atividades da polícia secreta e de um organismo da segurança nacional foram desativadas, a propriedade foi explorada economicamente e quase desapareceu. A mobilização de familiares, amigos, movimentos sociais e por direitos humanos impediu o apagamento da história. Hoje, sabemos, foi convertida em monumento nacional com a intenção de sublimar a justiça.

Leekyung Kim

Flávia Strongolli, Angela Ribeiro e Rita Pisano interpretam três arquitetas que discutem o destino de um centro de tortura vigente na ditadura militar chilena (1973-1990)

É a partir desse quadro que Calderón questiona as boas intenções numa sociedade que experimentou as etapas do socialismo (Salvador Allende foi deposto pelo golpe militar em 1973) e da ditadura que preparou o terreno para o neoliberalismo – o país costuma ser citado como modelo mundial de economia regida pela lógica do mercado, esse ente.

Tudo isso é subtexto para a esgrima retórica das três vozes femininas, arquitetas que ainda atendem pelo mesmo nome e têm a mesma idade: Alejandra, 33 anos. O autor não explicita, mas, conforme a tradutora, pode ser uma referência a Marcia Alejandra Merino Veja, ex-militante do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Ela foi detida, torturada e acabou delatando os companheiros. Capitulou de vez tornando-se colaboradora da Dirección de Inteligencia Nacional (DINA), o DOI-CODI deles. Atualmente conta 70 anos.

No embate de visões, o dramaturgo joga com ambiguidades e assertividades que marcam os próprios movimentos da história do país. O que jamais exime Calderón de posicionar-se. Desde que passou por São Paulo com Neva, em 2008, somos observadores de uma década de criações teatrais que colocam a argumentação no centro do discurso cênico. A fala é persuasão; a técnica, pensamento. Em peças como Clase, Deciembre, Discurso, Escuela e Mateluna a perspectiva política é condicionada a acontecimentos recentes ou remotos. Sua arte investigativa poderia ser entendida como metadocumento, assim como uma linguagem comenta ou é interpenetrada por outra linguagem. É um examinador tenaz de seu tempo.

As idas e recuos das Alejandras interpretadas por Angela Ribeiro, Flávia Strongolli e Rita Pisano mostram como os desígnios dos eleitores e dos dirigentes de uma nação recaem sobre os indivíduos e são traçados coletivamente, digamos assim. As idiossincrasias e diferenças manifestas resultam matéria-prima da convivência dos contrários numa democracia. Os dissensos não se anulam, mas o esforço pela conversação apara, por ela mesma, um mínimo comum.

Refletir, argumentar, arguir e finalmente votar é uma das sequências que o trio de arquitetas realiza, na esperança de chegar a bom termo. Testam a estratégia mais elementar e ainda adotam como plano “b” o acordo verbal, em última instância.

Leekyung Kim

Angela Ribeiro e a maquete cujas imagens projetadas do seu interior reforçam o ambiente claustrofóbico do Chile sob o regime autoritário

As integrantes dessa comissão fictícia se conheceram há cerca de meia hora e as sustentações progressistas, conservadoras e anacrônicas que disparam, bem como suas defensivas, levam o público a processar as informações dosadas de suas caminhadas para daí associá-las à concretude da área em pauta. Um documento inanimado, lugar da morte e do horror a ser eternizado para que o ocorrido entre suas paredes jamais se repita.

E uma peça de Calderón nunca deixará o espectador ir para a casa ou alhures apaziguado. Suas histórias topam com a realidade mesmo quando encenada em outra língua.

Na terceira direção de um texto de Calderón (após Neva em 2015 e Diciembre em 2016), Diego Moschkovich promove uma leitura autoral descolando-se inteligentemente da montagem original – o chileno costuma ser o primeiro encenador de seus textos. O desenho concêntrico do embate ao redor da mesa ganha pontos de fuga nuançados pela projeção em vídeo do interior de uma maquete, reforçando o ambiente claustrofóbico. Imagens do cenário real situam o interlocutor brasileiro das instalações e lembranças alheias.

A estreia de Villa no Sesc Pinheiros, em São Paulo, precedeu o segundo turno das eleições e a temporada atravessa a cizânia brasileira como um eco involuntário dos nossos solavancos de 2013 para cá.

Quase oito anos após a temporada inaugural que presenciamos em janeiro de 2011, numa das salas de um prédio da rua Londres, na capital chilena, onde funcionava outro centro de tortura, os diálogos desse drama soam absolutamente afins ao momento brasileiro. O público tem a chance de confrontar a memória da própria nação com a do país vizinho.

No plano mais recente, a presidenta chilena Michele Bachelet concluiu seu primeiro mandato em 2010. A presidenta Dilma Rousseff assumiu a primeira gestão em 2011. Em janeiro daquele ano, Calderón e o coletivo Teatro Playa exibiram pela primeira vez o projeto Villa+Discurso, que consistia na apresentação das respectivas peças em sequência, não necessariamente nessa ordem. A maleabilidade das biografias de Dilma e Bachelet eram mais prementes. Discurso é a despedida da presidente chilena com a sinceridade desabrida de quem contrariou as expectativas de uma gestão de filosofia socialista e sucumbiu a uma condução convencional. Na hora de passar a faixa presidencial adiante ela solta o verbo, como se terceirizasse a voz.

Dilma e Michele foram as primeiras mulheres a elegerem-se duas vezes para o cargo mais representativo do poder político em seus países. Michele e a mãe foram presas na Vila Grimaldi, sofreram torturas. O pai dela, um general leal a Allende, foi assassinado pelo regime. Dilma militou pela Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares), organização que chegou a cogitar o militarismo para depor o governo dos generais.

Leekyung Kim

Angela, Flávia e Rita contracenam na peça de Guillermo Calderón em que o diretor Diego Moschkovich faz conexões com os impasses da atual crise política no Brasil

As congruências e inflexões são mais perceptíveis em Discurso, mas a Villa de Moschkovich é contaminada pela condição da mulher e presidenta que sofreu impeachment após o golpe parlamentar, em 2016, e enfrentou a marcação cerrada do patriarcalismo, inclusive no interior do seu partido, o PT. Esse enunciado não brota da pena de Calderón, evidentemente, mas da firmeza das atuações, do crescendo da atmosfera que arrasta o público para o olho do furacão. Somos tocados pelo impasse das arquitetas que, indiretamente, nos induzem a pensar sobre a escolha que a maioria relativa recém-tomou nas urnas.

No documentário Arquitetura da destruição – lançado semanas antes da Queda do Muro de Berlim, em 1989 –, o cineasta sueco Peter Cohen narra que Hitler era um pintor frustrado e que sonhava em ser arquiteto. Como não conseguiu, sublinhou o desejo nazista de criar, através da pureza, o que entendia por um mundo mais harmonioso. Algumas dissimulações da peça chegam perto dessa escala.

.:. O diretor Diego Moschkovich e a atriz Rita Pisano são os convidados do 26º Encontro com o Espectador no domingo, 25/11, às 15h, no Itaú Cultural. Eles vão refletir com o público e a crítica acerca de Villa, sob mediação da jornalista Beth Néspoli. Entrada franca. Mais informação, aqui.

Serviço:

Onde: Sesc Pinheiros – auditório do 3º andar (Rua Paes Leme, 195, tel. 11 3095-9400

Quando: Quinta a sábado, às 20h30; feriado, às 18h. Até 24/11

Quanto: R$ 7,50 a R$ 25

Duração: 60 minutos

Classificação indicativa: livre

Equipe de criação:

Texto: Guillermo Calderón

Tradução: Maria Soledad Más Gandini

Historiadora: Sonia Brandão

Direção: Diego Moschkovich

Assistente de direção: Diego Chillio

Com: Angela Ribeiro, Flávia Strongolli e Rita Pisano

Iluminação e vídeo: Amanda Amaral

Trilha Sonora: LP Daniel

Figurino: Diogo Costa

Cenografia: Flora Beloti

Maquete: Guilherme Tanaka – goma oficina plataforma criativa?

Animação 3D: Caio Mamede

Designer gráfico: Angela Ribeiro

Fotos: Leekyung Kim

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Produção executiva: Iza Marie Micele e Lucas Candido

Produção: Bia Fonseca

 

 

 

Valmir Santos

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