Fernando Peixoto

escrito por vals em janeiro 15, 2012

Ele morreu na última madrugada. Fernando Peixoto tinha 74 anos. O ator, diretor, dramaturgo, jornalista, tradutor e historiador de teatro estava internado no hospital São Luiz, em São Paulo, devido a um câncer no intestino.
A Editora Hucitec, com a qual mantinha vínculo e por lá publicou a maioria dos seus livros, informa em nota que o corpo será cremado amanhã, às 11h, em Vila Alpina, em São Paulo. leia mais »

Sérgio Britto

escrito por vals em dezembro 17, 2011

O ator Sérgio Britto na pele do homem inerte de Samuel Beckett, em 2009

Uma forte lembrança de Sérgio Britto vem de 2009, corpo arqueado, o teatro e a vida inscritos no peito nu do homem desesperado para alcançar uma garrafa d’água no deserto e, quando desiste, o objeto vai até ele, que não mais reage. A inação explícita de Ato sem palavras I, de Samuel Beckett. Na mesma noite, emendava A última gravação de Krapp, o velho rebobinando sua voz nas platitudes juvenis de uma existência que não foi. Mais Beckett. Esse projeto duplo, dirigido por Isabel Cavalcanti, mostrava o tamanho da coragem do artista ao vestir-se da forma e do conteúdo na solidão do palco sem o escudo da fragilidade física dos 85 anos de então. Sérgio Britto morreu esta manhã, no Rio, de insuficiência respiratória aguda. Tinha 88 anos, 66 de convívio teatral com atalhos para a televisão e, mais raramente, o cinema. Abaixo, uma foto de julho de 1961, aos 38 anos, estampando o programa de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, a quinta produção do Teatro dos Sete na qual contracenava com Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Mário Lago, Oswaldo Loureiro e Suely Franco, entre outros, sob direção de Fernando Torres. Ocorre-me ainda lembranças da sua composição para o desmoronamento do caixeiro-viajante James Tyrone em Longa jornada noite adentro, de Eugene O’Neill, em 2003, ao lado de Cleyde Yáconis e com direção de Naum Alves de Souza.


Como o infame repórter rodriguiano no Teatro dos Sete, aos 38 anos

A demissão de Mariangela Alves de Lima, 40 anos de crítica

escrito por vals em dezembro 11, 2011

A crítica Mariangela Alves de Lima, 40 anos de ofício em O Estado de S.Paulo, foi demitida na última sexta-feira. Choca a decisão administrativa do jornal: desligar a pensadora que inscreveu seu nome na história contemporânea do matutino e do teatro brasileiro sem que tal memória fosse ponderada. leia mais »

Mostra Cena Breve Curitiba – A Linguagem dos Grupos de Teatro

escrito por vals em outubro 31, 2011

Otavio Linhares e Janaina Matter, da Súbita Companhia

Terminou ontem, com a etapa de circulação por cidades vizinhas, a sétima edição da Mostra Cena Breve Curitiba – A Linguagem dos Grupos de Teatro. Dias antes, acompanhei as apresentações e comentei os trabalhos locais e de outros Estados no blog do encontro concebido e realizado pela CiaSenhas. Reproduzo a seguir o último e o primeiro posts, respectivamente. leia mais »

Poa em Cena – Agreste Malvarosa

escrito por vals em outubro 31, 2011

Millene Ramalho (esq.) e Rosana Barros

O espetáculo Agreste malvarosa não só recupera o subtítulo que Newton Moreno guardava entre parênteses na peça original, de 2001, como traz duas atrizes no papel do casal que está no olho da narrativa. Eis os exemplos, para começar, de contraposição e dialogismo em relação à premiada montagem de Marcio Aurelio para o mesmo texto, em 2004, com atuações de Joca Andreazza e Paulo Marcello, trio da Companhia Razões Inversas. A recente concepção de Ana Teixeira e Stephane Brodt, em projeto paralelo à Companhia Amok Teatro, também sublinha a linguagem como suporte absoluto da cena, em todos os sentidos, sem ceder a tentações que chapariam o texto no registro da cultura popular, o escapismo regionalista do qual essa dramaturgia bebe, mas não se embriaga.

Idealizadora da produção carioca, a atriz Millene Ramalho compõe com Rosana Barros uma dupla convincente, técnica e poeticamente, no trânsito por Etevaldo e Maria – o amor incondicional desses seres “tímidos como caramujo” – e aqueles que gravitam ao redor do casal e vão se espantar justo após a morte do “marido”, fixados no órgão genital dele ou, melhor, na sua ausência. A sexualidade é o pomo da discórdia. Tanto Aurelio quanto Teixeira e Brodt relativizam essa questão de gênero ao lançar mão de intérpretes masculinos e femininos e conferir dimensão humanista aos protagonistas. leia mais »

Poa em Cena – 9 mentiras sobre a verdade

escrito por vals em setembro 30, 2011

Vanise Carneiro é Lara, vislumbrada pelo cinema

Para tantos universos femininos que o teatro vasculha desde sempre, buscando traduzir, por exemplo, as páginas de uma Clarice Lispector ou de uma Hilda Hilst, fontes altaneiras, o monólogo 9 mentiras sobre a verdade arranja-se bem nas inversões de expectativas. É teatro apropriando-se sutilmente da linguagem do cinema não para narrar em projeções, mas configurar imagens que as palavras dizem ou que os poucos adereços e objetos vintage deixam entrever no palco.

Tempo, espaço e memória surgem dilatados na cabeça de Lara por meio de suas “anotações mentais”, como gosta de pontuar. A personagem interpretada por Vanise Carneiro se quer atriz com relativo prestígio nos estúdios. Às voltas com seus botões, põe-se a filosofar sobre feridas menos evidentes. Funde o relato que se presume pessoal com a ficção extraída dos filmes dos quais participou ou gostaria de ter protagonizado. leia mais »

Poa em Cena – A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem

escrito por vals em setembro 27, 2011

Adriana Zattar, da Companhia Espaço Cênico

Dois seres ilhados aos poucos se tocam em suas memórias e deslocamentos no tempo e no espaço. Cenas envoltas na penumbra reforçam uma experiência mais auditiva que visual, como dão fé os verbos no nome do espetáculo. A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem constrói um campo sensório em que o espectador está ao alcance da mão estendida do intérprete. O tato, porém, importa menos que a atenção consciente e clandestina diante de sentidos outros na cohabitação proposta pelos criadores da Companhia Espaço Cênico.
O ponto de partida, sincrônico ou ao acaso, é o encontro dos personagens que nunca se viram – assim como quando artistas e público se descobrem numa noite. leia mais »

Poa em Cena – Histórias de amor líquido

escrito por vals em setembro 24, 2011

Ana Kutner contracena com holografia

Parte da equipe e das escolhas formais de Um navio no espaço ou Ana Cristina César, apresentado no festival em 2010, está presente na produção do Rio cujo título ratifica a influência do sociólogo e ensaísta polonês Zygmunt Bauman e seu livro Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos (2003).
A direção de Paulo José se deixa levar pragmaticamente pelos recursos audiovisuais que em raros momentos atingem a dimensão poética dominante na montagem anterior. As projeções ajudam a compor o espaço cenográfico (parede, janela, ponte). Ganham status, inclusive, de personagens holográficos contracenando com atores ao vivo. leia mais »

Poa em cena – Dentro da noite

escrito por vals em setembro 21, 2011

Alvisi no primeiro conto de João do Rio que dá título ao espetáculo

Na adaptação teatral de dois textos do cronista João do Rio (1881-1921), a assinatura de Ney Matogrosso na direção e na cocriação do desenho de luz não é protocolar. A experiência como ator no início da carreira, seu extraordinário desempenho de palco como cantor, há mais de 40 décadas, são credenciais para a parceria com Marcus Alvisi em Dentro da noite. leia mais »

Poa em Cena – Amar

escrito por vals em setembro 18, 2011

Atrizes de Amar, texto e direção do argentino CatalánO título é Amar, mas os sentidos que o verbo revela o autor e diretor Alejandro Catalán prefere ocultar. Mergulhado o tempo todo em penumbra, o espetáculo escapa desesperadamente à armadilha dos códigos sentimentais para sustentar-se nas tramas da linguagem. O ator é veículo absoluto na operação de luz rarefeita, na presença oculta jogada às claras com o espectador, na manipulação artesanal ainda dos objetos, adereços e do som. Expor os procedimentos confere uma noção totalizadora ao encontro ao vivo, sublima distanciamento ao público.
Três homens, três mulheres, três casais. Seus históricos afetivos são fragmentados durante o encontro noturno, jornada de uma festa num balneário com direito a pista de dança, jardim, praia logo adiante. leia mais »