Castorf e a arte da contraposição

escrito por vals em março 20, 2010

foto: Thomas Aurin | Cena de Medéia


Na primeira noite em Bogotá, ontem, fui assistir à versão do grupo alemão Volksbühne para o clássico Medéia. O espetáculo apresentado num ginásio de esportes ocupou metade da quadra com areia. O espaço cênico sugere terra arrasada: tomado por garrafas PET, papéis e demais tranqueiras; uma fogueira; uma tenda do lado esquerdo fazendo às vezes de um palácio ou casa; e ao fundo do cenário um plástico preto inteiriço, mais de quatro metros de altura, ergue-se imponente, de uma ponta a outra, como um pano de fundo sombrio do passado e do presente históricos.


A arquibancada móvel e a de concreto, nas laterais, não estavam lotadas, como numa final de basquete, mas o trabalho do diretor Frank Castorf atraiu cerca de 200 pessoas, um bom público considerando-se os 20 espetáculos apresentados na largada do Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá (FITB). Cerca de um terço da platéia foi retirando-se aos poucos, situação parecida com aquelas das sessões em Sáo Paulo de Anjo negro de Nelson Rodrigues com a Lembrança de uma revolução: A missão de Heiner Müller e Na selva da cidade, ambas as montagens dirigidas por Castorf.


Sua Medéia, a atriz Jeanette Spassova, enfeitiça não só pela natureza mística da personagem, mas pela sensualidade mesmo. Dissolve-se a imagem da bruxa carcomida pela vingança. Medéia vai até onde seus pés se movem para atrair Jasão – mata pátria, pai e irmão – com a mesma fúria com que se vinga dele – mata os filhos. A montagem tira a balança da razão versus moral, no plano passional, digamos, e põe outras cartas na mesa sobre o poder.


A versão de Castorf é baseada na tragédia de Sêneca com excertos do romance Heidegger na Criméia, do cineasta e escritor alemão contemporâneo Alexander Kluge. O “teatro de guerra” desenhado pelo filósofo romano na antiguidade amplia seu raio de alcance até século XX, nos anos 1940, numa Alemanha às voltas com os massacres em massa pela organização SS na Segunda Guerra. O que está em xeque são as atitudes humanistas e as atitudes morais – em que medida elas se antagonizam ou se justificam?


Na encenação, a representação da mulher é sublinhada pela opção de colocar atrizes na figura dos filhos sacrificados por Medéia, esta em meio a uma frigideira e um televisor que dão pistas da vida doméstica, ou domesticada, e suas formas de violência – como na hora em que duas figuras aparecem de burca preta como sombras da protagonista de vestido azul.


O tratamento épico, em que atores e atrizes entram e saem das suas figuras na relação direta com o público só é quebrado quando, na parte final, surge o coro mascarado, sintetizado em duas mulheres ¨douradas¨que carregam tochas. Ao pontuar os elementos da natureza e sua voragem, Castorf lembra a estratégia que Antunes Filho adotou em sua montagem de 2001,  via Eurípides, encabeçada por Juliana Galdino, quando era abordada a capacidade de concepção e destruição da Mãe Terra.


foto: Thomaz Aurin | Jeanette Spassova à frente do elenco de Medéia

foto: Thomaz Aurin | Jeanette Spassova à frente do elenco de Medéia


As razões de Castorf são sempre “desagradáveis”, seu teatro não tem espaço para ilusão. Em Medéia, são recorrentes os seus “comentários” dentro da dramaturgia, a autocitação, a dessacralização de Sêneca, a evocação à conterrânea Pina Bausch, e por aí segue.


Realmente, é difícil o espectador segui-lo nesse deserto. Os aplausos miúdos ao final e a falta de entusiasmo de Castorf ao lado do elenco reflete esse vão. Apesar disso, o diretor assume um discurso popular para a sua forma exasperante, em suas criações frrancamente precárias na forma e provocadoras no conteúdo. Entretanto, há muito mais humanidade em suas razões estéticas do que a moral pós-moderna imagina. Sob sua direção artística desde 1992, o Volksbühne tem jogado em cena sob o espírito da contraposição irrestrita aos cânones da própria história teatral de seus país – Heiner Müller é influência assumida de Castorf.

3 comentários to “Castorf e a arte da contraposição”

  1. Mau Alcântara Says:

    Valmir, uma das coisas mais marcantes que vi nos últimos anos foi o “mashup” de Castorf para Nelson Rodrigues e Heiner Müller em “Anjo Negro…”.

    Quando vi a programação de Bogotá, essa Medeia foi uma das primeiras coisas que me saltaram aos olhos – já faz tempo que eu queria ver algo mais de Castorf(ano passado estive em Berlim, hospedado AO LADO do Volksbühne, mas eles estavam de férias).

    Muito legal que você esteja por aí cobrindo tudo isso. Fundamental que haja um registro brasileiro desse festival que, na minha opinião, tem uma das programações internacionais mais incríveis que já vi. Principalmente porque esteve aqui do lado e, ao que parece, NADA do que esteve por aí foi trazido com escala pra cá. Enquanto isso, nossos festivais continuam todos muito parecidos, parecendo uma única escalação-matriz que vai sendo reprisada ao longo do ano em várias cidades…

    Grande abraço e boas vindas ao Teatrojornal!
    Maurício

  2. vals Says:

    Maurício,
    Vou aqui para o sétimo dia em Bogotá e a sensação corresponde mesmo a esse gigantismo de mais de 20 produções numa noite… sem contar o que eles chamam aqui de Cidade do Teatro, que conheci hoje, alojada numa área de exposições e eventos com outra penca de atrações “para a família”. Ao mesmo tempo, dá uma sensação de varejo que não sei, vai tudo para a conta do “evento” e não de uma amarra mais bem sustentada e menos coração-da-mãe-joana. Obrigado pela torcida, pela interlocução. Um abraço e saudações à Bacante!
    Valmir

  3. Instantâneo Says:

    [...] Iberoamericano de Bogotà. A crítica ao espetáculo, assinada por Valmir Santos, pode ser lida aqui. Veja também alguns trechos do [...]

deixe um comentário