Um moleque no jardim da velhice, Bob Wilson vibra com Beckett

escrito por vals em março 23, 2010


As obras já se tocavam havia tempos, décadas, mas nunca de maneira tão encarnada. A expressão pode ser pouco feliz, considerando-se o caráter cirúrgico das representações visual e textual com as quais decalcaram a segunda metade do século XX, mas ocorre de maneira providencial diante do solo de Robert Wilson na pele do velho iconoclasta de A última gravação de Krapp, um dos destaques do Festival de Bogotá.

A Última Gravação de Krapp

Wilson na pele do velho Krapp de Samuel Beckett Foto: Lesley Leslie-Spinks



Um encontro memorável, em todos os sentidos. A matéria-prima da peça de Beckett, escrita em 1958, são as lembranças rebobinas por um sujeito que ouve a si mesmo aos 39 anos e ri daqueles vislumbres de felicidade inconsequentes. No rito diário de sua “vozoteca” de pensamentos, resta-lhe pouco do rapaz que não quer mais para si, no fogo da idade que esse viúvo solitário diz consumi-lo aos 69 anos, entre ser e permanecer. No seu caso, a imobilidade e o tempo são complementares.


A morte perscruta, o espaço é envolto pela escuridão. Dela, o encenador Wilson extrai lâminas de luz que mais parecem realçar o subterrâneo daquele ser. Luminárias laterais, no alto, e o painel de engradado branco ao fundo reforçam o clima de reclusão. Bunker. Vemos uma mesa cujas gavetas estão dispostas na direção do público e guardam fitas antigas. Há uma cadeira, caixas de arquivo em papelão. No plano do invisível, imaginamos o cômodo atrás do cenário, aonde o personagem se dirige uma vez ou outra para beber um copo d’água – movimento que ouvimos e intuímos.


A Última Gravação de Krapp

Wilson evoca gestualidade de Buster Keaton Fotos: Lesley Leslie-Spinks


Esqueça o Krapp soturno, rastejante, terminal, previsível. Aos 70 anos, o Bob Wilson ator condiz com o vigor da expectativa de vida no século 21. Seu homem é alquebrado sem ser caricato na postura. Solidão nem sempre corresponde à decrepitude, pondera.


Quem o ampara nessa leitura é a linguagem do clown, tão cara à obra beckettiana. Ao cotejar a gestualidade cinematográfica de um Buster Keaton, o olhar penetrante e a face e as mãos pintadas de branco, Krapp ganha outro registro, uma expressividade límpida e vivaz que entra em tensão com a própria narrativa por vezes tenebrosa. Daí o elemento cômico acentuado nas bananas que descasca parcimoniosamente e no par de meias vermelhas – gotas rubro-amarelas num espetáculo em preto e branco.


As rubricas são respeitadas à risca, permitindo-se leves alterações, como não valorizar o escorregão na casca de banana, o que talvez redundasse a verve comediante e desviasse o foco.


Mas a principal vibração de Wilson não está nem na palavra nem na imagem. Desponta uma terceira via entre ele e Beckett: o som e sua feição escultural capturada pela musicalidade da voz, uma enunciação em inglês que brinca com prolongamentos e zela em não estereotipar. E pela sonoplastia minimalista ao ilustrar o ranger de uma gaveta. Uma, duas vezes, porque na terceira não é preciso reproduzir: o público já imagina o atrito com o aço. Tudo bem que essas observações, em parte, estão indicadas no texto de Beckett. Chama a atenção, no entanto, a potencialidade desses recursos multiplicados em cena.


É como se Wilson iluminasse a presença óbvia do gravador na peça, signo de aprisionamento da voz humana e sua respectiva liberdade não menos avassaladora. Esse indício brota desde o primeiro segundo da apresentação, uma forte trovoada sob blecaute que deixa o espectador em sobressalto. Ela vai reverberar em outras passagens, em meio à chuva rumorosa. Sons mecânicos para fenômenos naturais – é dessa milimétrica incongruência que fala o homem do dramaturgo e o homem do diretor que radicaram a arte do teatro sem fronteiras.


O caminhar aparvalhado de Krapp, braços balançantes, colam com a mesma imagem do seu cocriador Wilson, saltitante e espevitado na hora dos aplausos. Um moleque no jardim da velhice.


A Última Gravação de Krapp

Montagem sintetiza representações visual, textual e sobretudo sonora

8 comentários to “Um moleque no jardim da velhice, Bob Wilson vibra com Beckett”

  1. Renata Caldas Says:

    Parabéns, Valmir!! Vou acompanhar o blog e indicar pra galera. Merda pro Teatrojornal!
    Abração, Renata

  2. vals Says:

    Maravilha, Renata. obrigado pela torcida e pelo espalhafato! Abraço. Valmir

  3. Nill Amaral Says:

    Valmir, daqui do Centro Oeste, precisamente de Campo Grande Ms, onde esta acontecendo o festival boca de cena, tenho acompanhado desde ontem o Teatrojornal, que descoberta maravilhosa, leio e releio as resenhas e é como se estivessemos aí, compartilhando desse momento.
    Sucesso ao blog.
    Nill Amaral

  4. Fidelis Says:

    Que vontade que me deu de assistir. Olha que em Belo Horizonte o FIT-BH 2010 foi cancelado e transferido para 2011,e uma das justificativas foi que não haviam espetáculos internacionais de qualidade. Ironia não?! Parabéns Valmir!

  5. Anderson Aníbal Says:

    Parabéns Valmir! Que maravilha saber que existe agora este espaço para momentos de reflexão! Já é um sucesso! Está marcado na minha barra de favoritos. Abraço!!!

  6. vals Says:

    Nill, é ótimo contar com sua interlocução daí de Campo Grande. Conte-nos brevemente sobre a cena teatral em sua cidade. Como é o Festival Boca de Cena, quanto tempo existe, quem o articula? Seja sempre bem-vindo. Abraço. Valmir

  7. vals Says:

    Anderson,
    Obrigado por contracenar daí das alterosas mineiras. Saudações à Companhia Clara e a todos os grupos de Belo Horizonte! Volte sempre. Um abraço. Valmir

  8. blog teatrojornal » Blog Archive » O ano Bob Wilson no Brasil Says:

    [...] de Samuel Beckett a reboboniar seu passado – mesma idade do artista americano. Escrevi aqui quando assisti em Bogotá, em [...]

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