Mostra Latino-Americana – Café quente em noite fria…

escrito por vals em maio 4, 2011

Glauco Garcia em cena com o Grupo Caos e Acaso, de Londrina

2011. O grupo fala em reafirmar um teatro popular. Saúda o Teatro do Oprimido, as técnicas e a filosofia irradiadas por Augusto Boal no exílio, o Brasil sob ditadura. Cita outros dramaturgos que resistiram com talento, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho. E leva para a cena a exploração de homens e mulheres no campo, narrativa de Café quente em noite fria ou O ensaio sobre a lenda do ouro verde. Nenhuma novidade temática para o país que, ainda agora, governado por uma militante torturada pelos militares, brande a bandeira do “Brasil sem miséria”. Só a estupidez ignoraria o vão das injustiças na larga base da pirâmide social. Mas o que surpreende no trabalho do Grupo Caos e Acaso de Teatro é deparar em sua cena com a tradução fundamentada da pesquisa de luz, do espaço cênico, da projeção, do acompanhamento musical ao vivo e, o ápice, munir seus atores com poética mínimas para aflorar sua capacidade inata de comediante na acepção mais nobre. Quem tem um Glauco Garcia para jogar com desenvoltura já andou metade do caminho. É ele quem ciceroneia o público, desmanchando a fila para embaralhar a ordem no saguão e os papéis de uma história que se passa tão longe, rural, e tão perto, na metrópole em que é vista. Identificações retomadas lá dentro, no palco, com o matuto Zé Alcino, ecos sutis de Mazzaropi e Oscarito, possesso com a exploração, e seu antípoda, Menelau, o faustoso proprietário de terras. A dramaturgia de Roberto Sales, também o diretor e contracenando, equilibra nos anos de 1975 e 1976 a lupa sobre as realidades de uma família de agricultores de Londrina, no Estado do Paraná, a “expulsão” para a esperança amazônica e a lente angular sobre o país em seus estrangulamentos sociais, econômicos e políticos ainda vigentes. As premissas do teatro épico, mixando a voz do narrador e do personagem, encontram atores e atrizes habilidosos, despidos tanto da empáfia virtuose como da obsolescência amadora que redunda sua arte às limitações da pobreza que ataca. A experiência desse núcleo que está à frente de um projeto social em sua cidade e põe fé na transformação por meio da arte revela que é possível zelar pelos aspectos formais de uma obra e não sabotar teatralidade. É como se Morte e vida Severina, o poema épico de João Cabral de Melo Neto, encenado nos anos 1970, e com ele o Teatro do Oprimido, fossem revitalizados, mais que atualizados, em diálogo efetivamente criativo e ideológico.


(Publicado originalmente no jornal latino-americano, que circula durante a Mostra)


Caos e Acaso de Teatro
6ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo


Outra cena da peça inspirada em técnias do Teatro do Oprimido















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