Aglaja Veteranyi e Nelson Baskerville

escrito por vals em junho 10, 2011

A escritora romena Aglaja Veteranyi em 1994

O encontro cênico de Nelson Baskerville com a escritora romena Aglaja Veteranyi (1962-2002) foi determinante para ele encarar sua história pessoal em Luis Antônio – Gabriela. O ator e diretor a descobriu por meio da Companhia Mungunzá de Teatro, formada em São Paulo em 2006, convidado a adaptar e encenar o romance Por que a criança cozinha na polenta. No livro, a autora recria sua memória de infância numa família de artistas de circo. As violências subliminares ou diretas do pai e da mãe, o álcool e a miséria corroboraram uma época de turbulências política e social sob a ditadura Ceausescu, o presidente executado em praça pública após insurreição popular no país do leste europeu, em dezembro de 1989.

A escrita de Aglaja superpõe o relato da perspectiva de uma criança com a realidade conflagrada lá fora. Sublinha as misérias material e espiritual dos seus familiares circenses. Pois Baskerville fez da montagem de 2008 – dois anos após a morte do irmão que o molestou aos 7 anos, se assumiu travesti, foi morar na Europa e não via há três décadas – o ponto de equilíbrio para atravessar o arame de aço até o passado, percorrer o cordão umbilical feito um funambulista a equilibrar coragem e arte. O criador enfrenta seus fantasmas sem ressentimentos, acolhido por um grupo de artistas cuja juventude e disposição ao risco o empurram adiante.

Luis Antônio – Gabriela é um fenômeno em que a imperfeição vem conjugada à cena para espelhar a vida e seus esconderijos. A irregularidade no conjunto das atuações e a música que parece conduzir a emoção do espectador em demasia resultam meros detalhes diante da capacidade do espetáculo expor falhas, fissuras e as tantas deformações inerentes aos personagens e situações sem submergir o projeto estético. A Mungunzá compõe uma narrativa firmada na palavra, na imagem e no corpo. O conteúdo simbólico e o material documentado emolduram essa aventura que dilacera e faz o teatro acontecer a cada noite em sua singularidade de encontros. A ponte com a ficção de Aglaja contribuiu muito para a depuração do percurso do diretor e do grupo. Uma poeta que fez da linguagem literária uma âncora diante da realidade que não suportou: ela se suicidou em 2002.


A crítica de Luis Antônio – Gabriela na revista Bravo!

A crítica de Por que a criança cozinha na polenta neste Teatrojornal

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