Sem pensar

escrito por vals em junho 19, 2011

Denise Fraga e Kiko Marques formam casal da peça

A produção de Sem pensar revela ao Brasil uma autora inglesa recém-saída da adolescência, montada em Londres no ano passado e prestes a aportar em Nova York. Mas o que a encenação faz com o que Anya Reiss propõe em sua peça (Spur of the moment) escrita aos 17 anos e na qual pinta o universo adulto com tintas corrosivas? Submete-se de forma apática, justo o diapasão que o texto discute, sem contrastar ou problematizar as questões presumidas na dramaturgia. A concepção do diretor Luiz Villaça passa um trator caricato sobre personagens já por si nos limites da estereotipia. São os pais, a filha, as amigas da filha e o rapaz que aluga um quarto na casa e ali recebe sua namorada.

O espetáculo não alivia o registro histérico transbordante nas interpretações. Na inabilidade com que as entrelinhas da pedofilia são tratadas. No maneirismo das participações das atrizes teen. Na trilha escapista, a batida em alto som flagrante da dificuldade dos criadores em entrar em contato com qualquer margem de sutileza. Na cenografia literalmente quadrada que divide os planos superior e inferior do imóvel, sugerindo simultaneidade ao que acontece nos cômodos, seus pontos mortos em que os atores são obrigados a “fingir” que estão fazendo algo enquanto o foco desloca-se para outro espaço da casa.

Falta espírito a esse projeto artístico. Um paradoxo, em termos. Fixa-se no corpo, a expressão do desejo ou ainda seu contrário, a morte em vida. O pai e a mãe, por Kiko Marques e Denise Fraga, vagam inertes em sua relação apequenada. E no mundo paralelo, sob o mesmo teto, transcorre o flerte entre a filha, por Julia Novaes, e o “forasteiro” dez anos mais velho, por Kauê Telloli, que provoca paixonites nas amigas dela e, ao mesmo tempo, dor de cotovelo por causa da namorada dele que surge depois. Villaça mimetiza a pasmaceira da família hipnotizada no sofá diante do televisor. Pais ilhados em suas idiossincrasias e alheios à iminência do abuso da filha por um estranho que hospedam.

O pretexto do que é disfunção não vinga no palco porque o subtexto é desprezado. O essencial, aquilo que os personagens ocultam por trás das palavras, não tem vez nem relevo. Tudo é uniforme, sem meio-tons. A encenação perde-se na esterilidade, parece não produzir os ruídos cuja temática desafiadora poderia supor na plateia majoritariamente de classe média que lota o Tuca. O espelhamento é fosco. Parte desse público ri em estado de afasia que a montagem apenas endossa. O cineasta Villaça debuta na direção teatral preocupado demais com marcações audiovisuais de espaço, de ritmo. Não é este que instaura o conteúdo, mas o contrário.

Fraga e Marques, por sua vez, estão descolados da inteligência de comediantes de longa data que são, no drama e na comédia, como aferido há pouco em A alma boa de Setsuan. Neste Sem pensar que sucede à consistente visita a Brecht, eles são cúmplices num choque de lugares-comuns inclusive na gestualidade, vide a coreografia das mãos a poluir suas falas.


Temporada no Tuca, em São Paulo


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